Dossiê chamada aberta

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Design de Moda, Processos Criativos e Novas

Materialidades 

  • Submissões:  janeiro a julho de 2026
  • Publicação: janeiro de 2027

Organizadores:

Dra. Aline Moreira Monçores (Universidade da Beira Interior – UBI, Portugal) Lattes

Dra. Caroline Loss (Universidade da Beira Interior – UBI, Portugal) Lattes

Dr. João Victor Azevedo de Menezes Correia de Melo (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro– PUC-Rio, Brasil) Lattes

Está aberta a chamada para o dossiê “Design de Moda, Processos Criativos e Novas Materialidades”, que convida todos a uma reflexão sobre o ato criativo e os materiais em uso. Vivemos um momento de dicotomias, no qual caminhos distintos surgem como solução para problemas produtivos contemporâneos, neste contexto, a coexistência e a colaboração tornam-se fundamentais para o design (Appadurai, 2014). A Moda, como manifestação do Design, necessita operar dentro de práticas sustentáveis, dependendo do contexto fabril ou cultural, retoma atividades tradicionais de grande valor social, absorve materiais não convencionais ou vale-se de altas tecnologias reduzindo consideravelmente seu impacto, perdas e resíduos. Como ponto central está o processo criativo, elemento fundamental na definição das formas, matérias e pré-definindo sua produção.

O ato criativo envolve não somente a forma, mas igualmente a seleção e intervenção na matéria que envolve o corpo numa “combinação de um estímulo imaginário com as limitações de um problema, e seu intuito é encontrar um ‘cruzamento’ entre eles, aquilo que chamamos de ideia” (AZNAR, 2011). Assim, técnicas como upcycling e reciclagem de fibras somadas ao uso de materiais não habituais como lonas, cortiças, metais e papéis abrem espaço para explorar soluções inovadoras aliadas à circularidade. Uma gama de resultados e experiências surgem da busca por soluções que aumentem o tempo de vida útil dos materiais já em circulação e reduzam a geração de descartes.

Novas materialidades têxteis tensionam a própria ideia de tecido como suporte passivo, reposicionando-o como tecnologia em si, capaz de mediar relações entre corpo, ambiente e sistemas informacionais. No campo das interfaces tecnológicas, os smart textiles e os wearables deslocam o vestuário do plano estritamente representacional para o de plataformas sensoriais e computacionais, nas quais fibras condutivas, polímeros responsivos e arquiteturas de dados tornam-se elementos centrais do projeto. Essa camada técnico-material reconfigura gestos, percepções e modos de presença, abrindo espaço para indumentárias que captam sinais vitais, modulam temperatura, respondem a estímulos ambientais ou performam visualmente dados intangíveis, articulando moda, design de interação, eletrônica embarcada e computação vestível.

Paralelamente, a construção de superfícies têxteis por meio de processos de manufatura aditiva e impressão 3D explicita o tecido como um campo de experimentação morfológica, estrutural e ecológica, em que a unidade projetual deixa de ser apenas o fio ou a trama e passa a ser o voxel, o nó paramétrico, o pattern programado. Ao permitir geometrias complexas, gradientes de rigidez e produção sob demanda, essas tecnologias aproximam o fazer de moda de lógicas de prototipagem avançada, reciclagem distribuída e economia circular, reconfigurando cadeias produtivas, regimes de autoria e noções de luxo ligadas à raridade técnica e à inteligência de materiais.  Não distante, a digitalização na indústria da moda busca otimizar os processos de design, produção e gestão de produtos físicos, ao mesmo tempo em que se utilizam ferramentas digitais para fortalecer práticas sustentáveis. Esse avanço promove a coevolução da atuação do designer de moda e têxtil, alinhando-a às transformações tecnológicas e sociais. Deste modo, o papel do designer se amplia, exigindo o desenvolvimento de uma linguagem compartilhada com engenheiros, o aprimoramento de competências técnicas e a proficiência em diferentes plataformas digitais, especialmente em softwares de desenho assistido por computador tridimensional (CAD 3D) (Sun & Zhao, 2018; Koerner, 2017). Paralelamente, cresce a demanda pela digitalização de materiais no desenvolvimento de produtos, em que a criação de tecidos digitais busca reproduzir, em ambiente virtual, a aparência e as características táteis de materiais têxteis e não têxteis físicos, impactando diretamente o começo, o processo criativo.

Questão condutora
Considerando o exposto, como conjugar diferentes sistemas produtivos e, de certo modo, culturais, para um vestuário que se alinhe às demandas contemporâneas tecnológicas, sustentáveis e locais? Buscando responder a esta indagação e inspirados por Appadurai, a proposta deste dossiê é abrir espaço para reflexões sobre moda a partir do conceito de coexistências, perpassando fazeres, tecnologias e materialidades.

Tópicos de interesse
Buscamos artigos que apresentem reflexões interdisciplinares e que contemplem, de maneira não exaustiva, os seguintes tópicos:

Materiais e processos criativos:

  • Materiais revisitados (antigos, tradicionais ou deslocados de seu uso original) que dialogam com o processo criativo, ou designers que se valem desses materiais como impulso criativo
  • O material têxtil como base do processo ou método criativo, sendo o material que define o objeto

Novas materialidades:

  • Interfaces tecnológicas, como por exemplo, o desenvolvimento de wearables
  • Construção de superfícies através de novos processos produtivos como a impressão 3D
  • Materiais digitais utilizados no processo de criação de prototipagem virtual
  • Experimentos de impressão direta sobre tecidos
  • Desenvolvimento de aviamentos e estruturas híbridas
  • Reflexões críticas sobre os impactos sociais, simbólicos e ambientais dessas novas materialidades têxteis

Outras perspectivas:

  • Técnicas e processos apoiados pela cultura;
  • O uso de saberes tradicionais em conjunto com tecnologias;
  • Aproximação entre tecnologias e o contexto local;
  • As inteligências artificiais como meio para a moda.
  • As tecnologias como mediadoras de uma construção simbólica da Moda, entre outros.

    Referências:

    APPADURAI, A. Il futuro come fatto culturale. Saggi sulla condizione globale. Milano: Raffaello Cortina, (2014.

    AZNAR, Guy. Ideias – 100 técnicas para a criatividade. São Paulo: Summus, 2011.

    FAN, W. et al. Textile production by additive manufacturing and textile waste recycling: a review. Environmental Chemistry Letters, 2024.

    GONÇALVES, J. M. C. S.; TEOFILO, V.; CAMPOS, F. F. C. Reflexões sobre a manufatura aditiva na produção e consumo de moda. Ponta Grossa: Atena, 2019.

    KOERNER, J. Digitally crafted couture. Architectural Design, 87(6) pp. 40-47. 2017.

    KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

    MANZINI, Ezio. Design para inovação social e sustentabilidade: comunidades criativas, organizações colaborativas e novas redes projetuais. Rio de Janeiro: E-papers, 2008.

    SALCEDO, Elena. Moda ética para um futuro sustentável. São Paulo: GG Brasil, 2014.

    SANCHES, Maria Celeste de Fátima. Moda e projeto: estratégias metodológicas em design. São Paulo: Estação das Letras e Cores, 2017.

    SAYEM, A, S. M. (2022). Digital fashion innovations for the real world and metaverse. International Journal of Fashion Design, Technology and Education, vol.15, n.2, pp. 139-141.

    SALTZMAN, Andrea. El cuerpo diseñado: la forma y el proyecto della vestimenta. Buenos Aires: Paidós, 2004

    SCHWAB, Klaus. A quarta revolução industrial. Tradução Daniel Moreira Miranda. São Paulo: Edipro, 2016.

    SUN, L.; ZHAO, L. Envisioning the era of 3D printing: a conceptual model for the fashion industry. Fashion and Textiles, v. 4, p. 25, 2017. https://doi.org/10.1186/s40691-017-0110-4

    SUN, L.; ZHAO, L. Technology disruptions: Exploring the changing roles of designers, makers, and users in the fashion industry. International Journal of Fashion Design, Technology and Education, vol. 11, n. 3, pp. 362-374. 2018. Londres: Taylor and Francis, 2018.

    VOLPATO, Neri. Manufatura aditiva: Tecnologias e Aplicações da Impressão 3D. São Paulo: Editora Blucher, 2017.