A expansão da educação superior em Santa Catarina e o modelo comunitário: uma análise histórico-crítica
DOI:
https://doi.org/10.5965/1984723827632026250Palavras-chave:
educação superior - Santa Catarina, universidades comunitárias, modelo comunitárioResumo
Este artigo examina a expansão da educação superior em Santa Catarina a partir da historicidade e das contradições do modelo comunitário, mobilizando a chave gramsciana de hegemonia e Estado ampliado. A sua relevância reside na tensão entre a democratização do acesso e a reprodução de padrões de exclusão e elitização. Daí decorre a questão: quais políticas, contradições e dinâmicas marcam essa expansão quando lida pelo prisma comunitário? O objetivo geral é analisar criticamente marcos históricos, políticas e rearranjos institucionais que estruturaram o sistema. Adota-se a pesquisa qualitativa, exploratória e documental, com metodologia histórico-crítica, utilizando legislação e programas estaduais, estatísticas do Censo da Educação Superior (2023) e dados públicos da SED/SC. Os achados indicam trilhas complementares: a via federal territorializou a gratuidade por universidades e institutos; a via estadual ampliou cobertura ao subvencionar demanda em IES privadas, comunitárias e mercantis, com capilaridade, porém frágil amarração para pesquisa, extensão e permanência. Emergiram contradições estruturais: captura oligárquica em colegiados, avanço do EaD privado e reconfiguração do portfólio formativo, além da conversão de recursos públicos em mensalidades. Conclui-se que a “densidade pública” não decorre do rótulo comunitário, mas de contrapartidas verificáveis: gestão participativa, orçamento com pisos para pesquisa/extensão/permanência, critérios redistributivos (renda, raça/cor, território), transparência e autonomia acadêmica.
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