
Entre a Arte e a História: depoimentos sobre o teatro alagoano e a ditadura
Entrevista com Otávio Cabral sobre sua trajetória na história do teatro maceioense
Concedida a Matilde Wrublevski | Aryelli Evely Silva | Francisco José Neves do Nascimento
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-26, abr. 2026
Quais os grupos mais marcantes que o senhor participou e quais
características pode destacar desses grupos?
Eu tenho muito prazer de ter participado do GTEC, por conta desse contexto
que eu falei para vocês, mas eu tenho muito orgulho de ter trabalhado com o
Teatro de Amadores de Maceió (TAM), talvez o grupo mais antigo daqui. Tenho,
igualmente, um orgulho muito grande de ter participado do Teatro Universitário de
Alagoas, o TUA, num momento muito difícil. Em 1969 você tinha AI-511 o Decreto
47712, Congresso de Ibiuna com as prisões dos estudantes, uma perseguição muito
grande a estudantes, professores, artistas. Eu estava lendo hoje uma matéria com
história do teatro falando da Bete Mendes. A Bete Mendes foi deputada Federal
pelo Partido dos Trabalhadores (PT), e eu me lembro dela fazendo a peça do
Guarnieri,
Ponto de Partida
. A Bete foi presa, torturada... Era um momento muito
difícil. Então eu tenho um orgulho muito grande de ter participado do TUA e do
TAM - e digo orgulho porque o TUA teve uma importância muito grande nessa
coisa que eu falei para vocês no começo: do processo de transformação da
sociedade e do enfrentamento contra a ditadura. Isso eu acho extremamente
positivo. Como presidente do TUA, nós fizemos duas coisas aqui que eu acho que
foram extremamente importantes: o primeiro Encontro de Poetas Universitários
de Alagoas – ENPUAL, e o Festival de Música Universitária. Veja, o TUA é teatro,
mas estava trabalhando com outras artes, contribuindo para o processo de
11 O Ato Institucional nº 5 (AI-5), decretado em 13 de dezembro de 1968 durante a ditadura militar brasileira,
marcou o aprofundamento do regime autoritário em um contexto de forte crise política, caracterizado pelo
crescimento das mobilizações sociais e pela tensão entre o governo e o Congresso Nacional. Após uma
derrota parlamentar que evidenciou limites ao poder do Executivo, o AI-5 concedeu ao presidente poderes
extraordinários, como fechar o Congresso, cassar mandatos, suspender direitos políticos, impor censura à
imprensa e restringir garantias fundamentais, como o habeas corpus em casos políticos, sem estabelecer
prazo de vigência. Esse ato intensificou a repressão estatal, ampliando a violência contra opositores e
concentrando ainda mais o poder nas mãos dos militares, além de afastar aliados civis moderados. Assim,
o AI-5 tornou-se um marco do período mais repressivo da ditadura, evidenciando como, diante de
instabilidade e perda de apoio, o regime recorreu a mecanismos de exceção para se manter, o que reforça
a importância de compreender esse processo para a reflexão sobre a preservação da democracia (MOTTA,
2018, p. 202). Para mais detalhes ver: Motta, 2018.
12 O Decreto-Lei nº 477/1969 foi um instrumento do período da ditadura militar que, em conjunto com o Ato
Institucional nº 5, ampliou significativamente o controle do governo sobre o ambiente universitário,
permitindo ao Estado definir infrações disciplinares e aplicar punições a professores, estudantes e
funcionários. Inserido em um contexto de centralização autoritária e repressão política, esse decreto
contribuiu para a supressão da liberdade de pensamento e expressão nas universidades, contrariando o
princípio de autonomia universitária que, embora formalmente reconhecido, era limitado na prática. Como
consequência, houve um enfraquecimento da liberdade acadêmica e um ambiente de vigilância e controle
que atingia não apenas as instituições de ensino superior, mas a sociedade brasileira como um todo
(VERGARA, 1988, p. 73). Para mais detalhes ver: Vergara, 1988.