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Chorume
:
uma experiência em “Teatro Documentário”
Cleilson Queiroz Lopes
Para citar este artigo:
LOPES, Cleilson Queiroz.
Chorume
: uma experiência em
“Teatro Documentário”.
Urdimento
Revista de Estudos
em Artes Cênicas, Florianópolis, v.1, n.57, abr. 2026.
DOI: 10.5965/1414573101572026e0205
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Chorume
: uma experiência em “Teatro Documentário”
Cleilson Queiroz Lopes
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-29, abr. 2026
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Chorume1: uma experiência em “Teatro Documentário”2
Cleilson Queiroz Lopes3
Resumo
Neste artigo abordo a trajetória da Companhia Ortaet de Teatro, o processo de
montagem e pesquisa de linguagem dentro do campo do “Teatro Documentário”, e de
alguns dos “documentos de cena” do espetáculo
Chorume
(2022), trabalhados. Como
aspecto metodológico, aproximo-me da “genética teatral que me auxilia na
compreensão e elaboração deste percurso, no qual sou também artista-criador. O
detalhamento do espetáculo Chorume, criado pela companhia em 2022, parte do
princípio que o processo e o resultante dele fortaleceram o fazer político da Companhia
Ortaet.
Palavra-chave
: Chorume. Documentos de Cena. Companhia Ortaet. Lixão de Iguatu.
Chorume
:
an experience in “Documentary Theater”
Abstract
This article discusses the trajectory of the Ortaet Theatre Company, the process of
staging and researching language within the field of "Documentary Theatre," and some
of the "stage documents" from the performance
Chorume
(2022), developed.
Methodologically, I draw on "theatrical genetics," which aids in understanding and
elaborating this journey, in which I am also a creative artist. The detailed analysis of the
performance Chorume, created by the company in 2022, is based on the principle that
the process and its outcome strengthened the political action of the Ortaet Company.
Keyword
: Chorume. Scene Documents. Ortaet Company. Iguatu dump.
Chorume
:
una experiencia en “Teatro Documental”
Resumen
Este artículo analiza la trayectoria de la Compañía de Teatro Ortaet, el proceso de puesta
en escena e investigación del lenguaje dentro del ámbito del "Teatro Documental", y
algunos de los "documentos de escena" de la obra
Chorume
(2022), desarrollada.
Metodológicamente, recurro a la "genética teatral", que facilita la comprensión y el
desarrollo de este recorrido, en el que también participó como artista creador. El análisis
detallado de la obra Chorume, creada por la compañía en 2022, se basa en el principio
de que el proceso y su resultado fortalecieron la acción política de la Compañía Ortaet.
Palabra clave
: Chorume. Documentos de escena. Compañía Ortaet. Vertedero de Iguatu.
1 Revisão ortográfica, gramatical e contextual do artigo realizada por Laíssa Mulato Moreira Lima - Especialista
em Linguística Aplicada na Educação pela Faculdade Única de Ipatinga Prominas. Graduação em Letras -
Língua Portuguesa e suas respectivas Literaturas pela Faculdade de Educação, Ciências e Letras de Iguatu -
FECLI/UECE.
2 Este artigo deriva de minha tese de doutorado, defendida em 2024, na Universidade do Estado de Santa
Catarina (UDESC), sob o título Documentos de cena na experiência da Companhia Ortaet de Teatro:
laboratório de Teatro Documentário para o espetáculo Chorume, sob orientação da professora doutora Maria
Brígida de Miranda.
3 Pós-Doutorado pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Doutorado em Artes Cênicas no
Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC).
Mestrado em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio - bolsista Capes).
Graduação em Teatro pela UNIRIO. Professor, Curador, dramaturgo, encenador, ator e parecerista.
cleilson-lopes@hotmail.com
http://lattes.cnpq.br/9953811932636474 https://orcid.org/0000-0002-6469-211X
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Introdução
O debate de interesse do presente artigo orbita entre a Companhia Ortaet de
Teatro, o processo de montagem e a pesquisa de linguagem dentro do campo do
“Teatro Documentário”, e de alguns dos “documentos de cena” do espetáculo
Chorume
(2022) desta Companhia, realizado no lixão a céu aberto da cidade de
Iguatu-CE e os catadores/as que dali tiram seu sustento.
Para atingir os objetivos aqui propostos, começo por apresentar a Companhia
Ortaet de teatro. Ela foi fundada em 1999 e mantém-se em atividade no interior
do estado do Ceará, localizada em Iguatu, minha cidade natal.
O município fica a 365 km de distância de Fortaleza, tem aproximadamente
cem mil habitantes, está entre os mais quentes do país e por onde passa o maior
rio seco do mundo, o rio Jaguaribe. Iguatu sobrevive predominantemente do
comércio, fomentado por cidades circunvizinhas menores, e da indústria
calçadista. Ainda hoje não possui cursos profissionalizantes, técnicos e ou
superiores na área das artes.
A Companhia Ortaet é um grupo amador que produz espetáculos autorais e
inéditos, possibilitando a fruição destes pelo público local (predominantemente
formado por estudantes secundaristas e universitários/as, professores/as,
pesquisadores/as, artistas, crianças e adolescentes, além de moradores/as do
centro da cidade). É também uma entidade privada responsável pela formação
artística de pessoas da cidade e região interessadas pelo fazer teatral,
desenvolvendo suas produções e atividades de forma constante por vinte e seis
anos e sendo uma das companhias mais antigas e politicamente organizadas da
região centro-sul do estado do Ceará em atuação.
O primeiro espetáculo da Companhia Ortaet de teatro foi R
omeu e Julieta no
Mercado Central
, uma comédia dirigida por Neidinha Castelo Branco nos anos 1999.
A primeira composição de integrantes, no ano de 1999, deu-se com sete pessoas.
Tratava-se de jovens atores/atrizes em busca de realizar uma montagem teatral
para participarem do Festival IV Mostra Iguatuense de Teatro Amador (MOITA),
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ainda sem sede e usando o espaço do salão paroquial do bairro Prado para realizar
seus ensaios.
Na trajetória do grupo, posso citar dois espetáculos importantes para a
construção de discurso e pesquisa de linguagem, que transformam os artistas
envolvidos pela pesquisa. São eles:
Silêncio por um minuto
(2014), com direção e
dramaturgia de Aldenir Martins, que foi um importante espetáculo autoral para
refletirmos sobre questões de gênero dentro da Companhia; e
Alugam-se Luas
(2024), dirigido e escrito por mim, que permeia fortemente o campo do fantástico,
a partir de um diálogo com crianças e adultos sobre aceitação da população
LGBTQIAPN+4.
Geralmente os/as integrantes que se identificam com direção no grupo são
Aldenir Martins, José Filho e eu. Ninguém da Companhia Ortaet vive
especificamente de teatro, apesar de alguns integrantes serem professores/as
formados/as em teatro. Atualmente a Companhia tem sede no bairro Cohab I,
periferia da cidade de Iguatu-Ce.
Em geral, o grupo concorre a editais de fomento cultural do Estado e
município, tais como Leis de Incentivo Aldir Blanc e Paulo Gustavo, mas este
recurso não é constante. ainda a relevante participação em alguns Festivais e
Mostras como: Festival de Teatro de Acopiara (FETAC), Mostra Sesc Cariri das Artes
e Festival Aldeia do Velho Chico
.
Antes de avançar para análise e detalhamento do espetáculo
Chorume
(2022), apresento algumas definições fundamentais que alicerçam esse estudo. A
primeira delas é a compreensão do “Teatro Documentário” como um campo
potencialmente artístico e político, em diálogo com o pesquisador Marcelo Soler
em sua tese de doutorado
O campo do Teatro Documentário
: morada possível de
experiências artístico-pedagógicas (2015).
Soler (2015) defende que o “Teatro Documentário” pode estabelecer-se como
um ato político, tendo em vista que tenta problematizar noções fixas sobre a
história, estimulando artistas e público a perceberem as possibilidades e tensões
4 LGBTQIAPN+ (lésbicas, gays, bissexuais, transsexuais e travestis, queer, intersexo, assexuais, pansexuais, não-
binárias e demais orientações identitárias)
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entre narrativas. Trabalho sobre este arcabouço teórico para pensar a prática
artística da Companhia Ortaet de Teatro, com foco no espetáculo
Chorume
(2022).
Dialogo também com o conceito de “documento de cena” a partir da aproximação
entre as questões de “documento histórico”, tal como proposto pela Nova História,
e elaborado por Le Goff no capitulo
A História Nova
, onde coloca:
A história nova ampliou o campo de documento histórico; ela substituiu
a história [...] essencialmente baseada em textos e em documentos
escritos, por uma história fundamentada numa ampla variedade de
documentos: escritos de todos os tipos, documentos iconográficos, [...]
documentos orais etc. (Le Goff, 2011, p. 133).
O historiador Le Goff destaca, de modo muito precioso para este trabalho,
que os novos estudos historiográficos devem levar “em consideração
todos os
documentos
legados pelas sociedades: o documento literário, o documento
artístico [...] devem ser integrados na explicação de uma dada sociedade [...] (Le
Goff, 2011, p. 169).
Se a noção de documento histórico se alterou a partir da
École dos Annales
Nova História -, a noção de cena também se expandiu ao longo dos séculos.
Como observa Patrice Pavis (1999, p. 42):
O termo cena conhece, ao longo da história, uma constante expansão de
sentidos: cenário, depois área de atuação, depois local da ação, o
segmento temporal no ato e, finalmente, o sentido metafísico de
acontecimento brutal e espetacular.
A compreensão de Pavis pode, atualmente ser mais expandida para objetos
de cena, figurinos, luz, som, e tudo mais que compõe a cena. O próprio texto
dramatúrgico e atorial passam a ser também considerados como “documentos de
cena”. Bem como tudo que for produzido a partir ou para o espetáculo ou
performance cênica. Neste artigo, portanto, trabalho com os conceitos de
“Documento Histórico”, “Documento de Cena” e o campo do “Teatro
Documentário”.
Como primeiro apontamento possível, posso dizer que “documentos de cena”
são documentos utilizados na cena - compreendendo que a ideia de documento
se expande para além de fontes oficiais a partir da Escola dos Annales - e que
estabelecem com o/a espectador/a, de forma objetiva, uma relação direta com o
real, por vezes expondo, bem como também editando, criticando e recriando este
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próprio real no teatro. “Documentos de cena” existem em um espetáculo
teatral, por meio de uma abordagem pedagógica que considera profundamente a
relação entre: documentos, atores/atrizes, encenador/encenadora e
espectadores/as.
Compreendo aqui “documentos de cena” enquanto materialidade
documental percebida na cena - jornais, revistas, entrevistas, diários, fotografias,
áudios de depoimentos reproduzidos e objetos que podem não ter o aspecto
documental em primeiro momento, mas podem estabelecer essa característica
dramaturgicamente -, e o “Teatro Documentário” como campo específico do
espetáculo
Chorume
(2022).
A metodologia deste artigo é pautada em aspectos da “genética teatral”, a
partir dos pesquisadores Grésillon, Mervant-Roux, Budor no artigo intitulado
Por
uma genética teatral
: premissas e desafios (2013) e da pesquisadora e professora
Dra. Silvia Fernandes no artigo intitulado
Performatividade e Gênese da Cena
(2013).
Esta metodologia contempla o percurso que trilhei dentro da Companhia
Ortaet como artista-pesquisador e produtor, mais especificamente na montagem
do espetáculo
Chorume
(2022), pois estou envolvido na investigação dos mais
diversos documentos, que vão desde artigos de jornais até conversas informais
com os/as artistas-criadores/as do lixão do Iguatu situado no bairro da
Chapadinha.
Para além da narrativa escrita, este artigo se configura também como uma
narrativa visual, na qual fotografias, por vezes, são comentadas, outras vezes se
colocam no espaço de abrir outras camadas possíveis dentro dessa experiência
de pesquisa.
Companhia Ortaet e a escolha do bairro da Chapadinha
Nós que formamos a Companhia Ortaet e a montagem do espetáculo
Chorume
(2022) realizamos, a partir do contexto social do bairro Chapadinha da
cidade de Iguatu, uma investigação sobre as histórias de vida da população, sua
cartografia, os empreendimentos que ali são formados, a realidade e os estigmas
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sociais que carregam, com foco no estudo de documentos, jornais locais, pesquisa
de campo e relatos orais dos/as moradores/as, que serviram como disparadores,
leitmotiv
, na construção do discurso cênico.
Como abordado na introdução, a Companhia Ortaet de teatro realizou uma
imersão no cotidiano do lixão e dos/as artistas-criadores/as usando como aparato
metodológico: entrevistas, fotografias, vídeos, estudo bibliográfico, cartografias,
debates, conversas e encontros.
Essa imersão se deu pois, enquanto grupo, percebíamos muito tempo
as violências que os/as moradores/as locais e os/as trabalhadores/as do lixão a
céu aberto, que dali tiravam seu sustento, sofriam, por parte do poder público, dos
iguatuenses e da mídia local, tendo em vista o tipo de reportagem que ali era
realizado:
Fumaça do lixão é problema antigo e ainda sem solução
5;
Lixão da
Chapadinha
: quatro décadas sem solução6; e
Moradores do bairro Chapadinha
reclamam de fumaça do lixão
7.
No lixão da Chapadinha havia também uma placa (
outdoor
) com a frase:
“Lixão, vergonha de Iguatu.” A intenção não era excluir os problemas climáticos e
de saúde pública de um espaço como um lixão aberto, mas propor uma linha
narrativa que combatesse os estigmas sociais imputados aos catadores/as, junto
à pesquisa de linguagem do grupo que levava em consideração documentos,
mas ainda de forma muito intuitiva.
Neste período, solicitei e recebi autorização dos/as participantes e da
Associação de catadores/as do bairro Chapadinha, presidida pela catadora
Rosimeire da Silva. Entre os anos de 2020 e 2022, para a montagem do espetáculo,
a Companhia realizou encontros e reuniões via
Meet
, e, em algumas
oportunidades, de forma presencial, quando a disseminação da
Covid-19
diminuía
na nossa região. Alguns encontros continuaram após a estreia da peça.
A professora e pesquisadora Cecília Almeida Salles (2022), na obra intitulada
Gesto Inacabado
: processos de criação artística, ao pesquisar exemplos da crítica
5 https://www.jornalapraca.com.br/fumaca-do-lixao-e-problema-antigo-e-ainda-sem-solucao/
6 https://www.jornalapraca.com.br/lixao-da-Chapadinha-quatro-decadas-sem-solucao/
7 https://www.jornalapraca.com.br/moradores-do-bairro-Chapadinha-reclamam-de-fumaca-do-lixao/
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genética na dança, teatro, cinema, literatura, e, principalmente, nas artes visuais,
diz que, “cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos,
uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e
reordenado de todas as maneiras possíveis" (Salles, 2022, p. 107). Assimilando o
processo e conceitos de Salles, buscamos assim, construir um processo
colaborativo com os/as moradores/as de Iguatu no período que se estende de
2020 até 2024, firmado como práxis a dramaturgia autoral para suas encenações.
Iniciamos as visitas no dia 15 de fevereiro de 2021, com um primeiro café da
manhã realizado no lixão e conhecendo alguns/algumas catadores/as. Neste dia
perguntamos se conheciam ou tinham ido ao teatro. Apenas três haviam dito
que conheciam, pois tinham visto na escola do bairro e na rua. Apresentamos
rapidamente a ideia do projeto e as oficinas que seriam realizadas, a partir do que
nos retornaram sobre horários e disponibilidade.
As duas oficinas de teatro ocorreram nas datas de 15 de março de 2021 à 19
de março de 2021 e 23 de agosto de 2021 à 27 de agosto de 2021, realizando duas
apresentações ao término de cada oficina, nos dias 19 e 27 de agosto de 2021. A
primeira oficina ocorreu na escola municipal E.E.F Judite Cavalcante Silva, do
bairro Chapadinha e a segunda oficina na sede da Companhia Ortaet, na época,
localizada no centro da cidade de Iguatu.
Uma oficina de fotografia também foi realizada em 24 e 25 de agosto de 2021,
além de exercícios e práticas realizadas durante os anos de 2020 e 2021 a partir
dos encontros, totalizando 55 encontros até a estreia do espetáculo. Os encontros
continuaram durante as temporadas, estreias, circulações, debates após
espetáculos, totalizando mais 26 encontros. Somamos a este processo mais 89
ligações para Rosimeire da Silva feitas por mim, que articulou os encontros,
oficinas e formações entre o Ortaet e os/as moradores/as da Chapadinha.
Deste contato e processos de formação, os/as catadores/as engajados neste
processo de pesquisa artística, e que aqui são artistas criadores/as do bairro da
Chapadinha, foram Rosemeire da Silva, Alderina Oliveira, Fernando Pereira, Eliane
Cristina, Cicera Leide, Dona Neta (Francinete Lopes) e José Herculano de Lima.
Dentro da Companhia Ortaet e com os/as artistas que formam o grupo,
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também nos organizamos a partir do engajamento e disponibilidade para com o
projeto. Sendo assim, os/as atores/atrizes do espetáculo
Chorume
(2022) são
Betania Lopes, Ronald Carvalho, Aldenir Martins, Carla Morais e eu. Dramaturgia de
minha autoria juntamente com Aldenir Martins. Direção e assistência de direção,
Marcelo Soler e José Filho, respectivamente.
O lixão: o cartão postal de Iguatu
Este aqui é um depósito de restos. Às vezes vem também descuidos. Restos e
descuidos... Economizar as coisas é maravilhoso porque quem economiza tem... As
pessoas têm que prestar atenção no que usam e no que tem, porque ficar sem é muito
ruim
” (Estamira, 2007)
Figura 1 -
Sobre o lixão
- Imagem do lixão da cidade de Iguatu8
De acordo com o
Plano Municipal de segurança alimentar e nutricional
(2015)
da cidade de Iguatu, o lixão se situa às margens da CE-282, distante 5 km da zona
urbana. Ele começou a ser formado no ano de 1989 e encontra-se saturado e
recebendo lixo há mais de 30 anos (2015).9
8 Fonte:
Print
de Imagem realizada a partir do
Google Maps
. 28-02-2023
9 Os dados podem ser observados através do link:
https://www.mds.gov.br/webarquivos/arquivo/seguranca_alimentar/caisan/Publicacao/Caisan_Municipal/15_
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A fumaça resultante das queimadas espontâneas ou produzidas e o chorume
que depreende dos apodrecimentos e fermentações de toneladas de materiais
descartados afeta a vida de todos/as, prejudicando todo o bioma e o ecossistema.
A população mais atingida é a do bairro Chapadinha, considerado um dos bairros
de maior vulnerabilidade social, com falta de implementação das mais diversas
políticas públicas, por conseguinte um dos mais pobres de Iguatu.
Ainda de acordo com o documento, “o lixão de Iguatu está saturado, com a
presença de detritos que ocupam a Rodovia CE-282... Além da contaminação
do lençol freático, existe outro grave problema da poluição do ar provocada pela
queima do lixo” (2015, p. 45).
Figura 2 -
A vista mais impactante da cidade Iguatu
- Lixão da cidade de Iguatu10
De acordo com o pesquisador Henrique de Melo Carneiro, em sua dissertação
de mestrado intitulada
Aspectos socioambientais da geração e gestação de
resíduos sólidos em comunidades de baixa renda em Iguatu – estudo de caso do
bairro Chapadinha
(2011), o bairro teve origem em 1970. As famílias da Chapadinha
CE-Iguatu_Plansan.pdf
10 Fonte: acervo digital da Companhia Ortaet. Foto: Daniel Macedo, 09 maio 2021.
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são, ainda hoje, predominantemente de baixa renda, sendo o bairro formado por
sete ruas e dividido ao meio pela CE-282, maior rodovia que acesso à cidade
de Icó (Carneiro, 2011).
Para Carneiro (2011), a grande maioria dos moradores do Bairro Chapadinha
acredita em prejuízo real das suas vidas por conta da existência do lixão a céu
aberto naquele bairro (em média 88,8%), a partir de animais como moscas, ratos
e baratas. O animal mais citado nas pesquisas foi o mosquito da dengue. E
continua, ao dizer que “esta relação entre lixo, proliferação de animais nocivos e
enfermidades que estes animais podem transmitir ao homem são informações
que podem ser usadas no processo de educação formal e informal para alertar os
moradores sobre o assunto e ampliar o leque de alternativas no contexto da
Educação Ambiental” (Carneiro, 2011, p. 119).
No entanto, o que se percebe é que estas políticas públicas não se efetivam
na cidade de Iguatu e, mais do que isto, nem chegam a ser consideradas ou
mesmo propostas no âmbito da câmara dos vereadores. A sensação é que um
possível aterro, embargado anos pelo Ministério Público - MP, resolveria os
problemas do bairro com o lixão a céu aberto, mas que qualquer alternativa à
morosidade deste processo estaria fora de cogitação. Nenhuma política de
contenção destas pragas foi utilizada até a atualidade.
Ainda para Carneiro, “quando questionados sobre as doenças relacionadas a
esses animais ou doenças relacionadas ao contato com o lixo, as infecções foram
citadas por 69,1% dos moradores. Logo em seguida, a dengue foi citada com 59,7%.
As alergias e o tétano também foram citados com 52,9% e 46,0%, respectivamente.
Ainda houve citações para leptospirose, câncer e tifo, e 2,5% (7 pessoas) afirmaram
não saber” (Carneiro, 2011, p. 120).
Para além da pesquisa aprofundada de Carneiro a partir da aplicação de
questionários (2015), também visitamos o lixão da Chapadinha diversas vezes e,
por mais que não tenhamos utilizado questionários, em forma de conversas, por
vezes gravadas, também encontramos estas falas sendo repetidas pelas pessoas
do bairro em relação ao lixão da cidade de Iguatu. Celia Cardoso11 nos relatou que
11 Em algumas ocasiões, Celia Cardoso é a representante do bairro diante do Poder Público. Porém,
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os casos de câncer se multiplicam na Chapadinha e, embora não se tenha um
estudo mais aprofundado deste caso em específico, alguns médicos da região
ressaltaram que o motivo dos casos de câncer terem se multiplicado no bairro,
pode ser em decorrência da poluição do ar, por meio da fumaça, e do solo, por
meio do chorume.
Cenas e cotidiano do lixão se cruzam no espetáculo
Chorume
Após as informações coletadas diretamente a partir de conversas com
moradores/as, criamos uma cena intitulada
Vento do Aracati
, a qual transcrevo
uma parte em seguida:
ALDENIR: Já o primeiro sopro chega à tardinha. Vem daquele lugar.
CLEILSON: Diferente do segundo, o primeiro a gente vê: fumaça, causada
por um processo químico de combustão de materiais descartados.
RONALD CARVALHO: Este sopro entra pela boca, passa pela goela, bate
aqui bem no meio dos peitos e pesa. Falta de ar, os zoi vermelho e
coçando. Problemas de pele. Goela sangrando...E
ALDENIR: Câncer. Esta fumaça vem para todas as pessoas da cidade, mas
principalmente para os moradores e moradoras do bairro Chapadinha.
CLEILSON: Lá existem aproximadamente 800 habitantes.
RONALD: Nenhuma política pública de juventude.
ALDENIR: Nenhuma alternativa para os catadores do lixão
CLEILSON: Cresce Iguatu conduz o teu progresso
(hino de Iguatu) (Chorume, 2022, p. 3).
Esta cena faz uma associação entre o vento do Aracati, que chega à noite
para amenizar o calor na região, utilizando-se de gírias tipicamente regionalistas,
de forma leve e descontraída, chegando ao vento da fumaça do lixão que chega
em toda a cidade, mas principalmente no bairro da Chapadinha. A cena começa
leve e vai ficando cada vez mais densa até o seu término. O ar começa,
o bairro não possui ainda, presidente, ou mesmo representação formal.
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literalmente, a pesar, bem como acontece frequentemente na cidade de Iguatu.
Figura 3 - Cena
Vento do Aracati
- fumaça do lixão produzida cenicamente.
Acervo digital do SESC Petrolina. Foto: André Amorim, 24 ago. 2022
Um vento que assola também muitas cidades do Nordeste e do Brasil todo.12
Muitas vezes, a representação do Nordeste é feita de forma ironizada,
problemática, desconstruída e exposta no seu lugar de imagem que serve
historicamente ao capital.
Ao pensar o “Teatro Documentário” feito no Nordeste, a partir do espetáculo
Chorume
(2022), defendo que buscamos um tipo de teatro feito no Nordeste que
questiona o Teatro Nordestino (enquanto teatro puramente regionalista), pois as
imagens e cenas tipicamente nordestinas, são elaboradas de forma extremamente
irônica, demonstrando assim que o corpo nordestino também faz parte da lógica
capitalista de consumo, especialmente na lógica do consumo e descarte, e
produção de lixo e degradação ambiental.
12 Segundo o jornal
A Folha de São Paulo
(2022), o Governo Bolsonaro desejava procrastinar o encerramento
dos lixões no Brasil, que seria no ano de 2024 para o ano de 2063. Pesquisa realizada em 13/06/2022. Link
do site: https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2022/05/ritmo-do-governo-bolsonaro-para-acabar-com-
lixoes-empurra-meta-para-2063.shtml
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De acordo com Anna Ariane Araújo de Lavor, Antônio Carlos Alves da Silva,
Mariana Emídio Oliveira Ribeiro, Luciana Turatti, no artigo intitulado
Conflitos
Causados pelos Lixões
: Uma análise comparativa da situação do Brasil com o
Município de Iguatu-CE (2017), embora seja a maior cidade e a economia do
Estado, Iguatu não tem aterro sanitário adequado, como sugere a lei 12.305/10 que
institui a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), possuindo um dos maiores
lixões do estado do Ceará. Segundo a lei, tais lixões deveriam estar extintos até o
ano de 2014.13
O problema ambiental é tratado por Silma Pacheco Ramos (2014) no texto
A
lei da política nacional de resíduos sólidos e a meta de implantação de aterros
sanitários no Brasil
, o qual informa que: “constitui-se em instrumento essencial na
busca de soluções para um dos mais graves problemas ambientais do Brasil, o
mal destino dado aos resíduos sólidos, impondo a necessidade de substituir os
lixões a céu aberto por aterros sanitários como medida de proteção ambiental”
(Ramos, 2014, p. 2).
Dito isso, durante conversas nas primeiras visitas ao lixão em 2021, a artista-
criadora do bairro Chapadinha e presidenta da Associação de Catadores, Rosimeire
da Silva, informou que em média 60 famílias tiram seu sustento do lixão da cidade
de Iguatu. No entanto, trabalham diariamente em condições insalubres, com riscos
diversos à saúde de todos/as.
Do lixão da cidade, algumas pessoas moradoras do bairro Chapadinha tiram
seu sustento e principal fonte de renda. Assim como o chorume, que escorre do
lixão e polui os mananciais, a terra e o ar causando mau cheiro, os/as
moradores/as da Chapadinha, em virtude de sua realidade social e histórica, são
vistos/as por moradores/as de outros bairros como o próprio elemento que infecta
o tecido social da cidade de Iguatu. Os discursos associam o bairro à causa de
grande parte das mazelas sociais que acometem o restante da cidade, tais como:
a violência urbana e a pobreza.
13 Uma nova Lei prorrogou esta extinção para 2024 e mais recentemente o Governo presidido por Jair Messias
Bolsonaro desejou adiar este processo para o ano de 2063, mas sem sucesso. Apesar da lei atual falar na
extinção para o ano de 2024, ainda existem mais de 1500 lixões a céu aberto ativos no Brasil, segundo o site
Senado Notícias: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2024/08/02/na-data-limite-para-fim-de-
lixoes-destino-dos-residuos-ainda-desafia-municipios
Chorume
: uma experiência em “Teatro Documentário”
Cleilson Queiroz Lopes
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-29, abr. 2026
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O catador Francisco Gomes relata em entrevista cedida para o repórter
Honório Barbosa (2020) no jornal
Diário do Nordeste
, que os catadores trabalham
em condições insalubres e muitos deles não têm os equipamentos adequados de
uso individual. Observamos esse fato durante nossas visitas ao lixão. Além de o
lixo não chegar separado, correndo o risco de terem materiais perfurocortantes e
até mesmo contaminados, os/as próprios/as catadores/as não portam luvas, em
sua maioria.
Na época da pandemia da
Covid-19
(entre 2020 e 2022), também não eram
disponibilizadas máscaras para realizar a coleta. É possível que, caso ocorra a
construção de um aterro sanitário e a criação de uma cooperativa de seleção e
reciclagem para os/as catadores/as, o cenário do que vimos se modifique.
Figura 4 -
Cartão postal da cidade de Iguatu
- Lixão da cidade de Iguatu
Acervo digital da Companhia Ortaet. Foto: Daniel Macedo, 08 maio 2021
Em entrevista cedida para esta pesquisa em 27 de janeiro de 2019 via
skype
,
publicada na
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas, intitulada “O
Teatro Documentário e o Nordeste: documentos no processo de criação, Quitéria
Kelly” (Lopes, 2020), a diretora e atriz do Grupo Carmin, relata-nos que o “Teatro
Documentário” busca transitar entre a micro e a macropolítica. Neste sentido,
como refletir sobre o contexto geral da estrutura dos diversos lixões do Brasil a
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partir do nosso local, experiência e relação entre os/as artistas-criadores/as foi
uma das perguntas que orientaram o processo de montagem do espetáculo
Chorume
(2022).
Destaco que o mundo contemporâneo produz uma carga excessiva de
objetos, consome e descarta como se esta ação não tivesse consequências a
curto, médio e longo prazo para o meio ambiente. Na obra do ambientalista Ailton
Krenak (2020), intitulada
O amanhã não está à venda
, o autor destaca que o
planeta não aguenta mais as demandas humanas, com tragédias diferentes e
pessoas morrendo em praticamente todos os cantos do planeta. E prossegue, ao
comentar sobre Jair Messias Bolsonaro: “O presidente da república disse outro dia
que brasileiros mergulham no esgoto e não acontece nada. O que vemos nesse
homem é o exercício da necropolítica, uma decisão de morte” (Krenak, 2020, p. 6).
Em um país no qual o próprio ex-presidente, até pouco tempo atrás,
banalizou e orgulhava-se da falta de educação, da ausência de saneamento básico
e de políticas públicas efetivas de saúde, não poderia existir propaganda maior que
explicitasse o iminente colapso social. Infelizmente, a política do Brasil encontra-
se, em 2024, em um momento extremamente fragilizado – por conta do governo
anterior - e é bastante triste perceber que esgoto e chorume foram exaltados em
meio à fome e às altas taxas de desemprego. Krenak (2020) diz que fazemos parte
deste organismo que é a terra, não somos uma coisa e a terra outra. Neste sentido,
afirmo que, sem sombra de dúvidas, as feridas da terra também nos dizem
respeito e nos causam consequências permanentes.
É com o intuito de perceber, de olhar com cuidado para estas feridas
presentes no Estado, nas instituições e em nós mesmos, que surge o espetáculo
Chorume
(2022). Antes de avançar, se faz necessário uma breve sinopse de cada
uma das oito cenas que se desenvolve durante os seus 60 minutos de duração,
divididas em um único ato.
Cena 1 (festa
black tie
) os/as atores/atrizes estão vestidos de
black tie
,
tomando
champagne
e recebendo o público para o primeiro leilão, que se trata de
uma boneca
barbie da mattel
; Cena 2 (lavagem de mãos) – nessa cena a atriz lava
as mãos do ator enquanto o mesmo diz que não faria uma peça no lixão da cidade,
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segue-se para o leilão de uma empregada nordestina e, depois de leiloada, ocorre
outro salto para a temática de uma mulher iguatuense hipocondríaca que também
não faria uma peça no lixão de Iguatu; Cena 3 (comércio) essa cena vai trabalhar
mais especificamente a questão do consumo/descarte, utilizando panfletos de
lojas locais que são distribuídos enquanto a poluição sonora também acontece;
Cena 4 (quem sou eu) realizamos uma autodescrição afetiva para em seguida
apresentar as fotografias das catadoras do lixão da cidade de Iguatu que
participaram do processo. Nessa cena as questões de gênero começam a ser
também mais pontuadas; Cena 5 (os pratos) – a atriz Betania Lopes se inspira em
uma história de violência doméstica e de superação vivenciada por uma das
catadoras participantes da pesquisa, seguindo com as três atrizes falando sobre
objetos encontrados no lixão que viram “documentos de cena”; Cena 6 (rádio)
duas atrizes assumem o papel de radialistas da cidade e trazem à tona questões
contemporâneas como a positividade tóxica, a ideia de
coach
, a forma violenta de
se noticiar o lixão e as violências contra a mulher; Cena 7 (corpos encontrados no
lixão) – as atrizes noticiam casos de feminicídio atrelados aos lixões a céu aberto
no Brasil, até desembocarem em um caso ocorrido no lixão de Iguatu; Cena 08
(Leilão do Chorume) – nessa cena leiloamos o último item: Chorume do lixão em
um frasco de vidro transparente. Em seguida, cada ator/atriz diz que não tem
culpa do que está acontecendo, se despindo e tomando banho em uma vasilha
de alumínio. O silêncio se instaura apenas com o barulho da água nos corpos, a
penumbra vai aumentando e então ocorre o
blackout
.
Quando o grupo se expande: Artistas-criadores/as do bairro Chapadinha
Como citado antes, os/as artistas criadores/as do bairro Chapadinha, que
fizeram parte da pesquisa, diretamente, criando junto, e a partir de suas histórias
de vida foram: Rosemeire da Silva, Alderina Oliveira, Fernando Pereira, Eliane
Cristina, Cicera Leide e Dona Neta (Francinete Lopes). Sempre muito solícitos/as
ao nos receberem. Além das conversas, realizamos visitas de observação, alguns
exercícios, como um dia de fotografias pelo lixão, além de duas oficinas de Teatro,
onde tivemos a participação de dez pessoas, em média.
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Figura 5 -
redemoinho de corpos
. Oficina com artistas-criadores/as da Chapadinha na sede da
Companhia Ortaet. Acervo pessoal da Companhia Ortaet. Foto: Aldenir Martins, 25 ago. 2021
Se analisarmos que, dentro da Companhia Ortaet, em seus vinte e seis anos,
foi a primeira vez que o grupo se colocou em um trabalho de campo tão
direcionado, podemos dizer que tivemos sorte. Este grupo de seis pessoas
demonstrou, durante estes dois anos de vivências, não apenas disponibilidade,
mas desejo. Desejos de oficinas, desejo de ver um espetáculo que realmente
representasse os seus anseios e desejo de fazer teatro, “apresentar”, como
costumavam dizer sempre.
Foi muito interessante perceber como dois grupos com especificidades tão
distintas, Ortaet e artistas criadores/as da Chapadinha, se aglutinaram descobrindo
diversas afinidades éticas e ideológicas, inclusive. Tudo isso facilitou o trabalho e
nos impulsionou a continuar mesmo nos momentos mais difíceis do processo.
Nos maiores conflitos de montagem do espetáculo, o encontro com estas seis
pessoas e, às vezes, uma palavra, eram reveladores, e então o conflito tornava-se
minúsculo. Foi neste momento, da artesania teatral, que esse senso de
comunidade ficou tão visível para o Ortaet. Repito: nós tivemos sorte e eu não
posso perceber estas pessoas de outra forma a não ser como artistas.
A artista-criadora Francinete Lopes (Dona Neta) é observadora, tem uma voz
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potente e fala pouco, mas sempre surge com uma piada que faz todo mundo
parar para escutá-la. Quando viu o ensaio do
Chorume
pela primeira vez, me disse:
adorei, você tem o olho forte.
A artista-criadora Cicera Leide é prestativa, ajudou-nos em alguns dias,
principalmente no dia em que tivemos que gravar uma cena da atriz Carla Morais
tomando um banho de chorume no meio do lixão (23 abr. 2021). Também adorava
elucidar as histórias de relacionamento durante os encontros, principalmente a
história dela com Fernando Pereira, também artista colaborador. Eles se
conheceram trabalhando em uma festa e se reencontraram no lixão de Iguatu. A
narrativa é utilizada no espetáculo, no qual a atriz Betânia Lopes utiliza um vestido
de noiva, um “documento de cena” encontrado pela atriz no lixão da cidade de
Iguatu. Em todos os ensaios, Cicera aguardava a cena do vestido e comentava da
plateia: “olha aí, tá chegando a minha cena.”
Figura 6 -
Relatos de Casamentos. Memórias de rituais no arquivo à céu aberto lixão
. Imagem
da apresentação
Chorume decantado
(2021).
Print
da apresentação em
vídeo disponível no
YouTube
, 28 mar. 2021.
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Figura 7 -
Baile de casamento
. Imagem do espetáculo
Chorume
(2022). As atrizes Aldenir
Martins e Betânia Lopes na cena do casamento. Acervo digital do Centro Cultural do Cariri.
Foto: Zizome Gouveia 23 mar. 2024
O artista-criador Fernando Pereira é igualmente prestativo. Nas oficinas e
encontros ele era o primeiro a cobrar a presença e pontualidade de todos os
artistas e todas as artistas . Sempre muito atento, percebia quando alguém estava
ausente e, neste período de encontros, se descobriu um apaixonado por
fotografias, produzindo as melhores e mais próximas fotografias dos urubus.
A artista-criadora Alderina Oliveira é uma potência. Bastante articulada,
expressiva e de uma capacidade de comunicação invejável. Também bastante
prestativa e trazia questões muito pessoais para o espetáculo. Alderina tinha
facilidade em sintetizar seus sentimentos e histórias, em produzir ensinamentos
a partir deles, além de dar bons conselhos. Trouxe temas tanto engraçados quanto
difíceis durante todo o processo.
A atriz-criadora Eliane Cristina é bastante participativa e muitas vezes
chegava com ensinamentos atuais sobre diversidade e aceitação. Uma vez
estávamos eu, José Filho e ela (13 abr. 2021), voltando de um exercício, e ela disse
em meio a outras coisas: “Aqui nós aceitamos todo mundo: pobres e ricos, brancos
e pretos, viado e sapatão.” Essa fala está presente no espetáculo.
A atriz-criadora Rosimeire da Silva apresenta-se em primeiro momento como
uma mulher tímida. Essa é apenas a primeira impressão. Rosimeire foi a principal
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articuladora entre a Companhia Ortaet e os/as trabalhadores/as do bairro
Chapadinha. Sempre paciente e prestativa, amorosa. Em algumas ocasiões,
passamos algumas semanas sem nos comunicarmos e quando nos
encontrávamos ela sempre dizia que sentia saudades. Essa fala também se
encontra presente na dramaturgia do espetáculo. O sonho de Rosimeire da Silva
é ver seus filhos felizes.
A partir destes encontros, conversas e amizade que se formou ao longo de
quase três anos de convivência, construímos, no espetáculo
Chorume
(2022), uma
descrição afetiva inspirada pelos dados compartilhados pelos/as próprios/as
artistas-criadores/as da Chapadinha em conversa, ao apresentar na cena teatral a
fotografia deles/as.
Alderina Oliveira se define como uma mulher parda, de cabelo crespo e curto,
e olhos pretos. Tem sete filhos. Trabalha no lixão dezoito anos e na Chapadinha
ela mora há trinta. Começou a trabalhar no lixão há vinte anos e hoje tem 47 anos
de idade.
Eliane Cristina se define como uma mulher de estatura “baixinha, mas nem
tão baixa”. Olhos castanhos, parda, cabelos lisos e curtos. Tem seis filhos, três do
primeiro casamento e três do segundo. Tem 40 anos e trabalha no lixão de Iguatu
há dezessete anos.
Figura 8 - “
Deixe-me ir preciso andar, vou por aí a procurar rir pra não chorar
- Eliane Cristina
no lixão de Iguatu. acervo digital da Companhia Ortaet. Foto: Daniel Macedo, 08 maio 2021
Chorume
: uma experiência em “Teatro Documentário”
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Rosemeire da Silva se autodeclara como morena, cabelos longos e olhos
castanhos. Tem cinco filhos, casou somente uma vez e tem vinte e oito anos de
casada. Trabalha no lixão vinte e seis anos, a idade da sua filha mais velha. É
presidenta da associação de catadores/as do bairro da Chapadinha.
Francinete Lopes (Dona Neta), 53 anos. Trabalha como catadora no lixão da
cidade de Iguatu e como empregada doméstica. Dona Neta adotou dois idosos que
apareceram no lixão de Iguatu totalmente desamparados e até hoje cuida dos dois.
Figura 9 -
Um processo de curadoria
- Lixão da cidade e Iguatu. Acervo digital da
Companhia Ortaet. Foto: Daniel Macedo. 24-08-2022
A cartografia do lixão, bem como os corpos que o atravessam, imprimem
uma infinidade de relações de afeto e é necessário que o/a artista do campo do
“Teatro Documentário” esteja atento/a para descobrir as chaves, os pontos de
encontro e de distância, os conflitos e os afagos a partir deste acervo. E, entre eles
e nós, nos mesmos espaços, o do lixão e o do teatro.
Chorume
: Principais referenciais para o processo de criação do
espetáculo
Quando voltei para o Ceará no ano de 2018, percebi o interesse na pesquisa
da Companhia Ortaet de Teatro da qual faço parte e, a partir de uma demanda
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: uma experiência em “Teatro Documentário”
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pessoal de estudos que vinha realizando na graduação e mestrado, sugeri que
montássemos um espetáculo de “Teatro Documentário” sobre o lixão da cidade
de Iguatu. O termo “Teatro Documentário” foi novo para a maior parte do grupo,
que gostou e aceitou a proposta, motivados a iniciar os estudos.
O termo “Teatro Documentário” foi apresentado através de leituras, nas quais
a bibliografia era associada, geralmente a uma peça ou entrevista, que abordasse
questões do campo de estudos. Estas discussões aconteciam semanalmente a
partir do material lido e assistido durante a semana. O desejo de montar uma peça
de “Teatro Documentário” foi proposto por mim, mas no decorrer das semanas e
dos estudos, ao utilizar como exemplos as peças montadas da Companhia
Ortaet de Teatro, fomos percebendo que, apesar de poucos/as integrantes
conhecerem o termo, já havia características do "Teatro Documentário" – ou pelo
menos da utilização de “documentos de cena” e como propulsores de cena - em
montagens como
Silêncio por um minuto
(2014) e
Neci
(2017). É importante
ressaltar como os estudos sobre “Teatro Documentário” foram imprescindíveis
para amadurecer a compreensão de espetáculos montados na Companhia
Ortaet.
No ano de 2019, o grupo encontrava-se em um momento de pesquisa de
linguagem e descoberta sobre o que já vinha sendo feito, mas que, até então, não
havia amparo teórico e/ou metodológico. Propus o projeto
Chorume
para suprir
esta lacuna e incentivar a retomada da prática de estudos do coletivo, além da
pesquisa de campo e laboratórios para uma maior apropriação do seu fazer. Os
estudos centram-se no campo do “Teatro Documentário” e nas questões de
consumo e descarte que circunscrevem a cidade de Iguatu e o lixão que o margeia.
No filme documentário
Estamira
, de Marcos Prado (2007), que retrata a vida
e trabalho em um lixão do Rio de Janeiro, uma das falas de Estamira reflete o que
deveria ser essencial numa sociedade que tanto descarta quanto a nossa: “você
tem sua camisa, você vestido, suada. Você não vai tirar sua camisa e jogar
fora. Você não pode fazer isto.”
Outra importante obra de referência para o espetáculo é o filme de curta-
metragem documentário
Ilha das Flores
(1989), do diretor Jorge Furtado. O que
Chorume
: uma experiência em “Teatro Documentário”
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chama atenção neste filme é o processo de montagem realizando o percurso que
os alimentos fazem desde a plantação, passando pelos supermercados, pela casa
das pessoas, até serem descartados para, em seguida, serem encaminhados para
a Ilha das Flores, bairro que recebe todo este descarte e fica estigmatizado por
conta da recepção do lixo.
No filme a seguinte frase: “Em Porto Alegre, um dos lugares escolhidos
para que o lixo possa cheirar mal e atrair doenças, chama-se Ilha das Flores” (Ilha
das Flores, 1989). A montagem do filme é bastante objetiva e impactante,
demonstrando as desigualdades de forma direta e crua. O diretor trabalha com
trocadilhos sobre o nome do bairro dizendo que não existem muitas flores nele.
Minha sensação é um misto de choque com certo despreparo em relação à ética
do trabalho, pois o filme não revela a humanidade daquele espaço, somente o que
ele tem de cruel.
Para o processo de estudos do espetáculo
Chorume
(2022), o filme rendeu
um ótimo debate sobre a ética no ato de documentar, tendo em vista haver
várias críticas após o filme, onde moradores/as relatam que o bairro se encontra
ainda mais estigmatizado e muitos não conseguem emprego quando colocam nos
seus currículos o endereço de onde moram.
Iniciamos os estudos em março de 2019, de forma
online
. Debatemos filmes,
documentários, palestras, leituras de dissertações, teses e artigos sobre o tema.
Estudávamos o material durante a semana e debatíamos aos sábados à tarde.
Neste tempo, fomos elaborando também um projeto para possíveis seleções de
incentivo à cultura do estado do Ceará.
Em geral, eu e José Filho mediamos os estudos sobre “Teatro Documentário”,
escolhendo leituras, filmes e peças para ver/ler durante a semana, e assim
proporcionar um debate mais fluido e horizontal com toda a Companhia Ortaet, e
não apenas de forma expositiva. Os encontros aconteciam entre os dias de sexta
e sábado.
A escolha do título do espetáculo
Chorume é o líquido que se forma do acúmulo de lixo e se infiltra na terra.
Líquido poluente de cor escura e odor nauseante oriundo de uma série de
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processos químicos, biológicos e físicos de decomposição. No projeto de
montagem do espetáculo
Chorume
(2022), este líquido nauseante é uma metáfora
do perigo, da imagem de causa e consequência. Algo que não vemos, mas impacta
diretamente as nossas vidas.
De acordo com Celere et al (2007) em seu artigo intitulado
Metais presentes
no chorume coletado no aterro sanitário de Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil, e sua
relevância para saúde pública
, chorume é um líquido com altas concentrações de
compostos orgânicos e inorgânicos. De composição variável, dependendo das
condições pluviométricas, tempo de disposição e características do lixo. Em geral,
possui altas concentrações de metais pesados e compostos orgânicos oriundos
da degradação das substâncias. Apresenta substâncias bastante solúveis, podendo
vazar e alcançar recursos hídricos ou infiltrar-se no solo e chegar a reservatórios
de águas subterrâneas, comprometendo definitivamente sua qualidade.
A explicação feita pela autora chama atenção, tendo em vista que o chorume
proveniente do lixão na cidade do Iguatu não é debatido pelos meios de
comunicação, assim como a fumaça do lixo, que chega em praticamente toda a
cidade de forma visível e no mesmo horário de fim de tarde. Parece que, como o
líquido não está visível, não interesse em se refletir sobre o assunto, mesmo
sendo tão danoso à saúde coletiva quanto a fumaça proveniente da queima destes
mesmos resíduos. É comum a prática de negligenciar o chorume, assim como é
negligenciada a qualidade de vida dos/as catadores/as que tiram do lixo o seu
sustento.
O documentário Estamira (2007) também tem uma definição para
chorume
.
O diretor Marcos Prado capta a definição enquanto o líquido borbulhante e quente
encontra-se no segundo plano da imagem:
Eu não gosto de falar lixo não, mas vamos falar lixo. É cisco né? É caldo
de início... é fruta, é carne, é plástico fino, é plástico grosso, é num sei o
que lá mais, e aí vai azedando e é isso tudo. E aí faz esse puquê sabe? E
imprensa, azeda. Fica tudo danado e faz a pressão também. E vem
o sol e esquenta, mais o fogo de baixo. forma o gás carbônico, o gás
carbônico que serve até pra cozinha. Mas ele é forte, ele é brabo, tem
gente que não se habitua com ele (Estamira, 2007, 121 min).
Esta definição extremamente poética da catadora, revela também uma
Chorume
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compreensão muito experiencial em relação à força e ao impacto, além de revelar
alguns dos processos químicos do chorume. O filme como um todo consegue
poetizar o caos que é o lixão trazendo um fio condutor para todas as metáforas
reveladas na sua fala. Percebo-a, não como um caso de loucura, mas de uma
hiper-realidade. Então, Estamira apresenta no filme o lixão desta forma,
aparentemente caótico. Rememoro o filósofo Georges Didi-Huberman (2013) na
obra
Diante da imagem
: questão colocada aos fins de uma história da arte, no qual
o autor diz que até mesmo uma chuva de estrelas tem a sua organização.
Nós, enquanto grupo de teatro, não podemos negligenciar este debate, tendo
em vista o desejo de construir um processo que não somente fale sobre um
espaço, mas que o seu discurso represente e reflita de forma humanizada as
pessoas que ali vivem e que têm contribuído com a pesquisa. É preciso propor um
processo de montagem que parta do diálogo e não da imposição estética, de um
olhar colonizatório e preconceituoso, arriscando atrapalhar aquela comunidade
muito mais que ajudá-la.
Considerações
O espetáculo
Chorume
(2022) teve sua estreia na cidade de Fortaleza-CE, no
dia 09 de julho de 202214,dentro do laboratório Porto Iracema das Artes, na Mostra
de Artes da Porto Iracema (MOPI). A apresentação ocorreu no Theatro José de
Alencar (TJA). Foi uma importante experiência para a companhia Ortaet, tendo em
vista as dificuldades em conseguir apresentar na capital do Estado. Ainda se
percebe toda a plateia utilizando máscaras, por conta da
Covid-19
.
Neste artigo, observei a força política visível no cotidiano dos/as
moradores/as e artistas-criadores/as da Chapadinha. Entro no bairro com um
desejo de escuta e percepção, como um estudante que se deixa atravessar e
aprende enquanto observa. É nesse movimento que começamos nossas primeiras
visitas e conversas com os/as colaboradores/as e artistas-criadores/as do bairro
14 Link da apresentação: https://www.youtube.com/watch?v=6WkzR87ZbL0&t=80s
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Chapadinha.
O espetáculo
Chorume
(2022) atravessa a Companhia Ortaet de maneira
muito especial. O processo de imersão neste bairro possibilitou muitas outras
camadas e leituras sobre o espaço e as pessoas que dali tiram seu sustento. Creio
que com o espetáculo, alcançamos um lugar crítico, mas que também o humaniza,
com recortes cômicos, bem como momentos de tristeza e dificuldades. Apesar
de tudo, ver o sentimento de comunidade e ajuda mútua é uma característica da
identidade do bairro Chapadinha que poderia servir de exemplo para vários outros
bairros e comunidades, onde este tipo de virtude está também se perdendo.
Nos relacionar com os “documentos de cena”, dentro deste arquivo a céu
aberto que é o lixão da cidade de Iguatu, nos ajuda na compreensão dos mesmos
enquanto materialidade, de uma cena que parte não apenas de uma ideia ou de
um campo específico, mas da materialidade das coisas. Neste sentido, as
fotografias presentes atravessam este texto, bem como a encenação do
espetáculo
Chorume
(2022), aparecendo no mesmo de forma a ser vista, ou
mesmo disparando possibilidades dramatúrgicas.
A partir desse debate, percebo como os lixões a céu aberto no Brasil são
ainda uma mazela ambiental destrutiva para todo o seu entorno. Falando mais
especificamente do lixão a céu aberto da cidade de Iguatu, observado e
experienciado de forma mais profunda em mais de dois anos de imersão, percebo-
o como um espelho para a falência capitalista, onde a relação entre consumo e
descarte se escancara e onde a civilidade, educação e cortesia dos/das
trabalhadores/as daquele espaço não apagam a sua violência, mas complexifica
e aprofunda sua contradição. Tendo tudo isso em vista, o espetáculo
Chorume
(2022) torna-se mais um espaço onde a voz dos historicamente silenciados pode
ser escutada.
Referencias
BARBOSA, Honório. Lixão gera poluição e compromete a saúde pública em Iguatu.
Site Diário do Nordeste
, 2020. Disponível em:
https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/regiao/lixao-gera-poluicao-e-
compromete-a-saude-publica-em-iguatu-1.3012743. Acesso em: 29 maio 2021.
Chorume
: uma experiência em “Teatro Documentário”
Cleilson Queiroz Lopes
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-29, abr. 2026
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CARNEIRO, Henrique de Melo.
Aspectos Socioambientais da Geração e Gestão de
Resíduos Sólidos em Comunidades de Baixa Renda em Iguatu-CE - Estudo de Caso
do Bairro Chapadinha
. 2011. 183 f. Dissertação (Mestrado em Engenharia de
Produção) - Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2011.
CELERE, M.S.; OLIVEIRA, A.S.; TREVILATO, T.M.B.; SEGURA-MUÑOZ, S.I. Metais
presentes no chorume coletado no aterro sanitário de Ribeirão Preto, São Paulo,
Brasil, e sua relevância para a saúde pública.
Cadernos de Saúde Pública
, v. 23, n.
4, p. 939-947, 2007.
CHORUME. Manuscrito inédito. 2022. Dramaturgia de Aldenir Martins e Cleilson
Queiroz.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Diante da imagem: questão colocada aos fins de uma
história da arte. Trad: Paulo Neves. 1ª edição. São Paulo: Editora 34, 2013.
FERNANDES, Silvia.
Performatividade e Gênese da Cena
. Porto Alegre: Revista
Brasileira de Estudos da Presença, Porto Alegre, 2013. Disponível em:
http://www.seer.ufrgs.br/presença
GRÉSILLON, Almuth; MERVANT-ROUX, Marie-Madeleine; BUDOR, Dominique. Por
uma Genética Teatral: premissas e desafios.
Revista Brasileira de Estudos da
Presença
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Filmes
ESTAMIRA. Direção: Marcos Prado. Rio de Janeiro: Europa Filmes, 2007.
ILHA DAS FLORES. Direção: Jorge Furtado. Rio Grande do Sul. Duração: 13 minutos,
1989.
Recebido em: 22/10/2025
Aprovado em: 10/04/2026
Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC
Programa de Pós-Graduação em Teatro PPGT
Centro de Arte CEART
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas
Urdimento.ceart@udesc.br