1
Improvisar para revelar: a escola em cena e os
discursos que a constituem
Eduardo Piras
Para citar esta Resenha:
PIRAS, Eduardo. Improvisar para revelar: a escola em
cena e os discursos que a constituem.
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas, Florianópolis, v. 1,
n. 57, abr. 2026.
DOI: 10.5965/1414573101572026e0802
A Urdimento esta licenciada com: Licença de Atribuição Creative Commons (CC BY 4.0)
Improvisar para revelar: a escola em cena e os discursos que a constituem
Eduardo Piras Neto
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-7, abr. 2026
2
Resenha da obra
GONÇALVES, Jean Carlos.
Qualquer semelhança não é mera coincidência
: um
olhar para a escola a partir do teatro. São Paulo: Hucitec Editora, 2023. 118 p.
(Coleção desEducar v.1). ISBN 978-85-8404-292-0
Improvisar para revelar: a escola em cena e os discursos que a constituem
Eduardo Piras Neto
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-7, abr. 2026
3
Improvisar para revelar: a escola em cena e os discursos que a constituem1
Eduardo Piras2
Resumo
A obra
Qualquer Semelhança Não É Mera Coincidência
, de Jean Carlos Gonçalves, analisa a
escola como espaço simbólico e performativo, utilizando a improvisação teatral como
método investigativo e político. Fundamentada na Análise Dialógica do Discurso e em estudos
foucaultianos, a pesquisa revela como discursos escolares são tensionados e contestados
na cena teatral. Por meio de uma estrutura dramatúrgica e de jogos teatrais, o autor evidencia
relações de poder, subjetividades e disputas simbólicas no cotidiano escolar. O trabalho
contribui para as áreas de Educação, Linguagem e Arte ao valorizar a escuta e o testemunho
como formas legítimas de produção de conhecimento.
Palavras-chave
: Improvisação teatral. Análise dialógica. Discurso escolar. Educação e arte.
Poder e linguagem.
Improvising to reveal: the school on stage and its constituent discourses
Abstract
The work
Qualquer Semelhança Não É Mera Coincidência
, by Jean Carlos Gonçalves, analyzes
the school as a symbolic and performative space, using theatrical improvisation as an
investigative and political method. Based on Dialogic Discourse Analysis and Foucaultian
studies, the research reveals how school discourses are tensioned and contested on
theatrical studies. Through a dramaturgical structure and theater games, the author
highlights power relations, subjectivities, and symbolic disputes in everyday school life. The
work contributes to Education, Language and Art by valuing listening and testimony as
legitimate forms of knowledge production.
Keywords:
Theatrical improvisation. Dialogic analysis. School discourse. Education and art.
Power and language.
Improvisar para revelar: la escuela en escena y los discursos que la constituyen
Resumen
La obra
Cualquier semejanza no es mera coincidencia
, de Jean Carlos Gonçalves, analiza la
escuela como espacio simbólico y performativo, utilizando la improvisación teatral como
método investigativo y político. Basada en el Análisis Dialógico del Discurso y estudios
foucaultianos, la investigación revela cómo los discursos escolares son tensionados y
cuestionados en la escena teatral. Mediante una estructura dramatúrgica y juegos teatrales,
el autor evidencia relaciones de poder, subjetividades y disputas simbólicas en el cotidiano
escolar. El trabajo aporta a la Educación, Lenguaje y Arte al valorar la escucha y el testimonio
como formas legítimas de producción de conocimiento.
Palabras clave
: Improvisación teatral. Análisis dialógico. Discurso escolar. Educación y arte.
Poder y lenguaje.
1 Revisão ortográfica, gramatical e contextual da resenha realizada por Matheus Gonsalves das Neves,
mestrando em Letras, vinculado à linha de pesquisa Linguagem e Práticas Sociais, no Programa de s-
Graduação em Letras (PGLetras) da Universidade Federal do Paraná.
2 Mestrando em Educação, vinculada/o à linha de pesquisa LiCorEs Linguagem, Corpo e Estética na
Educação, no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) na Universidade Federal do Paraná (UFPR).
edu.pirasneto@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/1533006981658155 https://orcid.org/0009-0007-8531-6213
Improvisar para revelar: a escola em cena e os discursos que a constituem
Eduardo Piras Neto
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-7, abr. 2026
4
Jean Carlos Gonçalves, em
Qualquer Semelhança Não É Mera Coincidência
:
um olhar para a escola a partir do teatro
(Hucitec, 2023), oferece ao leitor uma
forma provocativa e original, valendo-se da linguagem teatral, em especial da
improvisação, como método investigativo, epistemológico e político. A obra, que
revisita e atualiza a dissertação de mestrado do autor, defendida em 2008, é
reescrita com a maturidade intelectual acumulada ao longo de anos de atuação
acadêmica no campo da Educação, das Linguagem e das Artes.
A proposta central da obra é examinar os sentidos atribuídos à escola por
meio da prática da improvisação teatral. Gonçalves propõe que os discursos
encenados, mesmo quando emergem de jogos cênicos espontâneos, não apenas
representam a escola, mas também a produzem simbolicamente, deslocando,
ressignificando e até contestando os sentidos cristalizados sobre ela. Nesse
sentido, a escola se torna, na perspectiva do autor, uma cena viva, na qual se
encenam disputas por poder, lugares de fala, subjetividades e identidades.
Inserida na linha de pesquisa “Discurso e Práticas Educativas”, a obra ancora-
se teoricamente na
Análise Dialógica do Discurso
, formulada por Bakhtin e o
Círculo3, estabelecendo um diálogo fértil com os estudos de Michel Foucault sobre
o saber, poder e discurso. Essa articulação é uma das grandes contribuições da
obra: ao reunir Bakhtin e Foucault, Gonçalves constrói uma abordagem
metodológica potente, que permite analisar os enunciados como eventos
históricos e sociais constituídos por múltiplas vozes e tensionados por relações de
poder. A leitura dialógica proposta vai além da superfície do discurso, evidenciando
os conflitos e as disputas que o permeiam.
O livro é estruturado em uma dinâmica dramatúrgica, na qual cada ato de
cena representa um “capítulo”; desse modo, a obra assume uma teatralidade
como forma de estudo. No 1º Ato, Gonçalves compartilha com o leitor o percurso
de sua pesquisa, os deslocamentos teóricos vivenciados e as escolhas
metodológicas realizadas. O que inicialmente seria uma investigação sobre a
3 Mikhail Bakhtin e seu "Círculo" foram um grupo de intelectuais russos que desenvolveram teorias sobre a
linguagem, o discurso e a literatura, com foco no dialogismo, na interação social e na relação entre linguagem
e contexto.
Improvisar para revelar: a escola em cena e os discursos que a constituem
Eduardo Piras Neto
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-7, abr. 2026
5
improvisação como recurso didático evolui para uma pesquisa voltada à
compreensão dos sentidos de escola construídos por estudantes de teatro a partir
da improvisação. Trata-se de um movimento epistemológico significativo, que
prioriza a escuta dos sujeitos e das vozes dissidentes que habitam o espaço
escolar ainda que muitas vezes silenciadas.
No Ato, o autor estabelece o pano de fundo teórico e conceitual da obra.
As contribuições de Viola Spolin e Keith Johnstone são mobilizadas para situar a
improvisação como prática cênica e pedagógica centrada na espontaneidade e na
escuta do outro. A esse diálogo, Gonçalves acrescenta as contribuições de Anne
Ubersfeld e de Bakhtin sobre a dupla enunciação, destacando a coexistência das
vozes do autor e do personagem na cena teatral. Com isso, evidencia-se que os
estudantes, ao improvisarem, não apenas representam papéis, mas também
produzem sentidos a partir de suas experiências e de seus lugares sociais.
É nesse ponto que a obra se afirma como um projeto de escuta: escutar o
que os sujeitos têm a dizer sobre a escola, não apenas enquanto vivência, mas
como produção cênica. A presença de Foucault no texto amplia essa análise,
permitindo ao autor investigar os mecanismos de controle, vigilância e disciplina
presentes nos discursos sobre o espaço escolar. A escola, assim, é compreendida
como uma instituição na qual as relações de poder são negociadas, tensionadas
e, por vezes, subvertidas.
O 3º Ato é o “ponto alto” da obra. Nele, Gonçalves analisa os dados empíricos
produzidos a partir de oficinas teatrais realizadas com estudantes de teatro. Os
jogos de improvisação foram gravados, transcritos e interpretados com base na
Análise Dialógica do Discurso e nas contribuições foucaultianas. Os personagens
criados pelos estudantes ocupam lugares sociais que revelam e questionam os
modos de funcionamento da escola como instituição disciplinar.
A cena em que aparece o professor (p. 61), por exemplo, evidencia o papel
ambíguo que esse sujeito ocupa: ora visto como autoridade incontestável, ora
como alguém em constante negociação. Já a diretora é representada como figura
de soberania, cujo discurso autoritário simboliza um poder institucional quase
absoluto. O personagem “Bobo”, nomeado pelo autor, se destaca por seu papel de
Improvisar para revelar: a escola em cena e os discursos que a constituem
Eduardo Piras Neto
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-7, abr. 2026
6
resistência política. Ele questiona, desafia e perturba a lógica do controle, um
personagem de representatividade política fundamental pelo poder de manipular
de forma lúdica interesses seus ou de outrem, tornando-se uma metáfora da voz
dissonante e do sujeito que insiste em não se enquadrar em dinâmicas de
soberania e autoritarismo. As “Gêmeas”, outras personagens nomeadas pelo autor,
por sua vez, representam a ausência de personalidade do sujeito: silenciosas,
conformadas e ocupando um lugar de reprodução do discurso dominante, a fim
de manter sua imagem social preservada ao custo da neutralidade.
O autor também oferece uma análise sensível do espaço físico da escola. A
disposição das carteiras, a centralidade do professor, o controle do corpo e da
fala: todos esses elementos são lidos como dispositivos de poder, que moldam os
sujeitos e suas possibilidades de enunciação. Aqui, o teatro se revela uma
ferramenta não apenas de representação, mas de evidência de estruturas que
sustentam a escola como espaço de ordenamento simbólico e disciplinar.
O epílogo do livro conecta-se com precisão às reflexões desenvolvidas ao
longo da obra. Gonçalves reafirma a linguagem como dimensão constitutiva da
vida social e da subjetividade, defendendo a prática teatral como um caminho para
a escuta, o diálogo e a transformação. A inclusão da seção “Palavras ao Vento
Memórias da Escola”, após a escrita do epílogo, enriquece ainda mais o texto,
reunindo vozes diversas que compartilham suas experiências escolares de forma
sensível e potente. Trata-se de uma escolha política e ética, que valoriza o
testemunho, a memória e a multiplicidade dos olhares sobre a escola.
Gonçalves finaliza sua obra com a afirmação que a intitula:
Qualquer
semelhança não é mera coincidência
”. De fato, ao encenar a escola no palco da
linguagem, ele nos provoca a reflexões profundas sobre nossas práticas cotidianas,
nossos modos de educar e de sermos educados, convidando-nos a imaginar e
construir outros possíveis caminhos para a cena escolar, tanto no âmbito
educacional quanto no artístico.
Do ponto de vista acadêmico, pode-se concluir que:
Qualquer Semelhança
Não É Mera Coincidência: um olhar para a escola a partir do teatro
representa uma
contribuição relevante e original para os estudos em Educação, Linguagem e Artes
Improvisar para revelar: a escola em cena e os discursos que a constituem
Eduardo Piras Neto
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-7, abr. 2026
7
Cênicas. Ao propor o teatro como método de investigação e produção de
conhecimento, a obra rompe com paradigmas tradicionais da pesquisa qualitativa
e amplia o escopo do que se entende por práticas educativas e pedagógicas. Mais
do que uma dissertação, a obra é um convite à ressignificação do ambiente e da
estrutura escolar, à valorização das vozes que a habitam e à escuta dos silêncios
que a constituem.
Trata-se de uma obra que não apenas discute a escola, mas a performa. É
uma escrita viva e engajada, que mobiliza teoria, prática e afeto. Uma leitura
indispensável para pesquisadores, professores, estudantes e artistas que
acreditam na potência transformadora da educação e na capacidade da arte de
iluminar o que, por vezes, permanece velado.
Recebido em: 21/10/2025
Aprovado em: 02/03/2026
Universidade do Estado de Santa Catarina
UDESC
Programa de Pós-Graduação em Teatro
PPGT
Centro de Arte CEART
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas
Urdimento.ceart@udesc.br