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Apas
: um mergulho não linear na imensidão
simbólica do processo de criação e saberes transversais
Mariane Magno Ribas
Para citar este artigo:
RIBAS, Mariane Magno.
Apas
: um mergulho não linear na
imensidão simbólica do processo de criação e saberes
transversais.
Urdimento
Revista de Estudos em Artes
Cênicas, Florianópolis, v.1, n.57, abr. 2026.
DOI: 10.5965/1414573101572026e0204
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: um mergulho não linear na imensidão simbólica do processo de criação e saberes transversais
Mariane Magno Ribas
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-33, abr. 2026
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Apas
: um mergulho não linear na imensidão simbólica do processo de criação e
saberes transversais1
Mariane Magno Ribas2
Resumo
Com base na pesquisa
Movimentos Profundos, Corpo Sonoro, Imensidão e Vozes
,
este artigo buscou refletir sobre a experiência desenvolvida no período entre 2024.1
e 2024.2. A escrita emergiu do mergulho reflexivo e sensível sobre a prática em
laboratório, na qual foram articulados os conceitos propostos pela pesquisa,
conteúdos simbólicos do projeto artístico e saberes transversais despertados no
percurso, cujo contexto de tempo e espaço se fez durante o processo de criação do
espetáculo performativo
Apas
.
Palavras-chave
: Processo de criação cênica. Devaneio poético. Água. Saberes
transversais.
Apas
: a nonlinear dive into the symbolic immensity of the creative process and cross-
disciplinary knowledge
Abstract
Based on the experience developed by the research project Deep Movements, Sound
Body, Immensity and Voices, the article discusses the period between 2024.1 and
2024.2. The writing emerges from the reflective and sensitive dive into the laboratory
practice, through which the concepts proposed by the research, symbolic contents
of the artistic project and transversal knowledge awakened along the way were
articulated, whose context of time and space was made during the process of
creating the performance show
Apas
.
Keywords
: Scenic creative process. Poetic of reverie. Water. Cross-disciplinary
knowledge.
Apas
: una inmersión no lineal en la inmensidad simbólica del proceso de creación y
los conocimientos transversales
Resumen
A partir de la experiencia desarrollada en la investigación Movimientos Profundos,
Cuerpo Sonoro, Inmensidad y Voces, el artículo abarca el período comprendido entre
2024.1 y 2024.2. La escritura surge de la inmersión reflexiva y sensitiva en la práctica
de laboratorio, a través de la cual se articularon los conceptos propuestos por la
investigación, contenidos simbólicos del proyecto artístico y conocimientos
transversales despertados en el camino, cuyo contexto de tiempo y espacio fue
creado durante el proceso de creación del espectáculo performático
Apas
, dirigido
por mí.
Palabras clave
: Proceso de creación escénica. Ensoñación poética. Agua.
Competencias transversales.
1 Revisão ortográfica, gramatical e contextual do artigo realizada pela Profa. Ms. Camila Steinhorst, doutoranda
em Letras pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
2 Doutorado e Mestrado em Artes pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Graduação em
Educação Artística Licenciatura Plena Habilitação pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
Professora Associada - Nível 4 da Universidade Federal de Santa Maria. marianemagno@hotmail.com
http://lattes.cnpq.br/5734251151926724 https://orcid.org/0000-0002-3582-1381
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O contexto3
O projeto de pesquisa
Movimentos Profundos, Corpo Sonoro, Imensidão e
Vozes
teve início em agosto de 2018 e contou com três grupos distintos. O recorte
deste artigo refere-se ao período de 2024.1 e 2024.2, tempo em que trabalhamos
ininterruptamente, incluindo o período de suspensões advindas pela calamidade
climática ocorrida no Rio Grande do Sul (RS). Este artigo mobiliza criticamente
conceitos propostos no trabalho e maneja saberes que o atravessaram durante o
processo de criação do espetáculo performativo
Apas, locus
da pesquisa em 2024.
Em relação à temática, a água havia sido definida em março de 2024, antes
das chuvas que afetaram o RS, em maio do mesmo ano. Posteriormente, eu e
Milena Paim, discente participante da pesquisa, decidimos manter a diretriz
temática escolhida. Nesse momento, entendemos que, após certo
distanciamento emocional, retomaríamos o diálogo sobre a poética e os discursos
cênicos a serem levados à cena.
A metodologia inicial abordou corporalmente o tema água a partir de diversas
perspectivas e contextos, tais como: a composição do corpo humano e do planeta
Terra; os movimentos coletivos como deslocamentos diaspóricos; a liquidez em
movimentos interrelacionais; as dimensões simbólicas; os movimentos poéticos;
as referências mitológicas; a falta de acesso à água potável; e, por fim, as
repercussões imaginárias da escassez de água na vida humana, no planeta e como
continente do inconsciente.
3
Apas
é um espetáculo performativo em que as partes foram criadas sobre o mesmo tema, Água, de modo
autônomo. Todavia, estudos sobre uma sequência de composições direcionou a criação de uma poética.
Ainda assim, as partes mantêm a autonomia podendo ir à público separadamente. A estreia ocorreu em
setembro de 2024, no Teatro Caixa Preta do Centro de Artes e Letras/UFSM.
Cena I - O destino da Água que Corre
Cena II - Tenha Piedade
Cena III - Redemoinhos da Mente
Cena IV - Tempestade I
Cena V - O Mar de Caronte
Cena VI - Tempestade II
Cena VII - Gotas Diaspóricas
Cena VIII - Banho em 2050
Cena IX - O Mar Realidade: A Água Maternal
Cena X - Adoração à Água
Cena XI - Adoração aos Rios
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O presente artigo se refere ao processo que direciona a continuidade da
minha pesquisa, bem como ao fomento do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC),
intitulado
Apas
:
O Corpo Poético atravessado por uma experimentação
metodológica com yoga e improvisações na criação de um trabalho solo
, de autoria
de Milena Paim4.
Além do treinamento, da sensibilização dos sentidos e da criação de
repertório corporal
Movimentos Profundos
5, pretendeu investigar corporalmente a
aproximação com conceitos noturnos bachelardianos, entre eles:
imensidão,
topofilia, imaginação material, repercussão e ressonância
, a partir da mobilização
da imagem poética e do conteúdo da obra
A Água e os Sonhos
(Bachelard, 2018).
“Por sua novidade, uma imagem poética transporta-nos à origem do ser falante”
(Bachelard, 1993, p.07).
A pesquisa no território de criação do Apas
Movimentos Profundos
foi direcionada à investigação de procedimentos
técnicos, assim como de criação corporal e vocal, com vistas à ampliação da
autoconsciência sobre o trabalho artístico e ao desenvolvimento do domínio
técnico na expressividade poética. Ao abarcar o TCC da Milena, a pesquisa também
buscou ampliar o repertório de ações corporais e vocais, organizar e praticar
conscientemente sobre uma estrutura de treinamento e gerar espaços férteis para
o processo de criação. Destaco dois desafios iniciais: a dificuldade em criar outros
tônus corporais além do padrão e o excesso de tensão corporal. Ambos geravam
rigidez, comprometiam o desenvolvimento de um movimento genuíno e
dificultavam a fluência do movimento expressivo, além de impactarem
negativamente a voz.
Nesse sentido, criar procedimentos para desenvolver fluxos de movimentos
constituiu um dos objetivos do treinamento. O desenvolvimento de qualidades
mais fluidas foi acessado, apreendido e atualizado a partir do domínio técnico
experienciado com a prática de ásanas, mantras, pranayamas, bem como da
4 Trabalho orientado por mim.
5 No decorrer do artigo, refiro-me ao projeto como "
Movimentos Profundos
...".
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imaginação criadora e da sensibilização dos sentidos no trabalho corporal e vocal,
em relação criativa com o espaço físico e imaginado.
A investigação e a elaboração de movimentos e sentidos expressivos,
voltadas a um corpo poético (Dubatti, 2016) e orientados por perspectivas
simbólicas e bachelardianas, foram propostas por uma via metodológica
específica: o tensionamento entre a rigidez corporal, o treinamento, as
improvisações e o elemento água em diversos contextos. Visando à plasticidade
corporal foram utilizados recursos transversais para experimentá-la e elaborá-la
corporalmente, entre eles: exercícios de Feldenkrais (1977; 1998), movimentos da
espada dupla
Pakuá
, movimentos do
Tai Chi Chuan
, movimentos da espada
Tai
Chi
,
small dance
(Paxton apud Gil, 2001, p.131), dinâmicas de movimentos com
objetos, músicas e sons como estímulo sensível a improvisações dirigidas.
As referências sonoras do espetáculo serão indicadas na escrita, propondo, a
quem desejar, a possibilidade de uma leitura atravessada pela sonoridade, com
lacunas no pensamento e tensionada por outras realidades.
O Destino da Água que Corre6
Enquanto o público entra no teatro, pode ouvir um rio7 fluindo. O som propõe
uma atmosfera de tranquilidade, de desaceleração do ritmo mental e de
recolhimento contemplativo: “[...] o rio simboliza sempre a existência humana e o
curso da vida, com a sucessão de desejos, sentimentos e intenções, e, a variedade
de seus desvios” (Chevalier, 2003, p.781).
Após o público se acomodar, em blecaute e ao som de
Ryoanji
8 (Cage, 1985),
inicia-se, ao fundo do palco em tamanho imenso, a projeção de um vídeo no qual
as frases emergem gradativamente. Elas estabelecem um diálogo simbólico,
fragmentado e rítmico que articula a imagem visual, a semântica, a música e o
6 Disponível em:
https://open.spotify.com/track/1zMsrOM0FArrlmg6UqeaFs?si=k1FsvIGfTjurlZXza4l64Q&context=spotify%3Ap
laylist%3A2RroQejp5LAAG5yaOsRCa9.
7 A fim de evitar o acionamento de gatilhos, o público era avisado anteriormente da existência de sons de rio,
de chuvas, de tempestades (raios e trovões) e de movimentos diaspóricos em cena.
8 Disponível em:
https://open.spotify.com/track/1iNZTa7gavjuc4xgkyEvO9?si=wK5waBZAQIqAc2uwjpXkyw&context=spotify%
3Aplaylist%3A2RroQejp5LAAG5yaOsRCa9.
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silêncio. No encerramento do vídeo, reflexão e poesia articulam-se na aparição
total do texto em letras brancas sobre o fundo preto9.
A água, seu fluxo constante, foi abordada poeticamente como
impermanência e pensada como processo de constante renovação da vida, o qual
possui camadas físicas, mentais, emocionais, simbólicas e sentimentais. A
projeção termina com o texto a seguir submergindo na escuridão - lentamente em
fade in
, ainda ao som de Cage (1985).
Conforme afirma Bachelard (2018, p. 06-07):
Não nos banhamos duas vezes no mesmo rio, porque, em sua
profundidade, o ser humano tem o destino da água que corre. A água é
realmente o elemento transitório. É a metamorfose ontológica essencial
entre o fogo e a terra. O ser votado à água é um ser em vertigem. Morre
a cada minuto, alguma coisa de sua substância desmorona
constantemente.
Com o passar do tempo, entendia, cada vez de modo mais complexo, as
forças subjetiva, poética e reflexiva desta abertura, pois ela atuava como a
materialização cênica do campo de forças psíquicas sobre as quais o espetáculo
performativo Apas aconteceria.
Tenha piedade
A cena
Tenha Piedade
, parte II, inicia-se com o áudio do oratório sacro St.
Matthew Passion, BWV 244: Erbarme dich, main Gott (1727: Bach J.)10, ao mesmo
tempo em que Milena entra em cena pela coxia à esquerda. A criação da ação
advém do desenvolvimento da partitura corporal
Linha
, criada em laboratórios. O
trabalho foi proposto a partir da sensibilização corporal, da autopercepção e da
utilização direcionada de pequenos impulsos que atuavam como ondas do
corpo
paradoxal
(Gil, 2001, p.57) e de
small dance
.
9 O processo de criação desse vídeo passou por uma longa investigação e experimentação pelo qual a poética
do todo também foi sendo experimentada, (re)pensada, (re)definida, compreendida e elaborada. Editei mais
de trinta vídeos experimentando diversos conteúdos que dialogassem com a fluidez.
10 Disponível em: https://open.spotify.com/track/4fa8RxZzWuJnZfZvr1F2gk?si=lSAY_zb2Qt6mAaj3y969-
A&context=spotify%3Aplaylist%3A2RroQejp5LAAG5yaOsRCa9.
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Figura 1 -
Tenha Piedade
(laboratório). Direção e foto: Mariane Magno. Atuação: Milena Paim
Durante seis meses, investigamos a fluência corporal a partir da
Linha
. As
improvisações tensionaram essa partitura com diferentes contextos e relações
diversas com o espaço físico, entre elas,
dinâmica
(Rengel, 2005, p.44) e ação
corporal (Rengel, 2005, p.23), as quais em nossos laboratórios também eram ondas
vocais.
Linha
atuou como uma
ação física
(Rengel, 2005, p.23) e vocal que foi
estudada detalhadamente, codificada e compreendida. Também funcionou como
o leito de um rio que direcionou a vazão poética.
Na prática com os mantras, além do domínio técnico11, outras proposições
criativas ocorreram. As diretrizes criativas dessa cena abordam saberes advindos
da pesquisa com o trabalho vocal e a sensibilização criativa dos sentidos, bem
como o
grounding
(Almeida, 2009, p.92), entendido como um enraizamento
somático. Foram incluídos os doze sentidos, entre os quais o tato é entendido
11 Entre eles, destaca-se articulação, prosódia, tempo como ritmo, tempo como pulso, volume, tonalidade,
relações com espaço (acústica e relações sensíveis), domínio da respiração, fôlego, relações diversas entre
o movimento corporal, o espaço imaginário, o domínio técnico sensível em desenvolvimento e a relação
com o espaço físico.
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como uma sensação interna, ideia utilizada sob consciência imaginante em
laboratório:
O sentido do tato é aquele por cujo intermédio o homem se relaciona
com a forma mais materializada do mundo exterior. Pelo sentido do tato
o homem, de certa maneira, choca-se constantemente com o mundo
exterior, é por meio dele que o homem se relaciona de maneira mais rude
com o mundo exterior. Mesmo assim, porém, o processo do tatear
transcorre na parte interna da pele do homem. Com sua pele o homem
bate contra o objeto (Steiner, 1997, p.09).
Por essa diretriz empírica, que articula elementos técnicos e experimentos
de criação, foram trabalhados diversos elementos, como o deslocamento pelo
espaço, a amplitude de movimento, as oposições de direcionamentos da atenção
durante o deslocamento cinético e o uso de andamentos muito lentos, visando a
criação da cena
Tenha Piedade
.
A cena configura-se como um pedido simbólico: um gesto humano, de
caráter mitológico, dirigido para deusas e deuses. Trata-se de um pedido que
envolve Corpo e Alma, compreendendo a alma à luz do pensamento junguiano,
como uma dimensão da psique: “uma unidade ou um específico - complexo
funcional da psique que põe a consciência em relação com o inconsciente,
diversamente denominada função anímica” (Pieri, 2002, p.27). O inconsciente foi
pensado na cena de diferentes modos, a saber: na escuridão do fundo preto e na
coxia esquerda, de onde emergem elementos simbólicos.
Voltando à cena, com a entrada de Milena, ao som de Bach, no mesmo
momento em que se inicia a ária Erbarme Dich, entra a projeção da imagem da
Terra captada do espaço. Esse vídeo foi transmitido ao vivo do
YouTube
, a partir
de câmeras da Nasa12 em uma estação espacial. A visão distanciada da Terra
concretizou o indefinível, pois a projeção, como um elemento vivo, a cada dia
materializava o distanciamento, o imprevisto e o inédito tanto como
acontecimento quanto como conteúdo do pensamento. As imagens projetadas
alteram, de modo significativo e inesperado, a totalidade performativa. Às vezes, a
perspectiva era ampla e contemplativa. Em outras, mais fechada em um
astronauta em super close; esse enquadramento permitia ver seus capacetes e
12 O
link
do vídeo consta nas referências ao fim do texto.
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olhos em tamanho gigante. Noutros momentos, closes nas luvas, igualmente
gigantes, mostrando um trabalho de manutenção na estação espacial.
Figura 2 - Tenha Piedade. Direção: Mariane Magno. Atuação: Milena Paim. Foto: Epifânia Torres
Inesperadamente, por vezes surgia, em super zoom, a imagem de uma
câmera, o que provocava uma inversão perceptiva: a impressão de que a câmera
captava imagens da cena e da plateia. No entanto, não tínhamos o controle sobre
esse recurso, tampouco era essa a intenção, pois manter a live foi estruturante
para essa performance. Com essa composição, buscamos instaurar um olhar
inicial global, distanciado e crítico sobre o nosso planeta, ao mesmo tempo em
que a cena é um pedido de piedade a ele. Nessa perspectiva, emergem paradoxos
que tecem poesia, reflexão, ciência, tecnologia, esperança, trágico, morte, vida,
tangível, intangível, a grandeza e a pequenez humanas, bem como os mistérios.
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Figura 3 -
Tenha Piedade
. Direção e foto: Mariane Magno. Atuação: Milena Paim
O figurino foi criado com uma cabeça dourada e uma cauda preta de vinte
metros. As duas peças materializam as camadas supra-humanas, mitológicas e
simbólicas; são elementos cuja plasticidade poética evoca deuses, deusas, rios,
oceanos, barqueiros e o fluxo constante de vida e morte. A cauda longa, em outra
cena, tornou-se o Mar de Caronte13, pelo qual a barqueira, no fluxo do mito
imaginado, segue indo e vindo pela eternidade.
13 O rio Hades, de maneira ainda mais ampla, foi compreendido sob contexto diaspórico, na cena como O Mar
de Caronte e as Travessias no Crepúsculo. O Mar de Caronte contempla os conteúdos formativos e os
transformativos. O Mar de Caronte foi utilizado em três momentos: Cena V -
O Mar de Caronte
; Cena VI -
Tempestade II
e Cena VII -
Gotas Diaspóricas.
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Figura 4 -
Tenha Piedade
. Direção: Mariane Magno. Atuação: Milena Paim. Foto: Epifania Torres
Enlaço a voz de Milena pontuando os elementos técnicos desenvolvidos:
A partir da adição dos elementos elencados acima, como trazer e ser o
Mar de Caronte, o pedido de piedade e a proposição de um olhar
distanciado sobre as ações humanas em relação ao planeta Terra, a
partitura deixou de ser Linha para se transformar na composição Tenha
Piedade (Paim, 2024, p.34).
O processo de criação dos laboratórios com improvisos dirigidos
presentificava o elemento água em contextos diversos. A água, além de conteúdo
textual dos mantras, atuava como onda sonora que alterava a plasticidade do
corpo e, ainda, como intenção de criação. Existe, portanto, uma base técnica e
imaginária nessa cena que foi criada e desenvolvida nos laboratórios. Refiro-me
aos saberes e efeitos sensoriais (técnicos, simbólicos e criativos) e aos conteúdos
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latentes nela presentes (intenção de chamar e materializar). As bases de atuação
estão fundamentadas na pesquisa que engloba a técnica, as improvisações
corpóreo-vocais e as imagens criadas, delineando a plasticidade corporal. Resgato
a voz de Milena: "Neste momento, posso ver e sentir tanto os aspectos técnicos e
sensíveis desenvolvidos pela partitura
Linha
, quanto os elementos poéticos da
composição
Tenha Piedade
” (Paim, 2024, p.34).
Redemoinhos da Mente
Na
Odisseia
de Homero, o remoinho Caríbdis engole o mar na «goela
escancarada» do seu funil, expondo a areia do fundo do abismo, e então
vomita-a «como um caldeirão fervendo sobre uma fogueira
intensa»(Homero, 217), sugerindo que o que ainda pode ser, para a
consciência, o aprisionamento no maelstrom da psique (Martin, 2010,
p.46) (Grifos do autor).
De maneira geral, a pesquisa atuou a partir de duas diretrizes principais. A
primeira contemplou os procedimentos praticados e repensados criticamente nos
treinamentos e na criação corporal, visando ir além do entendimento primeiro
sobre o trabalho vocal. A abordagem colocou em movimento a sistematização, o
improviso e a reflexão crítica e possibilitou aprofundar a sensibilização dos
sentidos e utilizá-los como conteúdo expressivo. Foi um mergulho profundo nos
diálogos entre a pulsão do corpo e a semântica, a objetividade e a subjetividade
poética. Essa condição, como efeito, também foi percebida fisicamente e pensada
como um atravessamento plástico do texto através do corpo. A perspectiva inicia
na produção e percepção de ondas sonoras (no corpo e na acústica) e utiliza os
impactos sensoriais na dinâmica expressiva. A qualidade vocal articuladora de
diversas camadas e conteúdos, intitulada de
Corpo Sonoro
, pode ser encontrada
em
Corpo Sonoro, Tempo(s) Presente(s), Corpo Utópico, Imensidão, Heterotopias
e Outras Vozes
(Ribas, 2021).
A segunda diretriz não linear e repleta de ambiguidades atuou a partir da
noção simbólica de redemoinho: “os redemoinhos sugerem portais para outros
mundos e tempos, e em muitas representações literárias um prolongado
momento em que o observador testemunha o submundo" (Martin, 2010, p.46). A
imagem do remoinho veio de um improviso refeito, de modo cíclico, diversas
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vezes, qual seja: entrar em cena, sentar-se em uma cadeira e beber água o mais
lentamente possível. Ao mesmo tempo era preciso observar o copo, a água e o
público. O exercício intencionava deslocar e assumir uma posição de observadora,
de modo distanciado, e permitir o fluxo livre de pensamentos sem interferir. Os
objetos utilizados foram um copo e uma mesa disposta ao lado de uma cadeira.
Após cada improviso, a Milena devia relatar e escrever sobre os conteúdos
observados.
Nos experimentos com andamento lento, foi preciso aprender a organizar o
tônus corporal a fim de evitar tanto possíveis tensões quanto a aceleração ou
desconexão da ação. Sustentar esse ritmo lento, a ponto de se distanciar das
referências conhecidas pelo corpo que o executa, foi desafiador na manutenção
do tempo do movimento expressivo e na continuidade viva dos focos de atenção.
Em termos quantificáveis, a referência métrica utilizada foi abaixo de 30 bpm.
Tive o metrônomo como referência durante o trabalho com Milena em relação à
internalização do ritmo. Objetivamente, a atriz treinou sob a direção de um pulso
muito lento até internalizá-lo.
Foi transportada a essa improvisação uma certa calma advinda da prática de
pranayamas
e de
asanas
que trabalham o elemento terra e possibilitam
desacelerar o fluxo mental. Foi utilizado, também como referência, o efeito
proporcionado pelo relaxamento proposto pelo Yoga, que pode ser compreendido
como descontração muscular profunda com respiração passiva. Esse uso foi
criativo e não
ipsis litteris
, pois a cena exigia a diversidade de focos de atenção e
integrava elementos textuais e performativos.
Em junho, os conteúdos selecionados das improvisações foram: uma cadeira,
uma corda, entrar em cena, sentar-se, amarrar-se e a pergunta:
O que é um corpo
de atriz?
A pergunta14 foi formatada a partir da escrita posterior às improvisações. O
tema era recorrente e se referia a uma realidade traumática congelada como
realidade psíquica, sobre a qual a atriz se sentia, no decorrer do curso, afetada
14 A pergunta e o contexto, a partir dos respectivos recortes, foram levados ao projeto de TCC e ao relatório
reflexivo. Nessa pesquisa, ambos foram desdobrados no processo de criação.
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emocionalmente e desacreditada profissionalmente. O desenvolvimento da
investigação também colaborou com a transformação de uma noção equivocada
e perigosa, presente em laboratório e na formatação da justificativa do TCC de
Milena:
Por nunca ter feito prática de atuação antes, me sentia corporalmente
perdida nas aulas por não entender, no meu corpo, o que de fato era a
expressão corporal e vocal, e isso acabava disparando dois sentimentos:
o de incapacidade e o de comparação em relação aos colegas, que
pareciam estar bem mais avançados que eu durante as aulas (Paim, 2024,
p.59).
Enquanto orientadora eu observava, em laboratório, águas paradas, ou seja,
estava diante de um entendimento oposto ao que eu notava em aula e nos
laboratórios da pesquisa. Recorto outro relato do TCC no que toca aos anos
anteriores à pesquisa:
A falta de compreensão do conteúdo acabava afetando a minha atenção
durante as aulas, pois ao não entender o conteúdo eu também não
conseguia me concentrar, e, decorrente deste contexto, acreditava, ainda,
não ter imaginação para visualizar as imagens propostas pelos
professores durante os exercícios, o que ocasionava, para mim, um mau
desempenho. [...] ainda disparava o mesmo sentimento, ou seja, me
sentia “insuficiente” nos trabalhos e nas aulas de corpo (Paim, 2024, p.57).
No começo do trabalho, percebi que essa noção limitava a perspectiva e o
pensamento da Milena sobre o seu potencial, repertório de atuação e formatação
do projeto, tendo em vista que ela moldava e dificultava sua relação com a
expressividade corporal e vocal nos laboratórios. Foi preciso experimentar e criar
referências que dessem vazão à água represada para dissolver a crença a ser
ressignificada: um entendimento sobre o ofício de atriz que instaura um padrão
hegemônico como ideal a ser seguido e comparado.
A estratégia metodológica foi avançar na identificação, no reconhecimento e
na legitimação dos saberes advindos da experimentação técnica, teórica, criativa,
genuína e crítica propostos pela pesquisa. Enquanto pesquisadora, observava que
a perspectiva sobre o seu potencial, bem como a linguagem utilizada, estava
aquém da sua atitude profissional e dedicação exemplar apresentadas, semana a
semana, como respostas à pesquisa nos aspectos teóricos e práticos.
No começo dos laboratórios, o horizonte da atriz estava condicionado a essa
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realidade que direcionava o seu pensamento. O corpo expressivo reagia. Por
conseguinte, ela ainda não (re)conhecia a amplitude, a profundidade e a
intensidade do seu potencial, nem mesmo seu potencial vocal. Iniciei a prática por
ele. Dou voz à Milena:
O trabalho vocal teve grande importância para a prática e foi realizado
desde o primeiro dia de aula, quando tive uma imensa descoberta sobre
a minha potência vocal, e todos os dias de trabalho, os de pesquisa, os
de treinamento, os de experimentos de criação, os de ensaio e os de
apresentação (Paim, 2024, p.11).
Quando esse entendimento se fez em laboratório, sob diversos termos e
camadas de compreensão, foi possível compreender que ali havia outros
conteúdos que iriam à cena. Essa cena, simbolicamente, também passou a ser um
modo de queimar determinados conteúdos e de lavar a alma. A cena passou a ser
delineada a partir da ampliação dos temas: repressão, tirania, manipulação,
trauma, invisibilidade social da violência e do trauma, saúde mental e formação
crítica. A formatação do projeto de TCC acompanhou o mesmo fluxo direcionado
à autopercepção consciente, favorecendo uma formação crítica:
[...] e que também justifica este projeto, é que a busca pela elaboração
da compreensão metodológica, sensível e crítica em mim mesma, neste
TCC, também leva ao estudo de que cada pessoa tem sua própria
imaginação (Paim, 2024, p.59).
Direcionei a criação da cena
Redemoinhos da Mente
à falta de liberdade de
expressão e à noção de currículo oculto (Araújo, 2018), que, advindos do material
coletado em dados do real, dialogavam contemporaneamente com a pedagogia
do oprimido e a pedagogia da autonomia de Freire. Neste sentido: “O educador
que escuta aprende a difícil lição de transformar o seu discurso, às vezes
necessário, ao aluno, em uma fala com ele (Freire, 2024, p.111).
Na sequência, continuei com a coleta do real por meio de relatos dos
integrantes da equipe e de notícias sobre ações repressoras, violentas e
manipuladoras com crianças, adolescentes e jovens em processo de formação
artística e que foram invisibilizadas.
A cena
Redemoinhos da Mente
, após
Tenha Piedad
e, a partir de um momento
de transição, instaura o clima tenso e pesado por vir. Posteriormente, sentada, ela
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amarra-se à cadeira dos tornozelos até o pescoço (Figura 5 e 6).
Figura 5 -
Redemoinhos da Mente.
Direção: Mariane Magno.
Atuação: Milena Paim. Foto: Godoy
Figura 6 -
Redemoinhos da Mente
. Direção e foto: Mariane Magno. Atuação: Milena Paim
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Quando a ação de ser
serpenteada
, silenciada, imobilizada e manipulada por
vozes e ações violentas termina, ocorre uma troca súbita de vídeo e áudio. Após,
inicia um áudio com os relatos de conteúdo opressores. A atriz permanece imóvel,
calada e amarrada, apenas ouvindo o áudio como quem testemunha e/ou sofre
os fatos narrados. O trabalho corporal sobre esse texto foi sistematicamente
estudado em todos os elementos da produção vocal com vistas à criação da voz
mediada digitalmente. A ideia era materializar os conteúdos provenientes do real,
a realidade psíquica de quem os sofre e o olhar atento de quem os observa no
que envolve a opressão, a passividade social e o imóvel testemunho coletivo diante
da violência.
Poe descreve um estado de tranquila inteligibilidade no centro do funil,
uma transição do pavor para a esperança, descobrindo no precipício uma
«ponte estreita e pouco firme que… é o único caminho entre o tempo e
a eternidade» (Martin, 2010, p.46).
Finalizado o áudio, entra de modo súbito, da esquerda para direita, o
videoclipe da música “Another brick in the wall” (Floyd, 1979), que foi projetado do
começo ao fim. A atriz permanece imobilizada e silenciada por um longo tempo
até a transformação, a libertação e a reflexão que acontecem em simultâneo com
o incêndio do vídeo.
Figura 7 -
Redemoinhos da Mente
(ensaio). Direção: Mariane Magno. A partir da esquerda:
Maju Rodrigues, Emmanuel Frantz, Felipe Miotti, Milena Paim e Godoy. Foto: Mariane Magno
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Depois, na cena
Tempestade I,
inicia o vídeo com um temporal em alto-mar.
Vê-se um imenso mar negro, atravessado por raios e trovões, no qual é possível
brincar e fazer travessias com o poema
Canção da Infância
(Handke). A cena foi
construída a partir da expressividade corporal criada por laboratórios, em
composição com o vídeo e trechos do poema sobrepostos, em áudio, aos trovões.
O raio, um único clarão de relâmpago representando a espada «terrível e
veloz». [...] se imaginou no relâmpago uma revelação do divino ou
presságio de desastre. [...], evoca as inesperadas e esmagadoras
alterações nas paisagens física e psíquica. [...] O relâmpago também é
iluminação quintessencial [...] contacta com o inconsciente, abrindo os
domínios psíquicos da clarividência. [...] Mas a intuição também «surge
como um clarão», a consciência repentina «atinge-nos em cheio» [...]
(Martin, 2010, p.70).
Figura 8 -
Tempestade I
. Direção: Mariane Magno. Atuação: Milena Paim.
Foto: Epifânia Torres
Mar Realidade
Movimentos Profundos
atuou no processo de criação do
Mar Realidade
, a
partir do tensionamento entre a materialidade do Corpo como texto vivo - forma
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e conteúdo, que contém a consciência imaginante e o inconsciente - e o recorte
do texto
A água maternal e a água feminina
(Bachelard, 2018, p.120-121), o qual
apresenta uma ideia sobre a realidade psicológica do mar. Em síntese: “O Mar é
para todos os homens um dos maiores, um dos mais constantes símbolos
maternos" (Bonaparte (s/d) apud Bachelard, 2018, p.120). Sobre essa noção,
busquei outras referências:
[...] são tais as correspondências entre o oceano e as nossas profundezas
psíquicas que ambos podem ser formas visíveis e invisíveis da mesma
realidade. Num e noutro coalescem fluidos subterrâneos e celestiais
(Martin, 2010, p.36).
Sob outra perspectiva, apresento o mesmo movimento: “Símbolo da
dinâmica da vida. Tudo sai do mar e tudo retorna a ele: lugar dos nascimentos,
das transformações e do renascimento [...]" (Chevalier, 2003, p.592). Avanço nessa
diretriz viva, com base nas referências citadas e no contexto bachelardiano à luz
de Ferreira, e recorto a noção de simbolismo:
O simbolismo não é fixo, único e objetivo, nem para psicanálise, nem para
literatura. Cada indivíduo cria e recria um simbolismo de acordo com as
“forças” simbolizantes que preexistem no inconsciente [...] (Ferreira, 2008,
p.180).
A repercussão corporal em laboratórios foi tensionada para potencializar e
aproximar o mar e os conceitos bachelardianos. A abordagem do texto recortado
para a cena se deu a partir de diversas camadas objetivas e subjetivas, as quais,
pela dimensão simbólica, despertavam novas informações e conteúdos a cada
laboratório. Assim, em cada momento, foi escolhido um recorte ou palavra do
texto para iniciar o trabalho técnico associado à identificação e aos
desdobramentos de elementos imaginários e correspondentes cênicos.
Intencionava, portanto, a materialização de ambos como corporeidade vocal
expressiva. Exemplifico isso, ao abordar um dos parágrafos que foi à cena:
Não é porque a montanha é verde ou o mar azul que nós os amamos,
ainda que demos essas razões para a nossa atração; é porque algo de
nós, de nossas lembranças inconscientes, no mar azul ou na montanha
verde, encontra um meio de se reencarnar (Bachelard, 2018, p.120-121).
O trabalho se deu a partir de uma leitura porosa que abriu fendas através da
percepção e da imaginação existentes na conjunção de elementos cênicos
associados, sobre os quais se utilizou muito tempo estudando tecnicamente a
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produção do som. Ademais, sob devaneio poético, foi viável mergulhar em um ou
outro detalhe, seja ele uma sílaba, uma sensação dos metatarsos sobre o solo,
uma postura, um modo de inalar, um modo de organizar a musculatura para certo
efeito sobre a articulação vocal, entre outros.
A água é a
matéria-prima
, a
Prakriti
: Tudo era água, dizem os textos
hindus; as vastas águas não tinham margens, diz um texto taoista.
Brahmananda
, o Ovo do mundo é chocado à superfície das Águas. Da
mesma forma, o
Sopro ou o Espírito de Deus
, no Gênesis,
pairava sobre
as águas. A água é
Wu-Ki
,
dizem os chineses, o
Sem-crista
,
o caos, a
indistinção primeira
(Chevalier, 2003, p.15) (Grifos do autor).
Movimentos Profundos
pesquisou possibilidades de leitura corporal sobre
conceitos bachelardianos, entre eles
de imaginação material, imensidão, topofilia
e imagem
.
Figura 9 - Mar Realidade. Atuação: Milena Paim. Direção: Mariane Magno. Foto: Epifânia Torres.
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À luz noturna bachelardiana perante a consciência imaginante, havia a
intenção de que alguns conceitos pudessem ser revirados e deslocados sob
tensionamento crítico na procura de possíveis espaços nos quais a ingenuidade
pudesse, de modo mascarado, atuar como obstáculo epistemológico15.
O trabalho foi direcionado à
imensidão corporal
pela
ressonância e
repercussão
do texto sobre experimentos com a corporeidade vocal, com objetos
e com o espaço: “As ressonâncias dispersam-se nos diferentes planos da nossa
vida no mundo; a repercussão convida-nos a um aprofundamento da nossa
própria existência” (Bachelard, 1993, p.07). Certas camadas de momentos ao abrir
para o devaneio poético também podem ser pensadas como momentos de
calmaria, nos quais “[...] sem jamais fazer adormecer. A imaginação permanece
vigilante e feliz” (Bachelard, 1993, p.168).
Com esse movimento, desdobra-se outra noção bachelardiana em que a
imensidão desperta a
verticalidade
na leitura do texto como literatura e do texto
como corpo expressivo: “são pausas na narrativa durante as quais o leitor é
chamado a sonhar. São muito puros pois não servem para nada” (Bachelard, 1993,
p.170). Assim, por movimentos profundos e pela
topofilia
, foi proposto e pensado
o trabalho expressivo sobre múltiplas camadas de textos que movimentam o
conteúdo literário e que ganham outra forma viva como expressão corporal
complexa. “Na topofilia são estudadas 'as imagens do espaço feliz'. Qualquer
espaço, desde que em harmonia com um ser que vibra, pode ser seu ninho, pode
ser uma morada feliz” (Ferreira, 2008, p.196) (Grifos do autor).
Aos poucos, à medida que o trabalho técnico e de estudos avançou, as partes
começaram a atuar de modo conjunto, abrindo múltiplas possibilidades de
relação, conexão, interpretação e criação expressiva. Desse percurso, marcado por
estudos e pesquisas pontuais, constituiu-se a totalidade do corpo expressivo em
cena.
O começo do processo foi um choque de dramaturgias. Ao confrontar o texto
15 Trabalhei por certo tempo em uma performance que utilizaria como conteúdo obstáculos corporais no
desenvolvimento do movimento expressivo, que também podem atuar como obstáculos epistemológicos.
No entanto, a performance não foi finalizada em tempo para estreia e segue como roteiro a ser finalizado e
encenado.
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em sala de trabalho, o corpo ficava tenso e temia o mergulho proposto pela ideia
da água maternal:
O mar é o amor filial, é o primeiro princípio ativo da projeção das imagens,
é a força propulsora da imaginação, força inesgotável que se apossa de
todas as imagens para colocá-las na perspectiva humana mais segura: a
perspectiva materna (Bachelard, 2018, p.120).
Em frente à imensidão do tema, às imagens vivas que ele apresenta, à ideia
proposta, à dimensão mitológica, poética e simbólica, aos conteúdos latentes, à
possíveis
ressonâncias e repercussões
16, eu tinha a inequívoca noção de que estava
diante de um desafio imenso. A intenção era criar um mar de imagens. Deste
desafio e de diversos experimentos em laboratório, emergiram algumas perguntas:
- Como submergir?; - Como inundar?; - Como criar um mar de imagens?
As águas, massa indiferenciada, representando a infinidade dos possíveis,
contêm todo o virtual, todo o informal, o germe dos germes, todas as
promessas de desenvolvimento, mas também todas as ameaças de
reabsorção. Mergulhar nas águas, para dela sair sem se dissolver
totalmente, salvo por uma morte simbólica, é retornar às origens,
carregar-se de novo num imenso reservatório de energia e nele beber
uma força nova [...] (Chevalier, 2003, p.15).
Durante os três meses iniciais, abordei o desafio a partir de três diretrizes
metodológicas: a de estudo técnico e teórico, a de sensibilização corporal e a de
intuição criadora.
Na ênfase do trabalho técnico e teórico, iniciei os procedimentos a partir do
material textual sob dois aspectos, forma e conteúdo: o conteúdo literário e
apropriação corporal cênica. Assim, investiguei procedimentos que levassem à
materialização vocal e expressiva do texto, os quais também são aproximações da
imaginação material em oposição à
imaginação formal
.
Iniciava o trabalho com a fixação do texto impresso na parede, à altura dos
olhos de Milena para permitir a livre movimentação corporal e facilitar a leitura. A
forma de distribuição das palavras no papel - sílabas, frases, parágrafos em linhas
-, bem como a diagramação, o espaçamento e a pontuação, foram (re)organizados
com o objetivo de codificar o processo de criação corpóreo vocal, que inclui o
16Na ressonância ouvimos o poema; na repercussão o falamos, ele é nosso” (Bachelard, 1993, p, 07).
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trabalho sobre pausas, andamento, tonalidade, prosódia, inalação, exalação e
devaneios poéticos. As folhas de papel atuavam como suporte da memória de
trabalho; nelas, também foram realizadas anotações norteadoras para a
continuidade dos experimentos, assim como para a retomada de conteúdos
técnicos e criativos, além dos citados, ritmo, rubricas, cores, signos, símbolos,
desenhos, imagens, conceitos, movimentos e devaneios.
Algumas vezes, o trabalho com o texto iniciava-se após um aquecimento
vocal ou improvisação com mantras. Noutras, era abordado após a prática com as
asanas e pranayamas, almejando experimentar o transporte criativo de efeitos
corporais e vocais experienciados. Contudo, também ocorreu uma abordagem
direta do enfrentamento com o texto, estudando diversas possibilidades de
recepção, compreensão e interpretação através de estudos técnicos e criativos na
sua vocalização ou simplesmente no trabalho com alguma palavra que ainda era
dura como materialidade corporal.
O
Mar Realidade
foi trabalhado até que se tornasse uma matéria corporal,
um devaneio corporal que funcionou na criação do corpo como texto; um devaneio
poético corporal que deu o título à cena performativa.
Descobertas dessa natureza podem parecer óbvias, mas elas advêm de
estudos profundos que geram compreensões diversas sobre conteúdos
envolvidos em distintas camadas inter-relacionadas. Estas englobam aspectos
individuais, coletivos, mitológicos, simbólicos e elementos temporais ativos na
singularidade do contexto da experiência. Chegar no que eu chamo de simplicidade
na criação foi consequência de um longo, desafiador, complexo e detalhado
percurso proporcionado pela pesquisa.
A criação de
O Mar Realidade
foi um dos momentos da pesquisa dos quais
emergiram a sensação de impotência que fez sentir que talvez ficássemos na praia
mesmo, caso não inventássemos meios eficientes para atravessar uma
arrebentação tão forte. Conversava com a Milena, de modo pontual e objetivo,
sobre as dificuldades técnicas apresentadas em cada laboratório.
O clima de desgaste tinha um aspecto paradoxal que alimentava a intuição e
a vontade da procura. Isso gerava mais energia, nutrida a cada pequena descoberta
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e tomada de consciência imaginante. Cada pequeno avanço se dava pelos diálogos
entre a experimentação, a intuição, a consciência imaginante, o entendimento
técnico e a reflexão crítica entre forma e conteúdo. Ainda assim, demorou para a
sensação de impotência, sentida como uma arrebentação forte, ser ultrapassada.
Seguíamos nos pequenos mergulhos, braçadas, às vezes boiando em devaneios.
Posteriormente, decidi utilizar nos laboratórios diferentes sons de ondas
como outro meio de evocar a água e fazer um chamado ao mar. Selecionei alguns
áudios, estudei e analisei as sequências rítmicas do quebrar das ondas e,
posteriormente, levava essa ordem rítmica aos laboratórios17.
Certo dia, com um áudio que continha o som de sequências de ondas
quebrando na praia, propus à atriz que reagisse como quem recebesse o impacto
do mar sobre seu corpo inteiro. Conforme a improvisação seguia, eu inseria novos
elementos até que o corpo começasse a reagir e se tornasse receptivo, leve, fluido
e permeável. Eu pude testemunhar um impacto poético muito bonito que
respondia de modo profundo e genuíno. Observava no trabalho o prazer advindo
do improviso pelo qual o corpo se afetava pelo mar e tornava-se o próprio mar.
Um diálogo com a
topofilia
? Foi um momento muito marcante, porque a atriz
estava corporalmente transformada pelo trabalho e mergulhada no processo de
criação sem perder a relação objetiva com espaço, ritmo e partitura corporal.
A partir dessa experiência, o processo avançou a uma etapa de maior fluidez.
Levamos à cena a projeção de um mar escuro com som de chuva e trovões, um
recorte do texto
A água maternal e a água feminina
(Bachelard, 2018), e a sensação
corporal que se tornou subtexto corporal e desdobramento da cena, os quais
qualificam um certo ritmo da cena que posso ler como um devaneio poético
corporificado. A marca desse acontecimento ainda é muito viva para mim. Após
esse dia, seguiram os estudos específicos, entre eles:
a) a respiração e as relações objetivas e subjetivas no ato de inalar e exalar,
com vocalização ou não;
b) a utilização de pés de pato na criação de deslocamento, de andamento, de
transferência de peso, de enraizamento somático, de estranhamento
17 Diferentes sons do mar também foram utilizados nos laboratórios de criação de outras partes, quais sejam:
Cena V - O Mar de Caronte; Cena VI - Tempestade II; Cena VII - Gotas Diaspóricas. Esse recurso ajudou na
submersão tanto quanto a contemplação de imagens.
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corporal, em busca de um caminhar ondulado que foi levado à cena;
c) o desenvolvimento da consciência detalhada sobre deslocamentos no
espaço;
d) a integração conjunta dos itens a, b e c na partitura da cena;
e) a utilização e - a, b, c e d - na continuidade vocal a partir do impulso de
cada deslocamento;
f) a utilização conjunta de a, b, c, d, e na relação com o espaço físico e com
a atriz Godoy que entra em cena para captar imagens com a câmera de
um celular que eram projetadas sobrepostas ao vídeo do mar; e
g) a utilização fluida de a,b,c,d,e, f na relação com o público.
Figuras 11 e 12 -
Mar Realidade
. Direção e foto: Mariane Magno.
A partir da esquerda: Milena Paim e Godoy
Figura 13 -
Mar Realidade
. Figura 14 -
Mar Realidade
.
Direção: Mariane Magno. Direção e foto: Mariane Magno.
Atuação: Milena Paim. Atuação: Milena Paim
Foto: Epifânia Torres
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O estudo proposto pelas ondas, utilizado como música e como ordem rítmica,
gerou segurança corporal à criação dos movimentos. Por conseguinte, o corpo da
Milena se transformou em movimento corpóreo vocal expressivo tanto no uso do
microfone quanto na relação corporal com as projeções e com a plateia.
Atualmente, após o desenvolvimento da pesquisa durante esses dois
semestres de TCC, estudando de forma teórica e prática, tenho a
compreensão de que, para mim, as imagens utilizadas durante o trabalho
não são apenas figurativas, mas também sensoriais e sonoras, como a
sensação da água passando pelo corpo e o som das ondas, utilizados em
alguns ensaios, o que também influenciou na minha noção de ritmo. Além
disso, percebi durante as aulas que a cada retomada das partituras, as
sensações, ou seja, imagens, eram diferentes e nunca se repetiam, assim
como os movimentos, um nunca era exatamente igual ao outro (Paim,
2024, p.46).
Adoração à água, Adoração aos rios e considerações relevantes
Inicio estas considerações pela performance anterior, cena VIII,
Banho em
2050
. Nela foram utilizados estímulos performativos, visuais e sonoros sob ritmos
alarmantes durante 3’ e 38” da obra
WTC 9/11:I.9/11
(Cage)18. Instaurada a paisagem
sonora de horror, iniciavam projeções com o material coletado de notícias e
relatórios sobre a água existente na formação da Terra e do corpo humano, sobre
o desperdício, a contaminação, a poluição, a falta de acesso e a escassez. Enquanto
isso, Milena vestia um EPI completo.
Posteriormente, ouve-se o som de água pingando19 lentamente durante cinco
minutos enquanto o conceito de banho, imaginado em um futuro breve, é encenado.
Articula-se em cena um contexto cênico de escassez ficcional(?) e alarmante. De
modo paradoxal, também há uma noção de limpeza associada ao ato de se banhar
e um simbolismo de purificação que é vivo no elemento água.
Pode-se dizer que o banho é, universalmente, o primeiro dos ritos que
sancionam as grandes etapas da vida, em especial o nascimento, a
puberdade e a morte. A simbólica do banho associa as significações do ato
de
imersão
e do
elemento água
(Chevalier, 2003, p.119). (Grifo do autor).
18 Disponível em: https://open.spotify.com/track/5cSLt3f8nnMfyUPbXLlXr3?si=p76fXvh-
S_mXVZZkCbcVAg&context=spotify%3Aplaylist%3A2RroQejp5LAAG5yaOsRCa9.
19 Disponível em:
https://open.spotify.com/track/01STMm4FLcFnVbVApM8C0m?si=S9EsdqxpRiiwx3xhZgcMYA&context=spo
tify%3Aplaylist%3A2RroQejp5LAAG5yaOsRCa9.
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Os dados projetados ao fundo do palco criaram diversas camadas na caixa
cênica que atuaram como tela. As camadas-telas se formavam e se dissolviam a
depender da movimentação no palco de um painel, de outros objetos e de pessoas.
A partir do figurino, do ato de se banhar, da continuidade sonora de
gotejamento lento, a cena potencializa possíveis mudanças no comportamento
humano, decorrentes de adaptações e mutações imaginárias diante da insuficiência
de água na atmosfera e no corpo humano, uma espécie de desidratação do planeta
e do humano. A proposta problematiza a noção vigente, naturalizada e, por vezes,
ingênua sobre certos conceitos cotidianos entendidos como garantidos.
Desse modo, trata-se de uma provocação sobre a noção de responsabilidade
humana - individual, coletiva e institucional -, frente a comportamentos que afetam
a preservação do planeta e da vida humana, cujas consequências se mostram
desastrosas. Essa condição (trans)forma, nesse futuro próximo e hipotético, o fluxo
da vida e da liberdade que temos hoje, entre elas: a possibilidade de nadar em rios;
o fluxo de água irrestrito em certas torneiras; a liberdade para expor partes do corpo
e de expor a pele ao sol; a noção de banho, de vestir, de tato, de respirar e de
formas de sobrevivência.
Figura 15 -
Banho em 2050
. Direção e foto: Mariane Magno. Atuação: Maju Montoro e Milena Paim
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Figura 16 e 17 -
Banho em 2050
. Direção e fotos: Mariane Magno. Atuação: Milena Paim
A
Adoração à Água
inicia ao som de
Pachamama (Beautiful Chorus)
20,
sobreposto ao som do rio do vídeo projetado ao fundo. Ao mesmo tempo, a Milena
traz da coxia do fundo esquerdo um altar no qual ela coloca um cálice com água.
Quase vazio, o cálice é reverenciado. Do lado oposto, entra Godoy, que faz a
captura imagens do cálice com o celular e reproduz recortes digitais sobrepostos
à cena.
O Cálice, em termos amplos: “A Demanda do Graal inacessível simboliza, no
plano místico que é essencialmente o seu, a aventura espiritual e a exigência de
interioridade [...]” (Chevalier, 2003, p.477). Ele contém três possibilidades
simbólicas dominantes: “fonte de vida, meio de purificação, centro de
regenerescência” (Chevalier, 2003, p.15). Na cena, entre outros, o cálice evoca: a
gratidão e a contemplação no ato de beber água21; o respeito; o direito de acesso
à água para todo ser humano e animais; o aprendizado advindo do processo de
criação do Apas; o apas; o respeito à natureza; o respeito ao teatro, o divino em
nós, o lugar de onde se vê; e a seriedade em face da escassez.
Chronos
Maio de 2024.
Taquari, Caí, Pardo, Jacuí, Sinos, Antas e Gravataí.
Bacias, afluentes, lagos e lagoas.
Aion e Kairós
Hades, Aqueronte, Cócito, Flegetonte, Lete e Estige
(Cipriano, 2023).
20 Disponível em: https://open.spotify.com/track/2WRYbId2ZeaRvytazsQ6Vh?si=-
W0kydDBQj61HVGqd7_NIA&context=spotify%3Aplaylist%3A2RroQejp5LAAG5yaOsRCa9.
21 Conteúdo mencionado anteriormente sobre o processo de criação da cena
Redemoinhos da Mente
.
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Esse contexto titânico deu origem à performance
Adoração aos Rios
, cena XI.
Associado a ele, inserem-se a vontade e o sentimento de necessidade de evocar
o respeito, a adoração aos Rios, à Natureza e à Terra.
Rios da fertilidade e da prosperidade, rios de promessa vinculativa, rios
de comércio, rios de sangue e rios de água, rios de renascimento, rios de
morte, rios de mágoa, todos presididos na nossa história mítica por
divindades benéficas, ninfas horríveis ou inconstantes espíritos fluviais
(Martin, 2010, p.40).
Durante o processo de criação, ler ou ouvir os nomes dos rios que
recentemente haviam transbordado de modo furioso, pouco se deslocava do
impacto mental e emocional disparado constantemente pelo fluxo de notícias e
de relatos sobre o evento climático avassalador que levou o RS à situação de
calamidade.
Após editar alguns vídeos e roteiros com os nomes dos rios, recuei dessa
ideia em respeito às pessoas atingidas pelo transbordamento colérico de 2024.
Entendi que não havia distanciamento suficiente, coletivo e individual para aquela
escolha. Não era o tempo. Abordar os nomes cenicamente, naquele momento,
poderia ultrapassar diversos limites, bem como não ressoar o efeito intencionado
de saudação e da reflexão propostos pela cena.
A cena foi recriada sob abordagem contemplativa. Por meio dessa vertente,
atravessaram conteúdos como: adoração e respeito ao planeta; adoração e honra
ao elemento água em todo seu simbolismo e materialidade; adoração à Terra e
aos mitos; contemplação e desaceleração da mente; e adoração à Paz, ao fluxo
da vida e aos rios:
O rio fala da vida como fluxo, liberdade, movimento, correntes perigosas,
afogamentos, partir constantemente, ir até o fim, inundação, e também
restrição, direção, possessão, transmissão. O rio recorda-nos que nunca
podemos escapar a nossa nascente (Martin, 2010, p.40).
Possivelmente, uma leitura rápida e linear da cena não acesse as camadas
mais complexas. Ao som de
Hymn
22 (Barque), o cálice continua a ser projetado
sobre o rio. Conforme Milena se afasta do altar, Godoy, com a lente focada no
22 Disponível em:
https://open.spotify.com/track/6fKfznCBPc11M9uHzflDAG?si=v8nyAjI_SHmaK3rgOzveEw&context=spotify%3
Aplaylist%3A2RroQejp5LAAG5yaOsRCa9.
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cálice, segue aumentando o zoom. Isso faz com que a dinâmica da projeção se
desenvolva até criar a imagem de uma esfera transparente sobre o rio.
A projeção da taça como uma imensa esfera de cristal sobre o rio fluindo é
um modo de fundir duas imagens, o rio e a terra: “as mitologias falam de como as
grandes águas vieram à terra na forma de rio. [...] as águas fluindo da nascente
para o mundo têm a necessidade de se multiplicarem” (Martin, 2010, p.40).
A Terra transparente, agora, não tem mais a aparência azul e real como a da
imagem projetada pelas câmeras da Nasa ao vivo. A Terra, agora, ao som de
Hymn
e simbolizada pela esfera cristalina parece uma lembrança, um devaneio, um ato
imaginativo, um sonho, um cristal, uma utopia.
O rio, cada vez mais lento, em composição com o caminhar da Milena cada
vez mais lento e a projeção do cálice-esfera-bolha-terra-cristal, simbolizam,
paradoxalmente, a purificação, a vida e a escassez.
Hymn
conduz as imagens à
atmosfera contemplativa. Sobre o trabalho do projeto nesta cena, recorto o relato
da Milena sobre o caminhar muito lento: “Aqui também foram de grande
importância os trabalhos com os elementos técnicos que me ajudaram a manter
o equilíbrio durante a caminhada” (Paim, 2024, p.42-43).
Figura 18 -
Adoração aos Rios
. Direção e foto: Mariane Magno. Atuação: Milena Paim.
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Também penso esse final como um desacelerar da percepção, pelo qual se
abrem porosidades e fendas que permitem à mente uma atenção mais plural,
calma, complexa e viva. “O Corpo tem uma existência precária, escoa-se como a
água, e cada alma possui seu corpo particular, a parte efêmera de sua existência
seu rio próprio” (Chevalier, 2003, p.782).
Adoração aos Rios
propõe uma releitura de toda cena, desde a entrada do
público no teatro que iniciou ao som de um rio fluindo plenamente, até o apagar
do cálice e o impercetível(?) desacelerar do fluxo do rio.
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Recebido em: 25/10/2025
Aprovado em: 19/03/2026
Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC
Programa de Pós-Graduação em Teatro PPGT
Centro de Arte CEART
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas
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