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Corpo-território em denúncia: artes vivas de insurgência
amazônida contra o Antropoceno/Capitaloceno
José Raphael Brito dos Santos
Karina Mateus da Silva
Para citar este artigo:
SANTOS, José Raphael Brito dos; SILVA, Karina Mateus da.
Corpo-território em denúncia: artes vivas de insurgência
amazônida contra o Antropoceno/Capitaloceno.
Urdimento
- Revista de Estudos em Artes Cênicas,
Florianópolis, v. 1 n. 57, abr. 2026.
DOI: 10.5965/1414573101572026e0106
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Corpo-território em denúncia: artes vivas de insurgência amazônida contra o Antropoceno/Capitaloceno
José Raphael Brito dos Santos | Karina Mateus da Silva
Florianópolis, v.1, n.57, p.1-24, abr. 2026
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Corpo-território em denúncia1: artes vivas de insurgência amazônida contra o Antropoceno/Capitaloceno2
José Raphael Brito dos Santos3
Karina Mateus da Silva4
Resumo
O artigo analisa a performance Aparição Vomitada, realizada em Itaituba (Pará), como pesquisa-criação
situada na Amazônia urbana. Partindo da crítica ao discurso que normaliza o garimpo na “cidade pepita”,
o texto articula descrição da obra, memória de processo e reflexão crítica pós-realização da ação, para
examinar como o gesto metafórico de vomitar, a ocupação da rua, o uso da fibra da bananeira e a
relação entre performer e público configuram o corpo-território como prática insurgente diante do
Capitaloceno.
Palavras-chave
: Pesquisa-criação. Performance urbana. Corpo-território. Amazônia Paraense.
Antropoceno/Capitaloceno.
Territorial-body in denunciation: living arts of amazonian insurgency against the
Anthropocene/Capitalocene
Abstract
This article analyzes the performance
Aparição Vomitada
, carried out in Itaituba, (Pará), as a research-
creation project situated in the urban Amazon. Drawing on a critique of the discourse that normalizes
gold mining in the so-called “gold town”, the text articulates a description of the work, process memory,
and critical reflection following the realization of the action in order to examine how the metaphorical
gesture of vomiting, the occupation of the street, the use of banana fiber, and the relationship between
performer and audience configure the body-territory as an insurgent practice in the face of the
Capitalocene.
Keywords
: Research-creation. Urban performance. Body-territory. Pará Amazon.
Anthropocene/Capitalocene.
Cuerpo-territorio en denuncia: artes vivas de insurgencia amazónica contra el Antropoceno/Capitaloceno
Resumen
El artículo analiza la performance Aparição Vomitada, realizada en Itaituba (Pará), como una
investigación-creación situada en la Amazonía urbana. A partir de una crítica al discurso que normaliza
la minería aurífera en la llamada “ciudad pepita”, el texto articula la descripción de la obra, la memoria
del proceso y la reflexión crítica posterior a la realización de la acción para examinar cómo el gesto
metafórico de vomitar, la ocupación de la calle, el uso de la fibra de banano y la relación entre
performer y público configuran el cuerpo-territorio como práctica insurgente frente al Capitaloceno.
Palabras clave
: Investigación-creación. Performance urbana. Cuerpo-territorio. Amazonía paraense.
Antropoceno/Capitaloceno.
1 Revisão ortográfica, gramatical e contextual do artigo realizada por Eloany dos Santos Homobono. Mestra em Educação
pela Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). Graduada em Letras pela Universidade do Estado do Amapá (UEAP).
eloanyhomobono@gmail.com
https://lattes.cnpq.br/7164224655813358 https://orcid.org/0000-0002-6261-4214.
2 O presente artigo deriva de um recorte do Trabalho de Conclusão de Curso intitulado
Aparição Vomitada: poéticas
amazônidas para a criação insurgente em performance na cidade de Itaituba, Pará
, desenvolvido por Karina Mateus, sob
orientação do Prof. Me. Raphael Brito, no curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Federal do Amapá (UNIFAP),
defendido em 2024.
3 Doutorando em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Mestrado em Artes Cênicas pela Universidade
Federal de Uberlândia (UFU). Graduação Licenciatura em Teatro pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Ator,
performer, diretor e produtor cultural. Professor Adjunto do Curso de Teatro Licenciatura da Universidade Federal do
Amapá (UNIFAP). raphaelbrito@unifap.br
https://lattes.cnpq.br/1515053383923101 https://orcid.org/0000-0002-1648-2943
4 Especialização em andamento em Artes do Espetáculo pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB).
Graduação Licenciatura em Teatro pela Universidade Federal do Amapá (UNIFAP). Artista e educadora amapaense, mãe,
pernalta e capoeirista. karinamateus020@gmail.com
http://lattes.cnpq.br/8453086990445599 https://orcid.org/0009-0000-2090-868X
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Rasgar a boca da terra
A crise planetária que marca o início do século XXI não é apenas ambiental,
mas também estética, epistemológica e política. O termo Antropoceno emerge
como tentativa de nomear uma era geológica em que as ações humanas alteraram
de forma irreversível a Terra. Contudo, como aponta Jason Moore, não se trata de
uma responsabilidade difusa e universal da humanidade, mas de um sistema
específico de exploração:
O Antropoceno é uma narrativa de espécie, que atribui responsabilidade
igualmente a todos os humanos. O Capitaloceno, ao contrário, mostra
que não foi o ‘homem’ em abstrato, mas o capitalismo histórico que
gerou e segue gerando as condições de crise planetária. É a lógica de
acumulação infinita, de apropriação da natureza como barata ou gratuita,
que nos trouxe até aqui (Moore, 2017, p. 592).
Neste artigo, utilizamos o termo Antropoceno de modo tensionado. Embora
a noção nomeie a escala planetária da crise, ela pode universalizar
responsabilidades e apagar que a devastação tem história colonial, racial e
capitalista. Por isso, a formulação Capitaloceno, em diálogo com Moore (2017),
torna-se decisiva para nossa análise: ela permite apontar que, na Amazônia, a
catástrofe não decorre de uma humanidade abstrata, mas de regimes históricos
de extração, espoliação territorial e produção sacrificial de corpos, rios e florestas.
Em perspectiva contracolonial, tal como elaborada por Antônio Bispo dos
Santos, em cuja formulação este artigo se ancora para sustentar o uso do termo,
trata-se de reconhecer que o “fim do mundo” não chega da mesma forma para
todos, pois, como afirma o autor, há mundos que já vêm sendo sistematicamente
destruídos desde a invasão colonial, de modo que o colapso é, para muitos povos,
uma experiência histórica contínua (Santos, 2023).
Nessa chave, o Antropoceno não pode ser tomado apenas como categoria
descritiva de uma crise ambiental global, pois, quando enunciado sem tensão
crítica, tende a apagar a colonialidade que distribui desigualmente a devastação e
a própria possibilidade de nomeá-la. Em perspectiva contracolonial, interessa-nos
compreender que aquilo que se apresenta como “crise do humano” é, para muitos
povos e territórios, a continuidade de um projeto histórico de invasão, expropriação
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e destruição de mundos. Ao deslocar o debate para a Amazônia urbana, o artigo
insiste que o colapso não é abstração planetária, mas experiência material e
localizada, inscrita em corpos, rios, quintais, ruínas urbanas e formas persistentes
de violência extrativista.
A Amazônia, ao mesmo tempo território de vida e de expropriação, revela de
modo agudo essa contradição. No estado do Pará, rios e corpos seguem
contaminados pelo mercúrio dos garimpos; florestas são consumidas por
queimadas em nome de monoculturas e projetos de colonização; cidades se
expandem de forma desordenada, sem saneamento básico e sem infraestrutura,
mas sustentadas pelo mito da riqueza mineral.
Nesse contexto, o município de Itaituba, no estado do Pará, emerge como
foco desta pesquisa: conhecida como “cidade pepita”, a cidade que se apresenta
como lugar de abundância e funciona como uma grande corrutela, marcada pela
desigualdade, pela precariedade urbana e pela violência ambiental. É nesse
paradigma que se inscrevem as artes vivas amazônidas. Elas não apenas
representam ou simbolizam a crise, mas a encarnam nos corpos que resistem e
denunciam. Para Donna Haraway, é preciso “ficar com o problema”:
Não se trata de buscar redenções fáceis ou imaginar mundos pós-
apocalípticos purificados. ‘Ficar com o problema’ significa habitar as
ruínas do capitalismo e da modernidade, inventando, com outros seres
vivos e não vivos, modos de existência que recusem a lógica da
destruição e do progresso linear (Haraway, 2016, p. 55).
As performances que emergem na Amazônia, como
Aparição Vomitada
, são
gestos de insurgência que revelam a materialidade do Capitaloceno. O corpo que
vomita não encena uma metáfora distante, mas expõe, em carne e presença, a
saturação dos rios envenenados, das cidades corrompidas, das promessas de
riqueza que se transformam em ruínas. Nesse sentido, as artes vivas atuam como
práticas ambientalmente implicadas, como corrobora Tanja Beer, ao propor a
ecoscenografia:
Projetar com a natureza e não contra ela significa compreender que
cada material, cada gesto e cada presença em cena participa de uma
rede ecológica mais ampla. A performance pode se tornar, assim, não
apenas representação, mas também cuidado e responsabilidade (Beer,
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2021, p. 22).
Se para Haraway trata-se de “ficar com o problema” e para Beer a “cena é
cuidado”, na Amazônia a performance nasce como problema e como cuidado,
encarnando contradições históricas de um território em disputa. O processo
criativo amazônida paraense se aproxima dessa ética. Ao trabalhar com materiais
naturais como a fibra da bananeira, não se trata de uma escolha estética, mas de
uma prática vinculada à inscrição ecológica que ressoa nas práticas culturais
locais.
Contudo, diferentemente da perspectiva europeia da ecoscenografia,
ancoramos esta investigação em uma experiência atravessada por
ancestralidades, oralidades e modos de viver que não se separam da floresta e
dos rios. A vida urbana na Amazônia — entre quintais cheios de mangueiras, ruas
de barro, casas de madeira e periferias cercadas de concreto atravessa os
corpos que criam. Somos corpos que carregam a contradição: amazônidas que
vivem nas cidades, mas que guardam no corpo as memórias das águas, da mata,
das festas populares e dos ciclos da chuva, como afirmam Déborah Danowski e
Eduardo Viveiros de Castro na citação a seguir:
O fim do mundo chegou para muitos povos. O apocalipse não é um
evento por vir, mas um processo em curso, que se abate primeiro sobre
os que habitam as margens do capitalismo. A questão não é se haverá
mundo por vir, mas de quais mundos estamos dispostos a participar
(Danowski; Viveiros de Castro, 2014, p. 63).
No Pará, esse “fim do mundo” se traduz no garimpo que devasta territórios
indígenas, na ameaça constante aos Munduruku, na mudança de cor das águas do
Tapajós em Alter do Chão, na violência contra ambientalistas e lideranças. E, ao
mesmo tempo, se traduz na capacidade de criar, de reinventar linguagens
artísticas que denunciem e reencantem.
É nesse horizonte que situamos o estudo da performance
Aparição Vomitada
.
O gesto poético de vomitar, realizado publicamente nas ruas de Itaituba (PA),
condensa a recusa e a denuncia. Ele é corpo-rua, corpo-rio e corpo-memória que
expulsa o excesso do Capitaloceno e devolve à cena a força de uma insurgência
amazônida, como corroboram os autores na seguinte reflexão:
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A performance não é dança, nem teatro, arte visual ou música. Ela é fruta
que escorre pelas bordas dos lábios das gentes cansadas de hábitos, de
bons hábitos, cansadas de açúcar, de doce, cansadas de códigos e
semióticas (Medeiros; Aquino, 2011, p. 191).
Este artigo analisa a performance
Aparição Vomitada
a partir de uma escrita
de pesquisa-criação em coautoria, situada na memória de processo criativo,
descrição da ação performativa e reflexão crítica pós-realização. A obra foi
realizada em Itaituba (PA), na madrugada de 13 de maio de 2022, única sexta-feira
13 daquele ano, no perímetro da orla da cidade, tendo como ponto de referência
a estátua garimpeira.
Em um corpo gestante de cinco meses, sobre perna de pau, com
indumentária composta por fibra da bananeira, chapéu em forma de batéia
recipiente tradicional utilizado no garimpo para separar o ouro dos sedimentos —
e objetos sonoros, a ação atravessou o espaço urbano como aparição de
estranhamento e denúncia, ao longo de cerca de cinquenta minutos. Interessa-
nos compreender de que modo, nesse contexto, o gesto de vomitar, a ocupação
da rua, as materialidades amazônidas e a relação entre performer e público isto
é, com os transeuntes que circulavam pelo espaço urbano configuram o corpo-
território como prática insurgente diante do Antropoceno/Capitaloceno.
Amazônia urbana: corpo-território em insurgência
A Amazônia, frequentemente concebida por olhares externos como uma
vasta extensão de floresta intocada, é também um território urbano marcado por
tensões permanentes. As cidades amazônidas não existem à margem da floresta
e dos rios; elas são atravessadas por essas forças, tanto em sua materialidade
quanto em suas camadas de memória.
Em Itaituba, como em tantas outras cidades do estado do Pará, o cotidiano
revela esse entrelaçamento. Quintais ainda guardam árvores frutíferas
mangueiras, cajueiros, bananeiras —, mas ao lado delas correm valas de esgoto a
céu aberto, ruas de barro cortadas por poeira e fumaça de queimadas.
Esse corpo que habita a cidade é também corpo-floresta e corpo-rio. É corpo
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que respira fumaça de garimpo e ao mesmo tempo saboreia a fruta colhida no
quintal. Corpo atravessado pela precariedade das políticas públicas e pela riqueza
de oralidades, festas, rituais e afetos comunitários. Ser amazônida urbano é
carregar no corpo a contradição: viver em um espaço marcado por desigualdades,
mas que insiste em produzir vida, memória e poesia. Esse corpo amazônida urbano
é, portanto, também performance: ele denuncia enquanto vive, cria enquanto
resiste
.
Como aponta a autora na citação que segue, ao refletir sobre a cena e a
pajelança:
Atuar-atuado é fazer da cena um lugar em que a vida mesma se coloca
em risco, um espaço onde corpo e território não se separam. É
compreender que o corpo não é apenas suporte, mas território
expandido, que pulsa memórias, dores, ancestralidades e também
insurgências. A cena, nesse sentido, não é representação, mas presença
intensificada, rotação de perspectiva (Brito, 2019, p. 10).
É nesse horizonte que situamos a Amazônia urbana como território que não
se esgota na dicotomia floresta versus cidade. Os corpos que criam, dançam e
performam nesse espaço carregam simultaneamente a memória dos rios e a
violência das ruas. São corpos atravessados pelo garimpo, pelo mercúrio e pela
desigualdade, mas que também se afirmam como corpos de resistência, capazes
de transformar suas experiências em gesto poético, em criação artística e em
denúncia.
“Cidade pepita” e crítica ao garimpo
Itaituba (PA), conhecida como “cidade pepita”, tornou-se símbolo das
contradições amazônidas no Antropoceno. O ouro que circula em seus becos e
praças é, ao mesmo tempo, promessa de riqueza e sentença de ruína. O garimpo,
atividade que molda a economia e o imaginário local, contamina rios com
mercúrio, devasta florestas e corrói modos de vida comunitários. A cidade,
construída sobre o mito da abundância mineral, revela-se como uma grande
corrutela, marcada pela precariedade urbana e pela violência ambiental.
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Figura 1 Intervenções visuais no espaço urbano de Itaituba (PA), evidenciando a circulação
de cartazes realizada por parte da população, com a inscrição “Garimpeiro não é bandido, é
trabalhador”. Foto: Karina Mateus.
Em Itaituba (PA), o enunciado “Garimpeiro não é bandido, é trabalhador” não
aparecia apenas como frase solta, mas como campanha visual espalhada por
automóveis, paredes, chapéus e blusas. Sua popularização, especialmente entre
2020 e 2021, constituiu um dos impulsos decisivos do processo criativo de
Aparição Vomitada
, pois condensava, no espaço urbano, a naturalização discursiva
do garimpo e de suas violências. Ao moralizar a figura do garimpeiro como
emblema do trabalho honesto, esse slogan desloca o debate sobre contaminação,
desigualdade e devastação, convertendo a “cidade pepita” em paisagem simbólica
de legitimação do extrativismo.
No campo das artes vivas, essa tensão não é apenas pano de fundo, mas
atravessa diretamente os corpos criadores. O gesto artístico insurgente se inscreve
como fissura sensível diante da lógica do Capitaloceno. Como observa a
pesquisadora Paola Bianchi (2021, p. 5), ao refletir sobre as poéticas que emergem
em contextos de catástrofe:
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Não se trata de representar a destruição, mas de criar gestos que a
atravessem. A cena, nesse sentido, é lugar de política: ao mesmo tempo
sintoma e resistência, ela produz deslocamentos capazes de corroer as
barragens simbólicas e materiais que tentam conter a vida.
O garimpo em Itaituba (PA) opera como barragem invisível: impede o fluxo da
vida ao mesmo tempo em que promete prosperidade. As artes vivas, quando se
insurgem contra essa lógica, criam brechas para pensar outras formas de futuro.
Dados recentes indicam que, em 2022, mais de 20 toneladas de ouro extraídas da
região do Tapajós foram comercializadas ilegalmente (ISA, 2022), revelando como
a economia oficial e a clandestina se confundem no cotidiano da cidade. A
pesquisadora Ana Bernstein, em sua análise da performance
Altamira 2042
, aponta
que:
O teatro e a performance, quando se confrontam com o Antropoceno,
não apenas documentam ou denunciam os efeitos da devastação, mas
criam fissuras sensíveis capazes de colocar em questão os regimes de
poder que sustentam a catástrofe (Bernstein, 2021, p. 3).
Essa reflexão ecoa diretamente em
Aparição Vomitada
. O corpo que vomita
nas ruas da “cidade pepita” não é metáfora distante: é insurgência visceral contra
a lógica extrativista. Vomitar o ouro é recusar a promessa da abundância que
engole florestas e rios; é expor, em presença pública, os efeitos concretos do
Capitaloceno amazônida.
Mas a crítica não se encerra na denúncia. As práticas performativas em
contextos de mineração ampliam o horizonte de percepção. Elas convocam a
pensar o corpo como lugar de encontro entre política e ecologia, denunciando o
ecocídio e ao mesmo tempo criando possibilidade de reencantamento. Como
destaca Brito (2019, p. 10): “a cena amazônica é sempre corpo-território, onde vida
e performance se confundem em presença intensificada”.
Assim, a “cidade pepita” não é apenas objeto de crítica social, mas campo de
insurgências artísticas que revelam a materialidade da crise climática. Entre
mercúrio e bananeira, entre praça e quintal, os corpos-performers tornam-se
dispositivos vivos de denúncia e criação, insistindo que ainda é possível habitar as
ruínas sem engolir o futuro.
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Aparição Vomitada
: notas sobre o processo criativo
Neste artigo, analisamos o processo criativo como campo de decisões,
escutas, experimentações, riscos e relações que constituem a própria
performance. Interessa-nos, portanto, pensar a criação como prática situada,
atravessada por condições materiais, afetivas, territoriais e políticas que tanto
antecedem a cena, quanto a integram de modo decisivo. A escrita assume, nesse
sentido, o lugar de uma análise de processo em coautoria, elaborada a partir das
memórias do acontecimento, da descrição da ação, da observação de seus
elementos compositivos e da reflexão crítica de sua realização.
Nossa análise é construída a partir de dois corpos amazônidas em coautoria.
No entanto, foi o corpo da artista Karina Mateus que encarnou a ação performativa
na rua, expondo-se como corpo-cena, corpo-ferida e corpo-dispositivo de
enfrentamento. o artista Raphael Brito acompanhou o processo como
interlocutor crítico e orientador da criação, tensionando escolhas, propondo
deslocamentos, acompanhando as experimentações à distância e participando da
elaboração reflexiva que sustenta esta escrita.
O processo criativo de
Aparição Vomitada
articulou ao menos quatro eixos
fundamentais. O primeiro deles diz respeito à escuta do território urbano de
Itaituba (PA) e de suas contradições, especialmente da orla da cidade, tomada
simultaneamente como paisagem cotidiana, espaço de circulação, ponto de
tensão social e superfície simbólica de um imaginário garimpeiro densamente
enraizado. O segundo eixo corresponde à emergência do vômito como imagem e
gesto de recusa, como formulação poética encarnada de um mal-estar histórico,
ambiental e político. O terceiro refere-se à composição de uma indumentária
elaborada com matérias orgânicas, sobretudo a fibra da bananeira, cuja presença
no corpo operava como extensão sensível de uma territorialidade amazônida. O
quarto eixo, por sua vez, concentrou-se na construção da ação em contexto
urbano, o que implicou considerar o risco, o tempo, o percurso, a visibilidade, a
instabilidade do espaço público e a relação com as pessoas que atravessavam a
cena.
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Figura 2 Processo de confecção da indumentária da performance
Aparição Vomitada
,
a partir do manejo e tratamento de matérias orgânicas, Itaituba (PA). Foto: Karina Mateus.
A performance foi antecedida por observações reiteradas da orla em horário
de madrugada, por experimentações corporais com a indumentária e por análises
do trajeto que poderia ser percorrido por um corpo gestante de cinco meses sobre
perna de pau. O percurso precisou ser pensado em diálogo com as irregularidades
do chão, com as condições de iluminação, com a presença eventual de veículos e
passantes, com a vulnerabilidade implicada na exposição de um corpo grávido em
situação de risco e com a necessidade de sustentar, em movimento, uma imagem
que reunisse precariedade, força, estranhamento e densidade política. O processo
criativo, portanto, não se deu isolado da cidade, mas em fricção direta com ela.
Se o garimpo e a chamada “cidade pepita” configuram o cenário de devastação
e contradição do Capitaloceno amazônida, é no corpo em criação que esse contexto
se converte em gesto crítico.
Aparição Vomitada
nasce dessa encruzilhada: de um
território urbano marcado pela violência da extração e, ao mesmo tempo,
atravessado por memórias, afetos, resíduos, sobrevivências e possibilidades de
insurgência. Não se trata, assim, de simplesmente narrar o garimpo ou ilustrar seus
efeitos por meio de uma linguagem alegórica. Trata-se de devolver à cena a
experiência encarnada de viver entre rios envenenados, quintais frutíferos,
imaginários de riqueza mineral, precariedade urbana, promessas de progresso e
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formas persistentes de abandono.
Nesse sentido, o processo criativo foi sendo tecido como quem costura
cicatrizes em pele viva. Cada provocação, cada deslocamento pela rua, cada
experimentação corporal, cada escolha de materialidade e cada ajuste de percurso
foram se transformando em modos de elaborar artisticamente uma experiência de
saturação histórica e territorial. A criação operou como dispositivo sensível de
presença em confronto.
As artes vivas, quando se defrontam com o Antropoceno/Capitaloceno, deixam
de se limitar à representação de uma crise exterior e passam a implicar-se
materialmente nela, produzindo fissuras no interior do que tende a ser naturalizado.
É nesse sentido que a cena pode constituir-se como prática política que reorganiza
percepções, desloca enquadramentos e perturba a ordem do visível. Como afirma
Bianchi (2021, p. 5), “a cena, nesse sentido, é lugar de política: ao mesmo tempo
sintoma e resistência, ela produz deslocamentos capazes de corroer as barragens
simbólicas e materiais que tentam conter a vida”.
É nesse horizonte que situamos o processo de criação de
Aparição Vomitada
,
que se constitui como experiência liminar que transforma corpo-território em
campo de denúncia compartilhada, sem perder de vista a instabilidade, o risco e a
incompletude próprios do acontecimento.
O gesto de vomitar, a ocupação da rua, as materialidades amazônidas, o tempo
da madrugada, a relação com os passantes e a exposição de um corpo grávido em
deslocamento precário são dimensões que se entrelaçam e compõem uma poética
amazônida insurgente diante do Capitaloceno. Assim, pensar o processo de criação
é também atravessar criticamente uma realidade intoxicada, devolvendo ao espaço
público uma imagem de recusa, vulnerabilidade e resistência.
O gesto poético de vomitar
A performance
Aparição Vomitada
, realizada em Itaituba (PA), na madrugada
de 13 de maio de 2022, única sexta-feira 13 do ano em questão, nasceu como
resposta visceral à vida na “cidade pepita”. O gesto de vomitar, central na ação, é
a metáfora encarnada da recusa: trata-se de expelir o que sufoca, de devolver ao
espaço público o que se acumula como náusea diante da corrupção política, da
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degradação ambiental, da desigualdade social e da violência social. Vomitar, nesse
contexto, é insurgir contra o excesso do Capitaloceno, é fazer transbordar, em
corpo-presença, a revolta, o nojo e a interrupção diante do garimpo e das
promessas de progresso que apodrecem o território e degradam a vida.
A presença em performance não se limita à representação: é ferida aberta,
cicatriz e denúncia. O vomitar transforma-se em linguagem artística porque
carrega em si a saturação do ambiente em que se inscreve — rios contaminados,
florestas queimadas, cidades precarizadas e corpos amazônidas submetidos à
lógica da exploração. No horizonte das artes vivas e do Antropoceno/Capitaloceno,
o vomitar é gesto político. Não se trata de elaborar discurso racional sobre a
catástrofe, mas de dramatizar sua materialidade em presença.
Essa imagem não surgiu de modo arbitrário, mas foi sendo constituída ao
longo do processo criativo como necessidade poética e política. O corpo, ao
assumir essa ação, se coloca em estado limite, desconfortável, instável e
irreconciliável com a retórica celebratória da riqueza mineral. Vomitar é, portanto,
o esgotamento de um corpo que não suporta reter em si a matéria tóxica do
mundo e que, justamente por isso, a devolve ao campo comum da percepção.
Como afirma Bernstein (2021, p. 3), ao refletir sobre
Altamira 2042
:
O teatro e a performance, quando se confrontam com o Antropoceno,
não apenas documentam ou denunciam os efeitos da devastação, mas
criam fissuras sensíveis capazes de colocar em questão os regimes de
poder que sustentam a catástrofe.
É essa fissura que se abre em Itaituba (PA): um corpo que vomita revolta no
meio da rua desloca a naturalização do garimpo, desfaz a retórica da “cidade de
ouro” e transforma a própria presença em insurgência. O gesto é mais do que
metáfora: é ritual profano que, ao mesmo tempo, exorciza e denuncia. Exorciza
porque faz do corpo um canal de expulsão simbólica do intolerável; denuncia
porque devolve à rua, sob forma imagética, a matéria política da devastação.
Ao vomitar, a performer rompe com a ideia de um corpo disciplinado,
silencioso e ajustado à paisagem urbana. Seu corpo torna-se excesso, falha,
escape e vazamento. É justamente nessa negatividade que reside sua força
poética, pois a ação incomoda, desloca, perturba e obriga o olhar a confrontar
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aquilo que a paisagem social aprendeu a absorver como inevitável.
Figura 3 Desenho elaborado por Karina Mateus no percurso do processo de criação da
performance
Aparição Vomitada
, concebido como dispositivo de elaboração visual da
indumentária a ser utilizada na ação performativa. Foto: Karina Mateus.
As artes vivas, nesse sentido, são mais do que representação da crise. São
práticas ambientalmente implicadas, como nos provoca Bianchi (2021, p. 4),
quando afirma que a cena pode “produzir deslocamentos capazes de corroer as
barragens simbólicas e materiais que tentam conter a vida”.
Aparição Vomitada
se
inscreve nesse campo: um corpo que rompe barragens simbólicas ao tornar-se
canal de uma indignação coletiva, uma recusa pública à lógica de exploração que
sustenta o Capitaloceno.
Mais do que expressar um mal-estar individual, o corpo que vomita torna-se
passagem de uma saturação coletiva, abrindo espaço para que violências
históricas e territoriais encontrem forma, visibilidade e circulação. Há, nesse gesto,
algo de profundamente amazônida, no modo como a ação emerge de uma
territorialidade específica, marcada pela convivência violenta entre abundância
natural, pilhagem econômica, imaginários coloniais e persistências vitais.
Vomitar é também devolver à terra o que (d)nela foi violentamente extraído.
É inverter o fluxo da acumulação: em vez de cavar para dentro, expelir para fora.
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Se o garimpo cava, perfura e arranca da terra sua matéria valiosa para alimentar
circuitos de enriquecimento e devastação, o corpo da performance opera no
sentido contrário: ele expulsa, devolve, faz sair, põe para fora aquilo que não pode
mais ser mantido em seu interior.
Essa inversão não é apenas formal, mas concentra uma tomada de posição
estética e política. Vomitar é recusar a interiorização passiva da violência. É impedir
que o corpo se converta em depósito silencioso daquilo que o destrói. É gesto
liminar entre vida e morte, denúncia e criação. É também gesto situado entre
exaustão e sobrevivência, entre vulnerabilidade e insistência. É corpo que insiste
em não se deixar engolir pelo ouro ou pela ficção de progresso produzida pela
economia extrativista.
Assim, o gesto poético de vomitar condensa a impossibilidade de permanecer
intacto em um mundo intoxicado, mas também a recusa em aceitar essa
intoxicação como condição natural da existência. Em
Aparição Vomitada
, o corpo
não se acomoda à ordem da “cidade pepita”; ao contrário, devolve ao espaço
público uma imagem perturbadora que é, ao mesmo tempo, denúncia,
desobediência e criação. O que emerge na rua, portanto, é uma política do corpo
que insiste em expor o intolerável e em produzir, no coração da cidade, uma
aparição insurgente.
Provocações em performance no contexto urbano
A performance
Aparição Vomitada
, realizada na cidade de Itaituba (PA),
aconteceu na madrugada, por volta das cinco e meia da manhã. Escolher esse
tempo foi gesto estratégico: quando a cidade ainda dormia, quando os ruídos do
mercado do ouro e o fluxo dos caminhões de minério estavam suspensos, o corpo
da performer atravessou as ruas para instaurar outro ritmo, outro chamado. A
madrugada, com seu silêncio denso e vulnerável, tornou-se cúmplice e
testemunha da ação: era preciso romper o cotidiano quando este se encontrava
mais exposto, mais frágil. Ao longo de cerca de cinquenta minutos, o percurso pela
orla instaurou uma temporalidade desacelerada, em contraste com a lógica
produtivista e utilitária que organiza a “cidade pepita”.
Antes da realização da ação, houve visitas prévias à orla no mesmo horário
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da futura aparição, sempre antes das seis da manhã, para observar fluxo de
pessoas, incidência de luz, ritmo da cidade e viabilidade do percurso. Também
foram realizadas experimentações com a indumentária durante o dia e à noite, no
quintal da vizinha e em frente à casa, para perceber peso, balanço e movimento.
O percurso escolhido não era longo: correspondia ao perímetro da orla, tendo
como ponto de referência a estátua garimpeira. A escolha por um tempo lento,
sustentado por uma bengala/cajado de apoio, buscava justamente romper a
temporalidade utilitária da “cidade pepita”.
O corpo que performava carregava em si a urgência de um território saturado.
Corpo que respirava poeira de garimpo, que caminhava sobre ruas cortadas por
esgoto, que atravessava a orla do Tapajós tomada por múltiplos donos. A “cidade
pepita”, com sua promessa de riqueza e sua precariedade escancarada, foi cenário
e antagonista. Nesse espaço, o gesto poético de vomitar foi rito profano e visceral
contra a digestão forçada do Capitaloceno.
Figura 4 Registro do teste e experimentação da indumentária na região inferior do corpo,
confeccionada com matéria orgânica por Karina Mateus, no processo de criação da performance
Aparição Vomitada
. Foto: Karina Mateus.
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Mais do que um corpo em protesto, a ação elaborava um corpo-aparição:
uma presença de visagem amazônida, lenta, balançada, sustentada por perna de
pau, cajado, sementes sonoras e indumentária vegetal, capaz de deslocar o olhar
urbano não apenas pela denúncia, mas pelo estranhamento ritual que instaurava
na cidade.
O corpo da performer, lançado ao risco da cena, atravessado por memórias
e pela vida cotidiana amazônida, não se ofereceu como representação, mas como
território expandido, encarnando dores e insurgências coletivas. Como apresenta
Brito (2019, p. 10), “atuação-atuada é fazer da cena um lugar em que a vida mesma
se coloca em risco, um espaço onde corpo e território não se separam.” Em
Itaituba (PA), esse risco era palpável: a rua, espaço de circulação mercantil,
transformou-se em arena de conflito, convocando quem passava a olhar, rir,
estranhar ou interrogar.
Alguns desviavam os olhos, outros se aproximavam, perguntando o que era
aquilo. O riso nervoso, o afastamento, a curiosidade — cada reação fazia parte da
dramaturgia da cena, revelando o quanto o garimpo está naturalizado e o quanto
pode ser desconcertante confrontá-lo com um corpo em urgência. A performance,
nesse sentido, ativava o que Bianchi (2021, p. 5) define como “deslocamentos
capazes de corroer as barragens simbólicas e materiais que tentam conter a vida”.
Na madrugada de Itaituba (PA), o corpo vomitava o excesso que a cidade
insiste em engolir. Não havia ornamento, apenas o mínimo: fibras de bananeira,
rastros da floresta ainda presentes no território urbano. O corpo aparição
interrompia o fluxo da acumulação, devolvia à rua o peso que ela tenta esconder
sob a promessa do ouro. Como afirma Bernstein (2021, p. 3):
O teatro e a performance, quando se confrontam com o Antropoceno,
não apenas documentam ou denunciam os efeitos da devastação, mas
criam fissuras sensíveis capazes de colocar em questão os regimes de
poder que sustentam a catástrofe.
Essa fissura se abriu na própria “cidade pepita”: madrugada, corpo e rua se
entrelaçaram em uma provocação coletiva. Era performance e era denúncia; era
risco e era rito. Era também anúncio de que, mesmo nas ruínas do Capitaloceno,
ainda é possível insurgir com a presença viva de um corpo amazônida.
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Materialidade e recepção!
As escolhas materiais de Aparição Vomitada foram mínimas, mas densamente
significativas. A indumentária foi construída ao longo do tempo, em intervalos possíveis
entre trabalho, estudos e sobrevivência, a partir da secagem e separação das fibras da
folha da bananeira. Essas fibras foram dispostas uma a uma na estrutura da saia,
compondo diferentes camadas de resistência, volume e movimento.
Figura 5 Registro do teste e experimentação da indumentária na região superior do corpo,
confeccionada com matéria orgânica por Karina Mateus, no processo de criação da performance
Aparição Vomitada
. Foto: Karina Mateus.
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Para cobrir os seios, utilizou-se a fibra que envolve o caule do coqueiro. Para
a cabeça, foi criado um chapéu leve em forma de batéia, feito por papietagem
com revistas sobre uma batéia emprestada por uma vizinha, cujo companheiro
havia trabalhado no garimpo. A escolha dessas materialidades não respondia
apenas a uma solução plástica, mas à elaboração de uma visualidade amazônida
capaz de tensionar ancestralidade, extrativismo e corpo urbano.
Esse corpo, no entanto, não era apenas corpo exposto, mas corpo gestante.
A gravidez não foi concebida inicialmente como elemento programático da
composição, mas atravessou a performance de modo incontornável, como
acontecimento simultâneo ao processo. Se não foi planejada como símbolo,
tornou-se, na realização da ação, uma presença concreta que reconfigurou o risco,
o percurso e a recepção do trabalho. Vomitar na rua enquanto gestava outro ser
produziu, assim, uma camada de sentido que emergiu no próprio acontecimento:
entre a denúncia da intoxicação do presente e a insistência material da vida.
A recepção urbana oscilou entre o estranhamento e a curiosidade. Alguns
desviavam os olhos, outros riam, outros ainda se aproximavam, perguntando o que
acontecia. Esse campo de tensões fazia parte da cena: o público não estava
preparado para aquele gesto, mas foi convocado a responder, mesmo que em
silêncio ou recusa. Como destaca Bianchi (2021, p. 7), a performance tem força
justamente porque “cria fraturas no cotidiano, deslocando percepções e
instaurando presenças imprevistas.”
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Figura 6 Registro de matéria jornalística veiculada em mídia local de Itaituba (PA), que,
diante da ausência de informações sobre a ação performativa, constrói uma narrativa de
estranhamento. Fonte: acervo digital do portal Giro.
A recepção da ação se deu em diferentes camadas. Durante o percurso,
houve olhares de repúdio, buzina de caminhoneiro, motos reduzindo a velocidade
e até uma viatura cujos policiais filmaram a ação de dentro do carro. Após a
performance, registros circularam em TV aberta local e em redes sociais,
ampliando a reverberação da aparição. Os comentários variaram entre curiosidade,
incompreensão e ataque, incluindo leituras religiosas e menções agressivas à
possibilidade de atear fogo na indumentária. Esses desdobramentos confirmam
que a obra não apenas ocupou a rua, mas desestabilizou imaginários e continuou
operando como provocação para além do acontecimento efêmero.
Assim, as materialidades — vegetal e corporal — e as reações suscitadas no
espaço público compuseram um dispositivo de denúncia e de anúncio. Denúncia
da cidade envenenada pelo ouro; anúncio de que, mesmo nas ruínas, ainda é
possível engendrar futuro.
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Vomitar o ouro, sem engolir o futuro
Diante da “cidade pepita”, vomitar o ouro, não é apenas gesto de recusa: é
prática de sobrevivência. É corpo que não aceita a digestão forçada do
Capitaloceno, que devolve à rua o excesso indigerível da mineração, da violência
ambiental e da precariedade urbana. O ato de vomitar torna-se, assim, uma
política estética: insurgência que desestabiliza narrativas de progresso e revela, em
carne viva, a ruína que se oculta sob a promessa de abundância.
Aparição Vomitada
mostra que, na Amazônia, a performance não pode ser
pensada como representação distante da crise. Ela é a própria crise em ato, corpo
que se coloca em risco e anuncia outro modo de existência. Como salientam
Danowski e Viveiros de Castro (2014, p. 63), “o apocalipse não é um evento por vir,
mas um processo em curso, que se abate primeiro sobre os que habitam as
margens do capitalismo”. Em Itaituba (PA), esse processo está inscrito na mudança
de cor das águas, na contaminação dos corpos, na violência contra povos indígenas
e ribeirinhos. Mas também está inscrito na capacidade de criar, de reinventar
linguagens artísticas que denunciem e reencantem.
As artes vivas amazônidas operam nesse entre-lugar: são denúncia e
encantamento, ferida e rito, presença e futuro. Elas confrontam diretamente a
lógica do Capitaloceno, revelando que a devastação não é apenas ambiental, mas
também estética, epistemológica e política. Nesse sentido, o gesto de vomitar o
ouro é também gesto de não engolir o futuro pré-formatado pelo extrativismo.
É abrir espaço para outros mundos possíveis, para o que Haraway (2016, p. 55)
chamou de “ficar com o problema”, como já citado neste artigo: “habitar as ruínas
sem buscar redenções fáceis, mas inventando formas de coexistência com
humanos e não humanos”.
Mas esta pesquisa é mais do que um registro de performance: é também
processo de passagem. Não se trata apenas de seguir um método sistemático,
mas de atravessar cosmologias, memórias e rupturas identitárias. Vomitar é
também escrever: expelir, em forma de texto, as dores e insurgências do corpo-
cidade. Essa escrita nasce não apenas da teoria, mas também das oralidades, dos
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causos, dos quintais, das ancestralidades que habitam a Amazônia.
Figura 7 Registro da performance
Aparição Vomitada
, realizada na madrugada de 13 de
maio de 2022 (única sexta-feira 13 do referido ano), na orla de Itaituba (PA), nas imediações
da estátua do garimpeiro, marco simbólico da cidade. Foto: Autor desconhecido, transeunte
da cidade.
Ao mesmo tempo, não podemos ignorar a crítica estrutural: a universidade
brasileira ainda se ancora em cânones eurocêntricos, reproduzindo uma tradição
marcada por homens, brancos, europeus e estadunidenses. Nesse sentido, pensar
um processo criativo amazônida é gesto de contracolonialidade epistemológica.
Como provoca Takuá (2021, p. 12): “essa universidade escreve tanto, mas observa
pouco a sutileza das diversas formas de transmissão de conhecimento”.
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Aparição Vomitada
se inscreve nesse horizonte de ruptura: não apenas
escreve, mas observa, escuta, encarna. O corpo grávido que vomita nas ruas de
Itaituba (PA) é também corpo-escrita, corpo que expulsa o excesso da mineração
e, simultaneamente, anuncia a gestação de futuros outros.
Como disserta Bernstein (2021, p. 3), “é preciso criar fissuras sensíveis contra
os regimes de poder que sustentam a catástrofe”. E, Brito (2019, p. 10) completa:
“o corpo em atuação-atuada torna-se território expandido, condensando
memórias, ancestralidades e insurgências”. Vomitar o ouro, sem engolir o futuro,
é insistir que ainda podemos recusar a lógica de morte que sustenta o
Capitaloceno. É afirmar que, mesmo nas ruínas, ainda podemos gestar mundos
outros.
A análise de
Aparição Vomitada
permite sustentar ao menos três
contribuições. Primeiro, evidencia que, na Amazônia urbana, o corpo-território não
opera como metáfora abstrata, mas como condição material de criação, que
cidade, floresta, rio e violência extrativista atravessam diretamente o gesto
artístico. Segundo, mostra que a pesquisa-criação, quando assumida como escrita
de processo em coautoria, produz conhecimento não apenas sobre a obra, mas
desde o próprio fazer, tornando visíveis procedimentos, escutas e decisões
composicionais. Terceiro, propõe que, no contexto amazônida, pensar o
Antropoceno exige tensioná-lo pela chave do Capitaloceno e por uma crítica
contracolonial, para que a catástrofe não seja atribuída a uma humanidade
abstrata, mas aos regimes históricos que organizam a expropriação dos territórios.
Este artigo, portanto, é também um rito de passagem: texto que não se
pretende neutro, mas que se lança como corpo expandido, insurgente e
amazônida. Escrever, aqui, é também vomitar: devolver ao mundo palavras
indigestas, mas necessárias, para que não sejamos obrigados a engolir, à força, o
futuro já envenenado
.
Referências
BEER, Tanja.
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: an introduction. Londres: Palgrave Macmillan, 2021.
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Aprovado em: 29/12/2025
Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC
Programa de Pós-Graduação em Teatro PPGT
Centro de Arte CEART
Urdimento
Revista de Estudos em Artes Cênicas
Urdimento.ceart@udesc.br