A questão indígena durante a ditadura militar brasileira e a opinião pública estrangeira em perspectiva transnacional

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DOI:

https://doi.org/10.5965/2175180314352022e0106

Resumo

Este artigo tem como objetivo analisar a questão indígena brasileira durante os anos centrais da ditadura militar a partir de uma perspectiva transnacional. Essa abordagem enfatiza fenômenos históricos baseados em pessoas e ideias, emancipando-os dos Estados nacionais como uma estrutura “natural” para o estudo da história. A primeira parte deste texto discute a importância da opinião pública nas relações internacionais para, posteriormente, compreender como o Estado brasileiro encarou as interferências estrangeiras em questões que os governantes do período ditatorial acreditavam ser de competência nacional. Posteriormente, a partir da reflexão acerca do poder simbólico dos povos indígenas no Brasil e no exterior, será feita uma análise em duas partes: na primeira, um estudo de caso focado no impacto que o Relatório Figueiredo – ao ser divulgado internacionalmente – teve na França; em seguida, estenderemos para o âmbito transnacional nossas observações sobre os prejuízos ocasionados pelas denúncias contidas no supracitado relatório, procurando encontrar os vasos comunicantes entre o que estava acontecendo no Brasil, sua leitura pela opinião pública internacional, as formas como as autoridades militares agiram para proteger a imagem externa do país e, também, as possíveis vantagens obtidas pelos atores nacionais que, nos anos 1970, atuavam em favor da causa indígena.

Palavras-chave: povos indígenas; ditadura militar; história transnacional; opinião pública; relações internacionais.

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Biografia do Autor

Paulo Cesar Gomes, Universidade Federal Fluminense (UFF)

Historiador. Pós-doutorando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense (UFF), doutor em História Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com período de estágio no Institut des hautes études de l’Amérique latine (IHEAL/Universidade Paris 3). É autor dos livros Os bispos católicos e a ditadura militar brasileira: a visão da espionagem (Record, 2014) e
Liberdade vigiada: as relações entre a ditadura militar brasileira e o governo francês – do golpe à anistia (Record, 2019). Foi analista de pesquisa da Comissão Nacional da Verdade e professor de História do Brasil Republicano na UFF. É pesquisador vinculado ao Núcleo de Estudos Contemporâneos (NEC) da UFF, onde coordena o Grupo de Estudos História da Ditadura (GEHD), e membro do comitê executivo da rede de investigação Direitas, História e Memória (DHM). É membro da Association pour la Recherche sur le Brésil en Europe (ARBRE), da Red Internacional de Estudios sobre Estados de Excepción y Terrorismo de Estado (REDET) e da International Federation for Public History (IFPH). Em 2019, o Instituto Tomie Ohtake publicou o catálogo da exposição AI-5 50 Anos: Ainda Não Terminou de Acabar, referente ao período da ditadura militar brasileira, com textos de Gomes e outros onze autores. Por este livro, ele ganhou em 2020 o Prêmio Jabuti na categoria "Artes".

É fundador e editor-chefe do site História da Ditadura (www.historiadaditadura.com.br). Atuou na criação e na coordenação do projeto História em Quarentena (www.historiaemquarentena.com).

Carlos Benitez Trinidad, Universidad de Santiago de Compostela

Historiador. Doutor em História de America (Universidade Federal da Bahia, Brasil e Universidad Pablo de Olavide, Espanha), é pesquisador pós-doutoral no grupo de história agrária e política do mundo rural HISTAGRA (Universidade de Santiago de Compostela) e investigador do Centro de Investigación Interuniversitario das Paisaxes Atlánticas Culturais (CISPAC). Foi investigador integrado no CHAM-Universidade Nova de Lisboa e visitante na Pontifícia Católica Universidad del Perú e na Universidade Federal Fluminense. É fundador e editor da revista-rede Iberoamérica Social e do projeto de história pública brasileira História da Ditadura e História em Quarentena. Especialista na questão indígena brasileira durante a ditadura militar de 1964, interessa-se pela história indígena e indigenismo do século XX naquele país, especialmente aquela ligada ao impacto das representações e imaginários nas relações interétnicas.

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Publicado

2022-04-30

Como Citar

GOMES, P. C.; BENITEZ TRINIDAD, C. A questão indígena durante a ditadura militar brasileira e a opinião pública estrangeira em perspectiva transnacional. Tempo e Argumento, Florianópolis, v. 14, n. 35, p. e0106, 2022. DOI: 10.5965/2175180314352022e0106. Disponível em: https://www.periodicos.udesc.br/index.php/tempo/article/view/2175180314352022e0106. Acesso em: 7 jul. 2022.