Afrofabulações da elegância: das tecnologias da negritude às técnicas do dandismo

RESUMO

O presente artigo propõe examinar a elegância masculina negra a partir das concepções de tecnologia da negritude e das sutilezas técnicas do dandismo. Objetiva-se investigar os processos que estruturam o regime de visibilidade do dândi negro, bem como delinear a constituição de sua formação ético-poética. Para tanto, retoma-se a noção de afrofabulação como instrumento teórico para refletir sobre o valor expressivo dos gestos corporais e a individuação da nuance por meio do uso de artefatos e artifícios técnicos. No âmbito das intersecções entre negritude e dandismo, adotamos uma dinâmica operatória interdisciplinar, que nos permite pensar as relações entre moda, estética, história e antropologia. A primeira seção da análise dedica-se à exploração do gesto e das técnicas corporais, com o intuito de integrar as estratégias de estilização do corpo ao modelo dinâmico da negritude. Para essa análise, recorre-se aos escritos de Marcel Mauss (2021), André Leroi-Gourhan (1964), Yves Citton (2012), Marielle Macé (2016), Albert Camus (2012) e Abdias Nascimento (1982). Na segunda seção, voltamo-nos para os processos de recepção, transmissão e transgressão histórica do dandismo em manifestações diaspóricas. Com base na anarquia sartorial, investiga-se a subversão das estratégias coloniais de subjugação, revisitando os significados de fabulação e etnicidade para refletir sobre o conceito de “afrofabulação”, com referência a Gilles Deleuze (2012), Achille Mbembe (2014) e Stuart Hall (2006). O objetivo é pensar a formação do ethos do homem negro elegante, compreendendo sua construção identitária a partir da ação heroica de modelar a aparência, concebida como um ato de liberdade cívica.

Palavras-chave: Dandismo negro; Negritude; Afrofabulação.

Afro-fabulations of elegance: from the technologies of blackness to thetechniques of dandyism

ABSTRACT

This article aims to examine Black male elegance, drawing on the concept of technology of blackness and the technical nuances of dandyism. It seeks to investigate the structuring of the regime of visibility of the Black dandy, as well as to outline the constitution of his ethical-poetic formation. To this end, we use the notion of Afrofabulation as a theoretical tool to reflect on the expressive value of bodily gestures and the individuation of nuance through artefacts and technical devices. In the context of the intersections between Blackness and dandyism, we adopt an interdisciplinary operational approach that allows us to think about the relations involving fashion, aesthetics, history, and anthropology. The first section of the analysis is dedicated to the exploration of gesture and bodily techniques, with the aim of integrating strategies of body stylization into the dynamic model of Blackness. For this examination, we draw on the writings of Marcel Mauss (2021), André Leroi-Gourhan (1964), Yves Citton (2012), Marielle Macé (2016), Albert Camus (2012) and Abdias Nascimento (1982). In the second section, we focus on the processes of reception, transmission and historical transgression of dandyism in diasporic manifestations. Based on sartorial anarchy, we investigate the subversion of colonial subjugation strategies, revisiting the meanings of fabulation and ethnicity to reflect on the concept of “Afro-fabulation,” with reference to Gilles Deleuze (2012), Achille Mbembe (2014) and Stuart Hall (2006). Our purpose is to think about the formation of the ethos of the elegant black man, understanding his identity construction based on the heroic action of modelling appearance, conceived as an act of civic freedom.

Keywords: Black Dandyism; Blackness; Afro-fabulation.

Afrofabulaciones de la elegancia: de las tecnologías de la negritude a las técnicas del dandismo

RESUMEN

El presente artículo se propone examinar la elegancia masculina negra, basándose en los conceptos de tecnología de la negritud y en las sutilezas técnicas del dandismo. Su objetivo es investigar los procesos que estructuran el régimen de visibilidad del dandy negro, así como delinear la constitución de su formación ético-poética. Para ello, retomamos la noción de afrofabulación como instrumento teórico para reflexionar sobre el valor expresivo de los gestos corporales y la individualización del matiz mediante el uso de artefactos y artificios técnicos. En el ámbito de las intersecciones entre la negritud y el dandismo, adoptamos una dinámica operativa interdisciplinaria, que nos permite pensar las relaciones entre moda, estética, historia y antropología. La primera sección del análisis se dedica a la exploración del gesto y las técnicas corporales, con el fin de integrar las estrategias de estilización del cuerpo al modelo dinámico de la negritud. Para este análisis, nos basamos en los textos de Marcel Mauss (2021), André Leroi-Gourhan (1964), Yves Citton (2012), Marielle Macé (2016), Albert Camus (2012) y Abdias Nascimento (1982). En la segunda sección, prestamos atención a los procesos de recepción, transmisión y transgresión histórica del dandismo en las manifestaciones diaspóricas. A partir de la anarquía sartorial, investigamos la subversión de las estrategias de sometimiento colonial, retomando los sentidos de fabulación y etnicidad para reflexionar sobre el concepto de “afrofabulación”, con referencia a Gilles Deleuze (2012), Achille Mbembe (2014) y Stuart Hall (2006). Nuestro propósito consiste en pensar la formación del ethos del hombre negro elegante, comprendiendo su construcción identitaria a partir de la acción heroica de modelar la apariencia, concebida como un acto de libertad cívica.

Palabras-clave: Dandismo negro; Negritud; Afrofabulación.

1 INTRODUÇÃO

Nós ousamos ser livres; sejamos, pois, para nós mesmos e por nós mesmos.

Declaração de independência do Haiti (1804).

O estudo do dandismo deveria, em alguma medida, estar associado ao axioma de independência presente em todas as revoltas e revoluções associadas à autoconstituição do sujeito. Ousar ser livre é um imperativo essencial ao estudo de fenômenos que expressam a igualização de condições, a fim de explicitar a abolição de privilégios que visam marcar o modelo de dominação hierárquico. A ideia fulcral deste ensaio, fundamenta-se na premissa de que a elegância negra é elaborada por técnicas corporais e experiências sensíveis responsáveis por erigir uma fabulação da ancestralidade africana. Tais técnicas se tornam um meio de ação para que o homem negro elabore diferentes discursos sintáticos que expressem a luta pela emancipação e liberdade. Para além do individualismo democrático, o que se encontra nesse processo de modelagem do sujeito é o espírito revolucionário responsável por tensionar a dinâmica moderna da colonização, colocando em xeque o lugar do indivíduo subalternizado. O exercício contínuo dos processos de libertação do homem negro passa, sobretudo, pela busca da dignidade, compreendendo-a como a expressão da sua singularidade enquanto sujeito que reconhece sua humanidade e a reivindica como direito. Nessa perspectiva, retoma-se duas questões essenciais para a representação da afrofabulação e da elegância: a negritude e o dandismo. Sustenta-se a hipótese de que ambos se constituem em estratégias de ruptura das práticas coloniais de assujeitamento. Por essa razão, propõe-se examinar a relação entre a negritude e o dandismo, respectivamente, como uma tecnologia e uma técnica que, cada qual a seu modo, concorrem para o fomento do pensamento crítico e para a instauração de uma ação transformadora da condição identitária do povo negro.

2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

2.1 Técnicas do Corpo, Tecnologias do Espírito: entre o Gesto e a Palavra

A vida elegante é, segundo Balzac (2009, p. 38), “uma ciência das maneiras”. Essa forma de conhecimento produzida pela elegância foi denominada, no século XIX, dandismo. A fim de pensar a liberdade intelectual como gesto do espírito, d’Aurevilly (2009, p. 40) compreendeu o dandismo como uma “maneira de ser”. Segundo ele, as palavras e os gestos eram reflexos de uma liberdade interior, responsável por animar a experiência performativa do dândi e por provocar um tipo singular de incorporação da materialidade do mundo na consciência do sujeito. Isso requer, como observou Kempf (1977), um verdadeiro apuro estilístico, que deve se aplicar não apenas ao texto escrito, mas também (e sobretudo), ao modo de se vestir e à toilette. Afinal de contas, o dandismo preza pela unicidade com o mundo: “o terno e a frase procedem do mesmo cuidado” (d’Aurevilly citado por Kempf, 1977, p. 29). Recorrendo a Edgar Allan Poe, Barbey d’Aurevilly (2009, p. 40) enfatiza a noção de uma toilette savante — uma “aparência sábia”, espirituosa e deliberadamente construída. O ato de vestir-se, nesse contexto, é concebido como uma técnica de erudição refinada, em que o corpo se torna suporte de uma inteligência estética. Para d’Aurevilly, tanto as palavras quanto os gestos corporais funcionavam como formas de provocação social: suas frases, afirmava ele, produziam nos espíritos medíocres o mesmo efeito desconcertante que seu colete escarlate causava no olhar burguês.

Retoma-se essas questões iniciais para pensar a articulação entre o dandismo e os gestos humanos, interpretando-os a partir de perspectivas interdisciplinares que envolvem a literatura, a filosofia e a antropologia. No dandismo, o gesto unifica pensamento e ação, palavra e imagem, corpo e habitus. Se articular essas ideias iniciais aos estudos de Mauss (2021) sobre as técnicas dos corpos, compreende-se que a imagem do corpo participa de um processo de incorporação da cultura material e imaterial, integradas às dinâmicas físicas, sociais e psíquicas. Mauss (2021) analisa as técnicas como uma forma de ação modelada pelo habitus, ou seja, pelas práticas cotidianas que criam uma relação com o mundo. Essas técnicas podem ser desenvolvidas por processos educativos, miméticos ou pelas convenções sociais integradas aos modos ou estilos de vida. O cuidado com o corpo seria, de acordo com ele, uma das técnicas aprendidas culturalmente. Vale ressaltar que, nos estudos sobre as técnicas corporais, Mauss examina o corpo como a primeira matéria de manipulação, e a existência seria parte de uma construção infinita de maneiras, posturas, percepções sensoriais e emoções. A existência seria resultante, portanto, de uma manipulação técnica dos gestos cotidianos. O dandismo explicitaria, de forma exemplar, que essas técnicas são um ato eficaz de individuação. Como nos explica Detrez (2002), o corpo é considerado por Mauss como o primeiro instrumento por meio do qual se expressa uma linguagem, manifestando simbolicamente, em cada gesto ou movimento, os conhecimentos biológicos, sociais e culturais adquiridos. A modelagem técnica do sujeito seria, nessa direção, organizada pelo domínio técnico das ações.

Conforme os estudos de etnologia de André Leroi-Gourhan (1964), os meios de ação sobre a matéria por meio das técnicas só se tornam possíveis devido à liberdade de movimento. A consolidação da postura vertical e a organização de artefatos pela manipulação são essenciais para o desenvolvimento de novas tecnologias. Leroi-Gourhan (1964) compreende que a técnica e a tecnologia são expressões indissociáveis do gesto e da palavra, sendo a ação corporal e a linguagem simbólica extensões da corporeidade humana no mundo. Segundo Schlanger (2023), as atividades materialmente criadoras fundamentam o conhecimento implícito da transformação das técnicas e dos saberes tecnológicos. A técnica constitui, em face do que foi delineado, um tipo de aprendizado implícito dos gestos que ultrapassa os procedimentos mecânicos.

2.2 Estilo como Ação Performativa do Gesto

A inteligência material adquirida pela técnica é resultante de uma comunhão entre pensamento e comportamento. A tecnicidade dependeria, essencialmente, do desenvolvimento da memória para orientar o conjunto de atitudes, significações e valores que mobilizariam a atenção do sujeito para o desenvolvimento de seus gestos, reflexões, percepções sensoriais e dinâmicas interiores, a fim de mobilizar as suas emoções. Logo, a relação do sujeito com o próprio corpo dependeria dos movimentos articulados com o mundo em sua existência cotidiana. O corpo não seria, portanto, um tipo de aperfeiçoamento da consciência pela dimensão espiritual. Ao contrário, o corpo seria o produto de um relacionamento dinâmico com o mundo, apreendido pelos diversos instrumentos e pelas técnicas integradas aos diversos modos de existência.

Warnier (1999) elabora o conceito de incorporação para compreender os processos de agenciamento entre o sujeito e os objetos do mundo. A incorporação, em sua perspectiva, é uma dinâmica que se efetiva nos pontos de contato entre o corpo e as coisas, mediada por experiências táteis, sensoriais e cognitivas. Mais do que a simples repetição mecânica de gestos baseados em conhecimentos técnicos, incorporar significa internalizar sequências de ações por meio da prática, permitindo que o corpo se torne depositário de saberes tácitos. Esses saberes se manifestam como gestos que agenciam as coisas, ou seja, os modos de ação que conferem inteligibilidade ao mundo material ou imaterial. Cada gesto mobiliza uma conduta específica, dotada de singularidade e plasticidade situacional. O sujeito é inserido em uma rede comunicativa complexa em que a técnica tanto organiza o saber-fazer quanto atua conformando os modos de ser, sentir e pensar, tornando-se uma tecnologia da existência.

As práticas do vestir configuram-se como um exemplo das tecnologias da existência, pois elas não são apenas uma ação mecânica ou utilitária de proteger o corpo. O ato de vestir é uma ação técnica que envolve escolhas, repetições e sensibilidades estéticas, implicando o sujeito em uma transformação da imagem de seu corpo. Nesse caso, o gesto de vestir revelaria uma certa consciência de si a partir da construção de um saber tecno-sensível, que daria forma à sua subjetividade e à sua singularidade. Nesse processo, o gesto é investido de valor simbólico e a conduta motora, de linguagem estética, propiciando o aparecimento do imaginário radical do sujeito sobre si mesmo. A afirmação desse saber técnico torna visível a sua singularização, tornando possível a sua distinção substancial no espaço social. A prática do vestir seria uma técnica que participaria dos processos de subjetivação da produção de si.

Citton (2012, p. 9), por sua vez, distingue o gesto da ação ao pensá-lo a partir do conceito grego de poíesis. A ação seria relativa ao esforço interior advinda de uma “intenção planejada” pela qual o movimento poderia ser realizado. Ademais, em suas definições preliminares sobre o gesto, Citton explicita a ideia de ação como uma forma de práxis que implicaria um tipo de gestão de conhecimentos sistematizados. O gesto, segundo Citton, guardaria em si uma série de contradições, revelando-se como lugar de uma expressividade súbita e vivenciada. Nesse caso, ele possuiria uma potência que ultrapassa seu agente, revelando-se como um movimento significativo da ação. Com isso, o gesto adentraria o campo da performatividade, designando a produção de realidade das coisas ou dos fatos nomeados pelo discurso. A dimensão performativa do comportamento pode ser compreendida como uma teatralização do gesto, isto é, uma encenação consciente da ação que não busca ocultar sua condição de representação. Nesse processo, a performatividade não se reduz a um simples fazer, mas diz respeito a uma maneira específica de apresentar e encarnar a ação, revelando-se, portanto, como estilo. Por sua vez, o estilo se manifesta pelas nuances singulares do gesto, revelando a potência da ação pelas variações sutis de ritmo. Ele é responsável pela singularização da ação ao afirmar a expressão da individuação do ato.

A estilização da existência não se configura apenas como produção de uma subjetividade de exceção ou como uma estilização dos modos de vida. Ela representa uma “nuance do gesto” no repertório da ação ou do comportamento, expressando a potencialidade do valor simbólico da ação performada (Citton, 2012, p. 11). Segundo Macé (2016), o que se reforça no estilo é a dimensão formal como força vital do gesto de individuação. O estilo concerne à constituição do sujeito a partir da sedimentação de sua performance social, configurando-se como a essência da sua ação para afirmar sua identidade. O estilismo não seria um ornamento, muito menos uma variação plástica das formas; ele é a nuance do gesto que explicita o contraste das diferenças para que haja a distinção na ação performativa de cada indivíduo no espaço social. O estilo poderia, nesse aspecto, demarcar e diferenciar as formas de luta, evidenciando os contrastes e as diferentes reivindicações das mobilizações sociais. Além disso, o estilo marcaria as diferenças regionais e locais apagadas pelos processos de achatamento impostos pela cultura de massificação das idiossincrasias.

Conforme analisa Macé (2016), a antropologia do estilo presente nos textos de Mauss permite-nos pensar as habilidades técnicas do corpo a partir de certos valores erigidos pelo engajamento do sujeito em singularizar os seus modos de ser e de agir no ambiente. À medida que o sujeito expressa a singularidade do gesto, ele é, igualmente, capaz de reconhecer as nuances apresentadas coletivamente. É a partir dessa experiência que ele se torna capaz de reconhecer os processos de distinção social, experimentados no momento de interação com os outros.

Nessa perspectiva, a ideia de “maneiras de ser” apresentada pelas teorias e tratados sobre o dandismo endossam a importância das pluralidades das práticas, reafirmando a diversidade dos “modos de ser” que constitui a autoridade social do dândi. O dandismo negro se constrói nesse contexto em que é necessário afirmar a força política da alteridade negra. O processo de distinção alicerçado pela elegância negra é uma técnica de produção do sujeito que busca afirmar, como nos explica Warnier (1999), a força vital estimulada pela tensão entre o eu-real e o eu-social, o que se torna claro pelo consumo conspícuo dos Sapeurs1 no movimento de estilo denominado SAPE. Ao promoverem o culto à elegância negra, os Sapeurs afirmam o valor do gesto. A prática do vestir na SAPE não se reduz a uma mera técnica corporal pela qual se institui uma economia da elegância; ela constitui uma tecnologia da negritude que dignifica a aparência pública do homem negro. Apesar das contradições evidentes relacionadas às práticas geoculturais de consumo das marcas europeias de luxo, a ação performativa dos Sapeurs subverte as normas convencionais de consumo e os modos dominantes de produção da imagem do indivíduo africano. O estilo pode ser compreendido como uma forma pela qual o indivíduo exerce uma ação sobre si próprio, evidenciando a emancipação de sua agência em relação ao corpo e sua autonomia nas maneiras de ser. O universo da ambiência, por sua vez, configura-se como o modo singular de presença do homem negro elegante no mundo.

2.3 Dandismo e Negritude: da Técnica à Tecnologia da Aparência

Como visto anteriormente, o dandismo pode ser compreendido como uma técnica de produção do sujeito. Ele corresponderia aos modos de ação exercidos sobre o corpo e em direção à sociedade, indicando um trabalho contínuo de reinvenção do sujeito. Para Baudelaire (2011, p. 806), o dandismo constituiria um dos meios privilegiados de “reinvenção do homem na modernidade”. Para além da tecnicidade vital dos corpos, é possível entrever, nessa figura, a potência inventiva do pensamento crítico. O dandismo expressaria, sob essa ótica, as mais nobres faculdades do sujeito moderno, revelando a independência como força interior e vinculando-se à virtude de um caráter opositor e insubmisso. Esses traços conferem ao dândi a condição de ser o último herói em tempos de decadência. Em sua postura, ressoaria, de algum modo, a memória de civilizações extintas. Encontramos, nas palavras de Baudelaire (2011), uma continuidade das tecnologias da negritude como experiência de sublevação do gesto de reinvenção do homem moderno.

Seguindo o entendimento de Leroi-Gourhan (1964) sobre o desenvolvimento das tecnologias a partir da liberdade do gesto e da palavra, compreendemos a negritude como um trabalho perpétuo de racionalização das ideias e das ações para a transformação dos modos de presença do homem negro na sociedade. A tecnologia, como apresenta Schlanger (2023), engloba os processos de devir tecnicista para compreendê-los dentro de um conjunto social e mental. Nessa perspectiva, o processo de produção de pensamento poderia ser analisado como uma tecnologia do espírito, constituindo-se como um fator fundamental de transformação da realidade social e do imaginário no campo simbólico. Conforme analisa Schlanger (2023), Leroi-Gourhan propõe uma superação da dicotomia entre os polos intelectual e técnico, ao destacar que o desenvolvimento espiritual foi determinante para a transformação técnica da matéria. Warnier (1999, p. 11), ao recorrer à expressão “o homem que pensava com as mãos”, enfatiza a dinâmica de incorporação dos saberes, salientando o pensamento como gesto enraizado na ação. As técnicas do corpo, nesse sentido, não apenas articulam domínios intelectuais e espirituais, mas também se inscrevem nas dobras do pensamento crítico, revelando que a autoconstituição do sujeito é, em sua essência, um processo técnico.

Compreendida como uma cultura de libertação, a negritude revela o heroísmo do homem negro ao instaurar projetos de emancipação. Nesse contexto, a negritude pode ser entendida como uma tecnologia do espírito voltada a mobilizar as ações técnicas do homem negro sobre seu próprio corpo, com o propósito de transformar sua presença e sua atuação no espaço social. Trata-se de uma experiência subjetiva orientada à construção de uma imagem digna de si e de uma narrativa singular de vida. Tal enunciação constitui uma tentativa de subverter a lógica de representação do homem negro como um ser inferiorizado e à margem do desenvolvimento tecnológico. A legitimação discursiva da colonialidade partiu do princípio de que o desenvolvimento técnico estava associado à missão civilizatória do Ocidente. A confluência dos valores culturais coloniais, segundo Munanga (2012), contribuiu para instaurar uma situação de crise na consciência do negro, rompendo as fronteiras de assimilação da cultura colonizadora. A cultura do vestir também passa por um processo de transformação que, no limiar entre a resistência e a integração, marca a autoconstituição do sujeito. Enquanto tecnologia do espírito, a negritude orienta a cultura da libertação por meio das práticas da linguagem e do pensamento, visando à afirmação da dignidade cultural africana. Nascimento (1982, p. 42) associa a negritude ao “heroísmo da revolta” compreendendo-a como uma nova ordenação existencial; os negros são os artífices incansáveis que transformam o pensamento em luta pela libertação. Se a revolta, de acordo com Camus (2012, p. 31), seria uma forma de recusa e renúncia, “dizer não” pelo homem negro seria tanto ato de resistência como proclamação de valor. A revolta não seria a expressão do ressentimento, ela estaria no âmago pelo desejo de liberdade. A negritude seria, portanto, uma tecnologia espiritual pela qual a revolta estimularia novas práticas sociais para o reconhecimento do direito do povo negro.

Pela revolta, diz Camus (2012), a experiência do absurdo pode ser transfigurada em ação. Agir conduziria o homem oprimido a experimentar o sentimento de comunidade e, diante da partilha da experiência de injustiça, a ultrapassar-se em outrem, atingindo o patamar mais positivo do reconhecimento do valor: a dimensão metafísica da experiência da solidariedade.

É pelo ato de revolta que se revelam os valores defendidos pelos indivíduos. Essa dimensão “metafísica” se manifesta na consciência dos direitos e no princípio da liberdade política. A solidariedade seria, de acordo com Camus, uma consciência alargada da espécie humana diante dos seus direitos. A revolta representaria o momento em que os questionamentos sobre valor preencheriam o espírito humano, substituindo o mito pela aparição da realidade histórica.

“Ousar ser livre” se configura como um gesto de recusa que se manifesta, por um lado, como a negação do mito de origem que faz do homem a imagem e semelhança de Deus e, por outro lado, como a afirmação dos direitos fundamentais e da luta por justiça social. Para Camus (2012), o dandismo seria a manifestação de oposição do homem à ordem mítica da criação divina.

A interlocução entre negritude e dandismo emerge justamente dessa consciência crítica e lúcida da condição do homem negro, para quem a revolta assume o estatuto de afirmação existencial e política que rejeita os modelos anacrônicos de existência. A insurgência do dândi negro decorre de uma indagação sobre direitos, o seu próprio valor e sobre o seu lugar no mundo. A estética da negritude, tal como enunciada pelo dandismo negro, se torna uma sublevação contra os imperativos de alienação impostos pelo colonialismo.

Enquanto estudo das técnicas de engajamento, a negritude se configura, segundo Enwezor (2018), como um conjunto articulado de práticas que compreende as seguintes atividades: uma rebelião contra a racionalidade de dominação a partir de uma revolta contra o sistema colonial; um projeto de autoemancipação do sujeito com o objetivo de destruir o seu complexo de inferioridade; o questionamento dos dispositivos de injustiça social e econômica; a inserção da cultura africana no centro das discussões epistêmicas; e a provocação de movimentos políticos e sociais que coloquem a libertação como uma atividade ético-política no campo da subjetividade.

Em Ceux qui ont dit non [Não à humilhação] (2012, p. 12), Aimé Césaire narra a experiência infantil de humilhação racial, evidenciada pela dimensão da cultura material. No cerne da narrativa literária, o autor relata que o uso, pela personagem literária, de uma calça de proporção mais curta constitui um motivo de escárnio, transformando-se em pretexto para violência física e simbólica. A narrativa apresenta uma cena de racismo, abrindo uma discussão sobre o “lugar do negro” como apartado e distanciado dos espaços da elite branca. Trata-se de uma cena fundadora da consciência da negritude como experiência vivida da exclusão e da resistência. Césaire (2012, p. 48) explica que, para a experiência do racismo, a negritude era simplesmente uma afirmação do sujeito pelo fato de que o “negro era negro”. O reconhecimento da dimensão ética emergia do passado histórico do grupo ético ao qual pertencia. A palavra negra era transfigurada e transformada em experiência estética.

Nessa perspectiva, a negritude, enquanto uma tecnologia do espírito, visava combater a difusão do ideário universal do sujeito moderno, declarando a autonomia do homem negro como uma nova evidência das realidades locais. O gesto de libertação do homem negro representa o eixo de aproximação com o dandismo, especialmente pelo processo de invisibilidade social, que, de forma recorrente, evidencia as inúmeras formas de exclusão presentes na produção das mais diversas narrativas historiográficas. Por esse motivo, as primeiras manifestações do dandismo negro foram compreendidas como uma espécie de travestimento pela cultura da branquitude.

No ensaio crítico “Sartor Africanus” (2001), Powell propõe uma leitura crítico-histórica do dandismo negro como forma de performatividade do gesto frente ao olhar colonial e racista. A partir da fotografia de Boisey Johnson (1927) registrada na Avenida Champs-Élysées em Paris, Powell retoma o questionamento de Bergson sobre o riso que, segundo o filósofo, compreende a imagem do homem negro elegante como um disfarce. As primeiras manifestações das práticas do vestir no dandismo negro foram compreendidas como ações de disfarce. Para o ideário da branquitude, a elegância negra era um gesto performativo de simulação. Tal leitura, sustentada por uma lógica excludente, nega ao sujeito negro a legitimidade de estilizar o seu corpo a partir dos elementos simbólicos da moda, impossibilitando-o de ressignificar as linguagens da cultura do vestir que ele próprio performa e relegando sua expressão estética a uma condição de paródia ou imitação ilegítima. Powell, no entanto, ressignifica o vestuário do homem negro elegante como uma prática política e existencial. A imagem performativa desse dândi negro é interpretada como elaboração de uma política da negritude, reforçando a ideia de que o estilo não seria apenas ornamento, mas um meio de subjetividade radical do homem negro. A prática da elegância no vestir, ao tensionar estratos sociais e hierarquias raciais, configura-se como um dispositivo subversivo. Esse gesto, aproxima o dandismo da performatividade drag, em que a meticulosa atenção à aparência e o jogo irônico com as convenções se tornam instrumentos de resistência simbólica e de reconfiguração das identidades subalternizadas.

Como lembra Mercer (2018), as políticas culturais da beleza reinscrevem o negro nas práticas de sublevação pelo estilo, configurando uma resposta dialógica ao racismo. A artificialidade da aparência seria um signo estilizado da negritude, elaborado a partir da estratégia dialética da interculturação. As técnicas de estilização do modernismo africano participavam de um “desafiador dandismo” que confrontava a opressão pela manipulação da aparência (Mercer, 2018, p. 76). A aparência meticulosa de Malcom X é o exemplo escolhido por Mercer (2018, p. 77): “a sua imagem pública ecoava a aparência intelectual dos músicos de jazz dos anos 1950, porém, novamente, a partir de uma outra estrutura, Malcolm parecia um mod!”. Segundo Mercer, a colagem estilística das expressões culturais diaspóricas, marcada por dinâmicas de apropriação e contra apropriação, evidenciava a noção de criolização da autoimagem como processo de reestruturação da autoconsciência no contexto da modernidade africana. Ousar ser livre é, para o dândi negro, uma forma de transgredir e romper com a lógica subalterna, dizendo sim às formas de estilização estética na formação cultural diaspórica.

2.4 Afrofabulação e Elegância Negra: o Dandismo como Gesto de Liberdade e Estratégia de Dignidade

Fanon (1971) diz que ser é empregar uma certa linguagem a fim de tomar posse de uma morfologia cultural, pois dentro de cada linguagem há poder. Exprimir-se corretamente seria, portanto, uma forma de dominar o mundo dos brancos, e a elegância seria um dos aspectos discursivos do poder. A elegância, enquanto prática de estilização do corpo, emerge como uma sintaxe discursiva do poder, conforme Detrez (2002, p. 181). Ela aborda a “intextuação” do corpo como forma de incorporação das práticas discursivas que interioriza a disciplina, inscrevendo o estilo como uma apuração da linguagem corporal. A postura do corpo incorpora a injunção cotidiana como palavra da ação comunicativa da aparência. Os gestos corporais, segundo Detrez (2002), podem intervir tanto quanto a palavra nas interações sociais. O gesto seria, nesse encadeamento crítico, um suporte de sentido do conjunto das práticas dos indivíduos que constituiria a política dos detalhes. A aproximação entre essas abordagens visa caracterizar o dandismo negro como uma atitude crítica da linguagem corporal, a fim de pensar a palavra e o gesto como formas de conhecimento implícito desse modo de existência.

Mbarga (2010) examina a representação do objeto e de suas qualidades no vestuário como um tipo de continuidade dos signos interpretantes que provocam uma semiose entre a palavra e a imagem. Essa relação dinâmica entre o objeto e o sujeito produz uma linha de associação entre o vestuário e o imaginário simbólico do espaço social. O vestuário, de acordo com Mbarga (2010), fala sobre um sistema cultural na medida em que se insere no corpo humano. Essa dinâmica relacional permite ao corpo vestido (in)vestir-se de valores. Em sua pesquisa, Mbarga investiga o vestuário-escrito a partir de Barthes (1977) para analisar a sintaxe do signo vestimentário como valor fisiológico que demarca uma axiologia do vestuário. A função da palavra no vestuário seria a de transmitir informações, na medida em que ela assume a autoridade sobre o conhecimento semântico das formas estéticas. Para Barthes (1977), há uma mudança do paradigma ético quando a retórica do vestuário permite uma fabulação do real, produzindo uma alteração ideológica da realidade.

Nessa linha de pensamento, o terno proporciona ao dândi negro um suposto agenciamento estético-social que implica uma transformação utópica da sua história. A retórica do costume masculino produz um real utópico, fabulando o sentido histórico dirigido ao mundo social. A transfiguração do corpo negro participa da poética da relação, retomando aqui o conceito de Glissant (2021) sobre os atravessamentos éticos que provocam a transformação epistemológica das narrativas históricas. A prática corporal de assimilação das referências estéticas do Outro transforma-se em uma espécie de nomadismo transgressor que desenraíza seu próprio território ontológico. A relação com o Outro se constitui pela dinâmica do movimento, inserindo a constituição identitária no processo de desterritorialização do rizoma.

Deleuze e Guattari (2015, p. 31) analisam o agenciamento coletivo de enunciados como um modelo de desterritorialização da linguagem, sobretudo pelo trabalho linguístico das minorias. Trata-se, para eles, de “desterritorializar” a linguagem – nesse caso, a linguagem da cultura vestimentar do dandismo europeu –, que é colocada em linha de fuga pelo devir minoritário, pleno de potencial criativo e transformador. A afrofabulação seria um exemplo do devir minoritário que enfatiza as potências do devir-negro, colocando em discussão as novas dimensões semânticas do poder e da dominação pela imagem do homem negro elegante. O estilo do dandismo negro seria precisamente a unidade-diversidade das formas de mestiçagem e desterritorialização da cultura do vestir.

Glissant (2021, p. 122) define a poética da relação como um “emaranhamento” de referências que explicita as mutações da linguagem cultural. Essas confluências ilustram os encontros turbulentos das culturas e dos povos globalizados como uma estética do caos-mundo. O dandismo negro seria uma forma de abertura ao Outro, operada pela fricção de linguagens, pelo hibridismo das práticas do vestir e pela subversão das etnotécnicas de dominação. A afrofabulação seria uma resposta criativa à negociação dessa poética relacional estabelecida com o Outro. A mestiçagem da linguagem vestimentar inaugura um novo processo de individuação do homem negro, que passa, ao adquirir as técnicas do vestir, a ser ele mesmo e, consequentemente, o Outro. A suposta “desordem da relação”, como explica Glissant (2021, p. 82), desconstrói o mito da pureza, inaugurando o que Segalen (1978, p. 75) denominou ato do diverso: “é pela diferença, é no diverso que se exalta a existência”. Esse ato alicerça a experiência da fabulação, a transfiguração do corpo negro integra a mestiçagem e a travessia como uma prática da linguagem que reconfigura o imaginário colonial. Diante do gesto de criolização do dandismo europeu pelo homem negro, a composição de sua identidade é confrontada por identificações múltiplas e contraditórias, transformando os sistemas de significação e representação cultural, como nos ensina Hall (2006). À medida que as possiblidades identitárias se reconhecem como formas provisórias, uma ficção do sujeito é concebida. O dândi negro afirma-se, em virtude de sua atitude dissidente, como agente provocador, cujos gestos, adornos e posturas instauram zonas de ambiguidade e multiplicidade semântica.

Diante disso, Lewis (2015) estabelece uma correspondência entre o dândi negro e Exu, uma vez que ambos, o homem elegante e a entidade, se constituem pela dinâmica dos atravessamentos em múltiplas direções. O princípio dinâmico articulado simbolicamente pelo atravessamento das encruzilhadas o faz romper com as normas determinantes de raça, gênero e classe social. Sob a lógica da metamorfose, o dândi negro instaura as minuciosas fabulações de sua aparência. A capacidade de transmutar os códigos das diversas técnicas corporais possibilita ao dândi negro ocupar um lugar análogo ao de Exu na cosmologia afro-atlântica. O poder e o reconhecimento do dandismo negro estariam inscritos numa dinâmica relacional marcada pela tensão entre o sujeito enunciador e o olhar significante do outro, cujas projeções imaginárias participam de um regime de fabulação colonial ainda persistente. O ser do homem vestido, enquanto corpo performático e signo cultural, não se dá de forma autônoma, mas em constante negociação com os processos de visibilização e de produção de sentido mediados por estruturas de alteridade.

Fanon (1971) já advertia que, enquanto o negro permanecer entre os seus, não terá oportunidade de experimentar o seu ser a partir do olhar que o interpela. É precisamente nesse entrelugar da linguagem – e aqui, da linguagem vestimentar – que se coloca a possibilidade de reconfiguração dos modos de existência. O domínio da linguagem da moda, sob tal aspecto, não apenas permite a inscrição do corpo negro em um novo sistema semiótico, como também desestabiliza as narrativas hegemônicas, reinscrevendo técnicas corporais como gestos insurgentes que investem o corpo de significação, agência e presença política.

Ao discutir a modernidade atlântica, Gilroy (1993) aponta que a produção da subjetividade negra emerge dos fluxos transnacionais e das fraturas da experiência diaspórica. Como explica Mbembe (2014), o devir-negro é resultante da inserção do sujeito numa zona de contato entre tempos e espacialidades díspares, abrindo-se à imprevisibilidade do encontro com o Outro. Por esse motivo, uma das lutas da negritude é reconfigurar a sua imagem continuamente para liberar-se dos esquemas corporais impostos pela cultura da branquitude. De acordo com Mbembe (2014), a efabulação recorreu a processos de fabulação para construir a imagem do Outro. Embora apresentada como objetiva e real, essa imagem era estruturada pela lógica imaginária da ideologia da superioridade racial. A imagem estereotipada (a efabulação) do homem negro foi, por muitas vezes, utilizada como instrumento ideológico para mascarar as assimetrias do processo de dominação política e cultural, encobrindo o lugar de enunciação do mito colonial.

Checinska (2017) reconhece a automodelagem crioula como uma performatividade da liberdade, entendida como a ação responsável por criar consciências de si a partir da reconfiguração da identidade negra. O ethos da igualdade, erigido, segundo Checinska, pela Revolução do Haiti (1791-1803), simbolizaria a primeira ação que estruturaria os gestos de autonomia cultural e racial do povo negro. Do ponto de vista de Checinska, a grande enunciação da elegância masculina anuncia o ideal de liberdade.

No Brasil, João de Deus Nascimento (1771-1799) incorporou referências estéticas da revolução francesa como potência simbólica para reivindicar a liberdade dos escravizados. Como exímio alfaiate, articulou a técnica da alfaiataria para reformular uma nova roupa para o revolucionário brasileiro. Analogamente à reforma da roupa masculina francesa, ele elaborou um terno para representar a libertação e a igualdade. Sob o lema “Apareça, não se esconda”, ele agenciou a prática do vestir para fabular a elegância negra como signo de ruptura e insurreição. Trata-se, aqui, de fabular o corpo negro como território de insubmissão.

Como observa Starling (2018, p. 217), ao vestir-se “à francesa”, João de Deus chamava deliberadamente a atenção e afirmava com convicção: “Esse trajar é francês; muito em brevemente verá vossa mercê tudo francês”. O costume revolucionário não seria um ornamento funcional, ele seria o exemplo do gesto “intextual” (Detrez, 2002) de uma liberdade que exigia ser vista, reconhecida, partilhada. A liberdade, como prática, só pode efetivar-se no espaço público; e é pela aparência da elegância, enquanto signo e estratégia, que o corpo negro se faz sujeito da história. A afrofabulação proposta por João de Deus inscreve a elegância negra como um gesto da negritude nos sistemas discursivos do regime de visibilidade da cultura do vestir. A utopia de um vestuário real, tropicalizado e insurgente, reconfigura os códigos do vestuário e reinventa a presença negra como força enunciativa. Aparecer é contrariar o silêncio imposto; é reclamar o direito à imagem de si como expressão de liberdade e dignidade.

Aparecer para existir configura o sonho de liberdade do dândi negro. A busca por visibilidade como condição de existência estrutura o imaginário de liberdade do dândi negro. Para Miller (2009), os numerosos registros históricos que evidenciam o apreço estético dos sujeitos negros recém-libertos, especialmente no que se refere à técnica do vestir, revelaria o esforço para equilibrar a tênue fronteira entre processos de assimilação cultural e construção de uma autoimagem positiva. Nesse contexto, os dândis negros articularam moda a liberdade, elevando-a a um novo patamar para que o estilo pessoal se evidenciasse a luta no campo simbólico por dignidade e reconhecimento.

Entre essas figuras, destaca-se a litografia satírica Long-Tail Blue (1827), de autoria de George Endicott. A performatividade burlesca do homem negro poderia, a priori, evocar os dispositivos de controle do corpo impostos pela moda. Entretanto, a dialética iconográfica ressignifica os processos dinâmicos de recepção do dandismo, encarnando, segundo Miller (2009), as tensões constitutivas do dândi negro. Sua aparência é marcada pela semelhança com o artista romântico, reconfigurando o ideal estético do dândi europeu: paletó, calças justas, colarinho plastrom, bengala e monóculo. No entanto, o gesto de apropriação da cultura material do dandismo europeu também efetiva um ponto de contato a partir do qual o gesto de apropriação incorpora os objetos de modo a provocar uma rebelião desse estilo. Ao ser encarnado por um corpo negro, tal apropriação sartorial desloca-se para o campo da ambiguidade e da provocação: o gestual refinado e afetado do dândi adquire contornos subversivos, pois desafia os limites sociais impostos à masculinidade e à aparência negras no espaço público. Long-Tail Blue torna-se, nesse contexto, uma figura liminar, que opera na fricção entre desejo de respeitabilidade, resistência estética e desestabilização dos códigos raciais vigentes.

Ao analisar a afrofabulação da elegância negra, aproxima-se dos exercícios espirituais que, em Hadot (1993), correspondem à compreensão da formação do pensamento e dos modos de existência. Nessa acepção, negritude configura-se como uma atitude concreta, encarnada em um estilo de vida no qual o dandismo se afirma como forma de engajamento ético e estético, uma luta por uma existência digna. A afrofabulação emerge como um gesto de conversão interior, como um processo de modelar a si mesmo com elegância e altivez para defender a ideia de que uma das mais profundas formas de resistência nasce na transformação do espírito. As tecnologias da negritude orientam os exercícios espirituais do dandismo para agenciar o corpo negro e apresentá-lo elegantemente como uma insígnia da liberdade. Afinal, como ressalta Friedmann (1970, p. 359 apud Hadot, 1993, p. 19), “numerosos são aqueles que se deixam absorver inteiramente na política militante, na preparação da revolução social. Raros, muito raros, são aqueles que para preparar a revolução querem dela se tornar dignos”. Em decorrência disso, o dândi negro pode ser compreendido como digno de uma luta que agencia o gesto, o corpo e o pensamento em exercícios espirituais para a defesa da liberdade.

3 METODOLOGIA

O estudo adota vertentes interdisciplinares de trabalho. Segue-se uma exegese de textos, construindo uma hipótese de trabalho a partir da crítica-estética, com vistas a articular pensamentos teóricos que unificam as áreas da filosofia, da estética e da antropologia. Sequencialmente, recorre-se à dinâmica “intextual” para articular a relação entre a negritude e o dandismo. Examina-se a relação entre ética e técnica para pensar a formação das práticas corporais discursivas, analisando a negritude como uma tecnologia que fundamenta o pensamento crítico, social e filosófico.

Por fim, observam-se as estratégias de sublevação do dandismo a partir da dialética proposta pela cultura da libertação sustentada pelas experiências ativadas pela negritude. Nesse momento, deteve-se sobre a ideia do heroísmo e o esforço para construir uma política de visibilidade como alternativa para a modernidade, apresentando uma nova ordem cultural para a representação do homem negro elegante.

4 RESULTADOS E DISCUSSÃO

Este trabalho discute, sob o ponto de vista interdisciplinar, a relação entre negritude e dandismo, compreendendo-os, respectivamente, como uma tecnologia e uma técnica da existência. Estuda-se, no bojo dessa exposição crítica, como os gestos e as ações orientam as práticas do vestir, designando o estilo como uma expressão crítica das formas de vida. A partir dessa análise, apresenta-se a ideia da negritude como uma tecnologia do espírito, essencial para a configuração das ações que alicerçam as revoltas ou insurreições. O conhecimento advindo dessas tecnologias espirituais conforma a consciência do homem negro colonizado, a fim de possibilitar a escolha de novas técnicas corporais para que ele possa encarnar outras práticas discursivas. No horizonte da nossa análise, o dandismo seria uma técnica corporal que imprime os novos ideais da negritude sobre o corpo do homem negro. As táticas de apropriação da moda europeia pelo dândi negro revelariam a dialética de uma forma de sublevação pelo estilo, propiciando uma desconstrução da linguagem da moda pelo processo “intextual” do homem negro elegante.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo teve como objetivo analisar a negritude e o dandismo sob a perspectiva da tecnologia do espírito e da técnica corporal. Partindo da análise da elegância negra como um tipo de revolta espiritual, investigou-se como os modelos constitutivos do gesto revelam o agenciamento crítico do vestuário europeu enquanto uma sublevação de ordem subjetiva e coletiva. O objetivo era reunir textos que pudessem apresentar uma leitura aprofundada da ideia do dandismo negro como uma prática de insurreição do homem invisibilizado. Para criar esse arcabouço teórico, entrecruzamos os temas relativos ao gesto, ao estilo, à revolta, às tecnologias e técnicas da fabulação da elegância. Esse conjunto de ideias permitiu esclarecer como o dandismo negro é uma prática da negritude que visa reorganizar a linguagem, o estilo, o pensamento e o espírito da comunidade negra. A mudança hermenêutica proposta pelo ideário da negritude colocou em discussão a incorporação de saberes e os dispositivos de memória. A partir dessa mudança, o agenciamento coletivo da cultura material modificou as estratégias de estilização dos corpos, integrando a prática do dandismo como um gesto de libertação para dignificar a luta pela liberdade do homem negro. O artigo pretendeu, dessa forma, elucidar como teoria e práxis unificaram os gestos de agenciamento das práticas do vestir como um modo de expressar a emancipação da consciência negra.

CRÉDITO DE AUTORIA

Concepção e elaboração do manuscrito: A. Adverse

Discussão dos resultados: A. Adverse

Nota de fim de texto

¹ De acordo com Adverse (2022, p. 31), os Sapeurs são os homens elegantes do movimento Société des Ambianceurs et des Personnes Élégantes (SAPE), criado na República do Congo em meados dos anos 1950. Eles retomam a filosofia do dandismo europeu, subvertendo-a a partir de uma lógica africana baseada na noção de ambiência. Os “Ambianceurs” seriam as pessoas capazes de transformar a atmosfera hostil da realidade social por meio do labor estético da sua aparência pessoal, transfigurando os desafios sociais em experiência estética.

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