Das técnicas de costura às técnicas de si:
inventando moda com Michel Foucault
RESUMO
Este trabalho investiga as relações entre moda, técnica e pensamento filosófico, a partir da elaboração de uma coleção autoral composta por vinte looks, dividida em quatro famílias conceituais, inspiradas na obra de Michel Foucault. O objetivo deste artigo é apresentar o desenvolvimento da referida coleção e refletir sobre como a moda, enquanto linguagem e prática técnica, pode incorporar discursos teóricos e conceituais, neste caso, no que tange aos conceitos foucaultianos de poder, controle, panoptismo, disciplina, subjetividade, resistência, verdade e parresía. Trata-se, possivelmente, da primeira coleção de moda autoral a tomar a obra de Michel Foucault como eixo conceitual e estético, propondo um diálogo inédito entre o pensamento foucaultiano e os processos criativos no campo da moda. A metodologia adotada segue os princípios propostos por Doris Treptow para o desenvolvimento de coleções de moda, articulando pesquisa de tendências, definição de público-alvo, cartela de cores, escolha de materiais e construção das roupas. As análises foram realizadas a partir das fotografias dos looks confeccionados, permitindo observar como os conceitos foucaultianos foram traduzidos em forma, textura e modelagem a partir das técnicas da moda. Os resultados apontam que a moda pode atuar como meio crítico e expressivo, capaz de desestabilizar convenções sociais, fomentar a emergência de novas subjetividades e engendrar experiências estéticas comprometidas com o pensamento. Dessa forma, o estudo contribui para expandir as articulações possíveis entre teoria e prática, inserindo a criação de moda no campo das elaborações conceituais e nos debates sobre as técnicas que a constituem.
Palavras-chave: Moda; Técnica; Michel Foucault.
From sewing techniques to self-techniques: inventing fashion with Michel Foucault
ABSTRACT
This work investigates the relationships between fashion, technique, and philosophical thought, based on the development of an authorial collection composed of twenty looks, divided into four conceptual families, inspired by the work of Michel Foucault. The objective of this article is to present the development of this collection and to reflect on how fashion, as a language and technical practice, can incorporate theoretical and conceptual discourses, in this case, regarding Foucault’s concepts of power, control, panopticism, discipline, subjectivity, resistance, truth, and parrhesia. This is possibly the first authorial fashion collection to use Michel Foucault’s work as a conceptual and aesthetic axis, proposing an unprecedented dialogue between Foucaultian thought and creative processes in the fashion field. The methodology adopted follows the principles proposed by Doris Treptow for the development of fashion collections, combining trend research, target audience definition, color palette, material selection, and garment construction. The analyses were conducted using photographs of the looks created, allowing us to observe how Foucaultian concepts were translated into form, texture, and modeling using fashion techniques. The results indicate that fashion can act as a critical and expressive medium, capable of destabilizing social conventions, fostering the emergence of new subjectivities, and engendering aesthetic experiences committed to thought. Thus, the study contributes to expanding the possible connections between theory and practice, inserting fashion creation into the realm of conceptual elaborations and debates about the techniques that constitute it.
Keywords: Fashion; Technique; Michel Foucault.
De las técnicas de costura a las técnicas propias: inventando la moda con Michel Foucault
RESUMEN
Este trabajo investiga las relaciones entre moda, técnica y pensamiento filosófico, a partir del desarrollo de una colección de autor compuesta por veinte looks, divididos en cuatro familias conceptuales, inspirada en la obra de Michel Foucault. El objetivo de este artículo es presentar el desarrollo de esta colección y reflexionar sobre cómo la moda, como lenguaje y práctica técnica, puede incorporar discursos teóricos y conceptuales, en este caso, sobre los conceptos foucaultianos de poder, control, panoptismo, disciplina, subjetividad, resistencia, verdad y parresía. Esta es posiblemente la primera colección de moda de autor que utiliza la obra de Michel Foucault como eje conceptual y estético, proponiendo un diálogo sin precedentes entre el pensamiento foucaultiano y los procesos creativos en el ámbito de la moda. La metodología adoptada sigue los principios propuestos por Doris Treptow para el desarrollo de colecciones de moda, combinando la investigación de tendencias, la definición del público objetivo, la paleta de colores, la selección de materiales y la confección de las prendas. Los análisis se realizaron mediante fotografías de los looks creados, lo que permitió observar cómo los conceptos foucaultianos se tradujeron en forma, textura y modelado mediante técnicas de moda. Los resultados indican que la moda puede actuar como un medio crítico y expresivo, capaz de desestabilizar las convenciones sociales, fomentar el surgimiento de nuevas subjetividades y generar experiencias estéticas comprometidas con el pensamiento. Así, el estudio contribuye a ampliar las posibles conexiones entre la teoría y la práctica, insertando la creación de moda en el ámbito de las elaboraciones conceptuales y los debates sobre las técnicas que la constituyen.
Palabras-clave: Moda; Técnica; Michel Foucault.
1 INTRODUÇÃO
No universo da moda, é tecido ideias com linhas invisíveis antes que o tecido toque a pele. Na técnica da costura, a criação começa antes da agulha — nasce no pensamento, no gesto, no mundo simbólico que antecede a matéria. A técnica, nesse contexto, não é apenas um instrumento funcional; ela é também linguagem, tradução e potência de expressão.
É por meio dela que ideias se corporificam, discursos ganham forma e conceitos se tornam vestíveis. A moda, atravessada por tecnologias do fazer e do imaginar, revela-se como um sistema onde corpo, cultura e sentidos se costuram mutuamente.
No viés dessa profícua discussão, este artigo parte da premissa de que toda criação de moda é, ao mesmo tempo, técnica e tecitura de narrativas e sentidos.
As técnicas da moda, longe de serem neutras, carregam consigo histórias e intenções. Quando acionadas conscientemente, tornam-se ferramentas críticas — capazes de tensionar normas, deslocar narrativas e produzir subjetividades.
Foi nesse horizonte técnico-criativo que, entre a segunda metade do ano de 2024 e o início do ano de 2025, diante do tema-guia “Distopias”, um designer brasileiro concebeu uma coleção de moda autoral inspirada na obra do filósofo francês Michel Foucault¹, cujo legado revolucionou sua forma de pensar o mundo — inclusive a moda — desde a primeira leitura de seus escritos.
A referida coleção foi desenvolvida no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), por um estudante concluinte do curso de Tecnologia em Design de Moda, nomeadamente, Marcelino Gomes dos Santos; sob a orientação da professora Aline Gabriel Freire.
Como um dos pré-requisitos para a conclusão do curso, os estudantes do Instituto Federal deveriam criar uma coleção de moda cuja temática se relacionasse com o tema geral proposto como desafio criativo naquele período letivo. A coleção desenvolvida pelo designer é intitulada “Re(existências): revirando as tramas do poder”, composta por 20 looks, dividida em 4 famílias conceituais, com 5 looks cada.
A partir dos conceitos de poder, controle, panoptismo, disciplina, subjetividade, resistência, verdade e parresía, presentes nas revolucionárias obras de Michel Foucault, buscou-se construir, com os recursos próprios da linguagem da moda, uma narrativa vestível que tensionasse os modos de existência dos sujeitos em contextos de vigilância e dominação.
Nesse sentido, o objetivo deste artigo é apresentar o desenvolvimento técnico e conceitual da referida coleção de moda e, a partir dela, refletir sobre o processo criativo e a materialização dos conceitos histórico-filosóficos de Michel Foucault por meio das técnicas que possibilitam a construção do vestuário no universo da moda.
Trata-se, portanto, de compreender como as criações técnicas, estéticas e simbólicas se articulam, produzindo roupas que não apenas cobrem o corpo, mas enunciam sujeitos, ideias e sentidos, aspectos que discutimos a seguir.
2 AS TÉCNICAS DA MODA E AS TÉCNICAS DE SI
Michel Foucault, ao pensar a técnica no campo da filosofia, desloca o olhar da ferramenta para os dispositivos de poder que operam sobre os sujeitos. Em seus escritos, o filósofo nos fala sobre as técnicas de si, as técnicas de vigilância, de disciplina e de controle, que configuram modos de vida e subjetividades.
Na moda, a técnica não se limita ao domínio prático do fazer manual ou maquinário — costurar, cortar, modelar —, mas envolve um saber que organiza o corpo, molda comportamentos e expressa modos de existir.
No caminho dessas reflexões, explica-se a seguir os conceitos foucaultianos que inspiraram o processo criativo da coleção de moda. Não se pretende, aqui, aprofundar as discussões teóricas, mas apresentar uma síntese dos principais conceitos mobilizados, de modo a oferecer uma compreensão geral das ideias que orientaram o desenvolvimento da proposta.
2.1 À moda de Michel Foucault: um legado centenário
O filósofo francês Michel Foucault é um dos pensadores mais importantes do século XX, bem como uma das figuras mais influentes do pensamento contemporâneo, tendo impactado diversas áreas do saber, como a filosofia, a sociologia, a história, a psicologia, os estudos culturais, os estudos de gênero, entre outros².
Na seção seguinte, apresenta-se as famílias conceituais que compõem a coleção de moda, estruturadas a partir de noções presentes nas obras e nas reflexões de Foucault. Elas oferecem uma visão panorâmica dos conceitos filosóficos que orientaram o processo criativo e serviram de alicerce para o desenvolvimento dos looks.
2.1.1 Família 1: Poder e Controle
Entre os conceitos mais famosos do filósofo, estão as noções de poder e controle. Em uma perspectiva foucaultiana, o poder não é simplesmente uma relação de dominação repressiva, mas uma rede difusa de relações que permeia toda a sociedade e produz efeitos na vida dos indivíduos.
De acordo com Foucault (1997, p. 88), “o poder está em toda parte, não porque cobre tudo, mas porque vem de toda parte”. Esse entendimento implica que o controle social não ocorre apenas por meio das instituições tradicionais, mas por um conjunto de práticas e saberes que moldam comportamentos e corpos.
A noção de controle, nos estudos de Foucault, está profundamente ligada à forma como o poder opera sobre os corpos e condutas. O controle não é exercido apenas por meio da repressão ou da coerção explícita, mas por mecanismos sutis e contínuos de vigilância, normatização e disciplina.
Como afirma o autor, “o indivíduo é, sem dúvida, o átomo fictício de uma ‘representação’ ideológica da sociedade, mas ele é também uma realidade fabricada por essa tecnologia de poder que o chama a existir como tal” (Foucault, 1995, p. 252).
Assim, o controle moderno atua na constituição dos sujeitos, organizando suas ações e seus desejos a partir de saberes especializados e dispositivos técnicos.
2.1.2 Família 2: Panoptismo e Disciplina
O conceito foucaultiano de panoptismo é fundamental para compreender os mecanismos modernos de vigilância e controle social. Inspirado na arquitetura da prisão idealizada por Jeremy Bentham, o panóptico simboliza uma forma de vigilância interna e constante, na qual os indivíduos se sentem observados mesmo quando não estão efetivamente sendo vigiados.
Foucault (1995, p. 200) explica que o panoptismo funciona como “um poder que se exerce automaticamente, pois não requer a presença real de quem vigia para que se instale o controle”. Assim, a vigilância internalizada promove a autocorreção dos sujeitos e sua submissão voluntária às normas vigentes.
Além disso, o panoptismo se articula ao conceito de disciplina, entendido por Foucault como uma tecnologia política do corpo que busca produzir sujeitos úteis e dóceis. Como afirma o autor, “a disciplina fabrica corpos submissos e exercitados, corpos ‘dóceis’” (Foucault, 1995, p. 164).
Através de uma série de técnicas e regulamentos, o poder disciplinar age de forma difusa, moldando gestos, condutas e modos de ser, de modo que os indivíduos internalizam o olhar de vigilância e passam a vigiar a si próprios.
2.1.3 Família 3: Subjetividade e Resistência
A subjetividade, para Foucault, é produzida pelas relações de poder que atravessam os corpos e as mentes. O poder não apenas limita, mas também constitui o sujeito, que é formado no entrelaçamento entre saberes, discursos e práticas sociais (Foucault, 1996, p. 105). No entanto, onde há poder, também há resistência.
A resistência não é um ato exterior ou separado do poder, mas emerge dentro das relações de poder como uma força contra-hegemônica que possibilita a transformação e a negociação das identidades. Foucault (1996, p. 134) destaca que “a resistência é múltipla, está em todo lugar e não é necessariamente visível ou organizada, mas pode surgir de formas sutis e cotidianas”.
Em Foucault, a subjetividade é um processo contínuo, moldado pelas forças de poder e resistência. O sujeito não é dado, mas produzido nas práticas e discursos que o atravessam. É nesse jogo que ele encontra possibilidades de se reinventar.
2.1.4 Família 4: Verdade e Parresía
A parresía, palavra de origem grega que significa “dizer a verdade com coragem”, é central para a reflexão foucaultiana sobre a relação entre verdade, poder e ética. Para Foucault (2001, p. 55), a parresía implica “um risco, pois quem fala a verdade expõe-se a perigos e críticas, assumindo responsabilidade pessoal”.
A prática da parresía é um ato de coragem e uma forma de resistência ao poder que domina o discurso oficial e as verdades instituídas. Nesse sentido, a verdade não é um dado absoluto, mas um efeito das relações de poder e das lutas discursivas, onde a parresía atua como uma forma de contestação e transformação ética.
Como se pode visualizar por meio da leitura dos conceitos foucaultianos, mesmo em contextos distópicos, marcados por regimes de controle, vigilância e normatização dos corpos, os sujeitos ainda são capazes de exercer sua subjetividade e instaurar formas de resistência, expressando a sua verdade.
A seguir, trata-se do percurso teórico-metodológico que orientou o desenvolvimento da coleção de moda, bem como o processo de materialização dos conceitos foucaultianos em peças de vestuário.
3 METODOLOGIA
Para o desenvolvimento da referida coleção de moda, partiu-se de um levantamento bibliográfico das principais obras de Michel Foucault, com o objetivo de identificar conceitos fundamentais de sua filosofia que pudessem dialogar com o tema norteador das coleções, apresentados na seção anterior.
Figura 1 - Painel de Inspiração Temática

Fonte: Acervo dos autores (2025).
A partir dessa inspiração temática (figura 1), seguiu-se as orientações teórico-metodológicas propostas por Doris Treptow (2013) em seu livro Inventando Moda: Planejamento de Coleção, que estrutura o processo criativo em etapas sistematizadas e interdependentes.
De acordo com Treptow, o desenvolvimento de uma coleção de moda envolve fases importantes, como definição do tema, pesquisa de referências visuais e conceituais, análise de tendências, construção de painéis de inspiração, escolha de materiais, desenvolvimento de cartela de cores, elaboração de croquis e modelagens, bem como a confecção de protótipos (Treptow, 2013).
Dessa forma, o desenvolvimento da coleção de moda aqui apresentada seguiu integralmente as orientações propostas por Treptow, por compreender que essas diretrizes são fundamentais ao trabalho de qualquer designer de moda. As contribuições da autora foram essenciais para nortear e sistematizar o processo criativo explanado no presente artigo.
Figura 2 - Marca Experimental – MRCL

Fonte: Acervo dos autores (2025).
Vale salientar que a coleção foi criada no viés de uma marca de moda em estágio experimental (nomeadamente, MRCL) que tem como público-alvo (figura 3) pessoas da comunidade LGBTQIAPN+, especialmente aquelas que se identificam com a efervescência da vida noturna, das festas eletrônicas, da música, da arte e da cultura pop, de modo geral.
Figura 3 - Público-Alvo da marca MRCL
Fonte: Acervo dos autores (2025).
Trata-se de um público consumidor que enxerga a moda não apenas como uma forma de expressão estética, mas também como uma ferramenta de afirmação identitária. E que, além disso, valoriza produções conceituais e versáteis, alinhadas às tendências contemporâneas de moda.
Após a realização das pesquisas de tema e público-alvo, foram criados 20 looks, desenhados à mão, organizados em quatro famílias conceituais, desenvolvidas a partir da trajetória filosófica de Foucault.
A primeira família aborda as dinâmicas de poder e controle, explorando como os corpos são moldados por estruturas normativas. A segunda família trata da vigilância e da disciplinarização dos sujeitos, inspirada pelos conceitos de panoptismo e pelas formas sutis de regulação e controle social.
Já a terceira família expressa a subjetividade e a resistência, valorizando gestos de ruptura, insurgência e reinvenção de si. Por fim, a quarta família é dedicada aos temas da verdade e da parresía, destacando o ato corajoso de dizer a verdade em contextos de opressão e risco, como prática ética e política.
Figura 4 - Cartela de Cores

Fonte: Acervo dos autores (2025).
Outro elemento importante na construção das roupas foi a cartela de cores (figura 4) — composta por preto, cinza, vermelho e branco.
Ela foi pensada para traduzir visualmente os conceitos foucaultianos e ajudar na construção da narrativa no domínio da moda, uma vez que as cores não são apenas elementos estéticos, mas contribuem para a elaboração da narrativa e a produção de sentidos.
As cores preto e cinza, predominantes nos dez primeiros looks da coleção, fazem alusão aos dispositivos de poder e controle que operam sobre os sujeitos nas sociedades. O vermelho, por sua vez, simboliza a subjetividade e a resistência — momentos em que o sujeito desafia e tensiona as forças do poder.
Já o branco, na sequência, remete à coragem da verdade, à exposição e ao risco do discurso parresiástico, quando o sujeito rompe completamente com as amarras do controle e expressa sua própria verdade.
Outra etapa fundamental da pesquisa envolveu a escolha dos materiais (figura 5) utilizados na coleção.
Figura 5 – Materiais/Aviamentos

Fonte: Acervo dos autores (2025)
Notadamente, essa escolha não se deu de forma aleatória, mas como uma decisão técnica estratégica, essencial para materializar os conceitos foucaultianos em roupas conceituais vestíveis, voltadas a um público-alvo específico.
A seguir, apresenta-se fotografias dos 6 looks da coleção que foram confeccionados, a descrição dos materiais escolhidos na concretização das roupas, e as discussões dos usos técnicos, estéticos e simbólicos que fizemos durante o processo de planejamento e desenvolvimento da coleção.
4 RESULTADOS E DISCUSSÃO
Dos vinte looks que integram este projeto, seis foram efetivamente confeccionados, transpondo o plano da idealização para a dimensão da materialidade. Essas peças ganharam forma, textura, volume e caimento, tornando tangíveis os conceitos foucaultianos que orientaram o processo criativo.
Embora todos os vinte looks tenham sido integralmente desenvolvidos — com croquis e fichas técnicas detalhadas —, o regulamento do curso de Tecnologia em Design de Moda do IFRN previa, como requisito avaliativo para sua conclusão, a materialização de apenas seis. Dessa forma, optou-se por confeccionar peças representativas de todas as famílias conceituais: um look de cada grupo e dois looks de transição.
O look apresentado nas figuras 6 e 7 integra a primeira família conceitual da coleção, que se fundamenta nos conceitos foucaultianos de poder e controle, explicados anteriormente.
Figura 6 - Poder e Controle 
Fonte: Acervo dos autores (2025).
Trata-se de um look composto por uma calça reta de crepe alfaiataria premium e uma blusa de mangas longas com gola alta (Michel Foucault usou, por diversas vezes, camisas com este tipo de gola), feita de malha suplex com alta elasticidade e aderência ao corpo, com a presença de amarras e fivelas. Além disso, um corset de couro sintético estruturado com barbatanas, com aplicações de correntes artesanais de macramê com mosquetões metálicos, afixadas à peça por meio de ilhoses.
Figura 7 - Poder e Controle 
Fonte: Acervo dos autores (2025).
A escolha de utilizar tecidos opacos no início da coleção, com acabamento fosco e caimento justo ao corpo, foi estratégica para simbolizar a rigidez e a invisibilidade das normas que atravessam os indivíduos nas sociedades, remetendo à ideia de vigilância constante e internalização das regras sociais.
A predominância do preto e cinza, bem como a ausência de brilho excessivo, reforça o caráter opaco e repressivo dessas estruturas institucionais, que atuam para moldar comportamentos de forma quase imperceptível. A modelagem ajustada, que envolve e cobre a maior parte do corpo, estabelece uma relação íntima entre sujeito e poder, evidenciando como o controle se dá de maneira invasiva e corporal.
Elementos como o corset marcando a cintura, estruturado com barbatanas, as amarras e fivelas metálicas aplicadas nas duas mangas e as correntes artesanais de macramê — todas conectadas ao corset por mosquetões e ilhoses metálicos — não são apenas detalhes estéticos, mas funcionam como símbolos concretos de aprisionamento e restrição física.
Note-se, ainda, que os elementos de design presentes na composição desse look (e nos demais looks que compõem a coleção) foram concebidos pelo designer no sentido de serem removíveis, o que confere ao sujeito que veste as roupas a possibilidade de escolha e de agência sobre a própria aparência, decidindo quais elementos vestirá.
Assim, pode-se optar pelo uso ou não de determinadas partes — seja o corset, com ou sem as correntes de macramê, ou ainda as amarras, afiveladas ou não —, compondo, de forma singular, as diversas maneiras de vestir, performar e habitar o corpo.
Essa característica aponta para uma proposta estética e conceitual que ultrapassa a dimensão puramente funcional da roupa e se inscreve em um campo de experimentação subjetiva, aspectos valorizados pelo público-alvo da marca. O vestuário, nesse contexto, deixa de ser apenas um dispositivo de cobertura ou adorno e se torna um espaço de negociação simbólica entre o corpo e as normas que o atravessam, entre o vestir e o poder que o modela.
A possibilidade de desmontar, ajustar e recompor os elementos dos looks instaura um jogo de liberdade e de controle, de exposição e de contenção, que dialoga diretamente com a noção foucaultiana de poder enquanto rede capilar e produtiva — uma força que não apenas reprime, mas fabrica corpos, comportamentos, bem como identidades.
Figura 8 - Panoptismo/Discplina

Fonte: Acervo dos autores (2025).
O segundo look (figura 8) dá continuidade à narrativa foucaultiana e integra a segunda família conceitual, cujo tema central é a disciplina e o panoptismo — a vigilância constante e invisível que se exerce sobre os sujeitos, seus corpos e suas ações, uma vez que o panóptico é uma arquitetura de poder que promove o auto-monitoramento por meio da sensação de estar sempre sendo observado.
Figura 9 - Panoptismo e Disciplina

Fonte: Acervo dos autores (2025).
Os olhos presentes nesse look, que literalmente “vigiam” o corpo em múltiplas direções, inclusive na parte posterior da peça, nos bolsos e pernas — ainda que não estejam visíveis nas figuras 8 e 9 — foram produzidos artesanalmente a partir da sobreposição de diversos tecidos, e fazem alusão à internalização do olhar disciplinar, um mecanismo de controle que ultrapassa o visível e invade a subjetividade do sujeito.
A escolha intencional de posicionar olhos nas partes frontal e posterior do look reforça a sensação de uma vigilância integral e inescapável, simbolizando o panóptico como uma estrutura que torna os indivíduos conscientes de sua exposição constante, em todas as direções. Além disso, as írises dos olhos vermelhas são escolhas simbólicas para aludir às noções de perigo e risco.
Esse recurso visual simboliza o fato de que a vigilância não precisa estar presente fisicamente para exercer seu efeito sobre os sujeitos; basta a crença na possibilidade de ser observado para moldar comportamentos e regular corpos.
Figura 10 - Subjetividade e Resistência

Fonte: Acervo dos autores (2025).
Os looks apresentados nessas imagens (figuras 10 e 11) pertencem à terceira família conceitual da coleção, que se dedica a explorar os conceitos de subjetividade e resistência dos sujeitos diante das estruturas de poder e controle.
Na execução desses looks, de modo geral, foram utilizados de forma predominante tule com glitter vermelho (comercialmente referido como “tule explosão”) e um tecido de malha (liganete) para produzir a parte interna das roupas, no sentido de garantir conforto e vestibilidade, além de crepe alfaiataria premium para produzir a parte central da camisa que veste o modelo.
Figura 11 - Subjetividade e Resistência

Fonte: Acervo dos autores (2025).
Nessa etapa, a escolha dos tecidos ganha um papel fundamental para a expressão simbólica da temática: optou-se por materiais vermelhos, com brilho e transparência, que revelam partes do corpo, configurando um contraste intencional com as texturas opacas e restritivas das fases anteriores.
Essa exposição do corpo, através da transparência e do movimento proporcionado pelos tecidos, remete à afirmação da subjetividade, um gesto de insurgência e autonomia que se coloca em oposição aos mecanismos de controle disciplinar. O vermelho intenso e intencionalmente brilhoso simboliza tanto a resistência quanto a coragem dos sujeitos que desafiam a normatividade.
Figura 12 - Verdade e Parresía

Fonte: Acervo dos autores (2025).
Os dois últimos looks apresentados (figuras 12 e 13) pertencem à quarta família conceitual da coleção, cujo eixo temático central é a verdade e a parresía — termo que remete à coragem ética e política de dizer a verdade, mesmo diante de riscos e desafios.
Figura 13 - Verdade e Parresía

Fonte: Acervo dos autores (2025).
Como é possível observar na imagem acima, a modelo veste um cropped confeccionado em malha de rede, cuja transparência e textura dialogam com a proposta conceitual da coleção. Complementam o visual três mangas soltas — duas em tule vermelho com brilho e uma elaborada a partir do mesmo tecido telado do cropped —, compondo um jogo de sobreposições e contrastes materiais.
Na parte inferior, a peça de vestuário adota uma forma híbrida que transita entre calça, saia e short, evocando múltiplas identidades e possibilidades de interpretação, em consonância com a ideia de fluidez e desconstrução das categorias tradicionais do vestir.
Figura 14 - Verdade e Parresía

Fonte: Acervo dos autores (2025).
O outro modelo, por sua vez, veste um cropped de tela acompanhado de uma gola-manga (semelhante a uma gola mandarim) e um short-saia com ilhoses metálicos estéticos, peças que desconstroem os padrões tradicionais de masculinidade e vestuário, propondo uma fluidez que ressignifica os limites entre os gêneros.
Ao romper com a lógica binária que historicamente organiza o vestuário, a coleção propõe novas possibilidades de experimentação formal e subjetiva, permitindo que os corpos se apresentem de maneira plural, fluida e não subordinada a identidades de gênero pré-definidas.
As peças, ao não se classificarem, de forma intencional, como “femininas” ou “masculinas”, operam como dispositivos de intervenção crítica, evidenciando como o vestir funciona simultaneamente como expressão estética, instrumento de poder e tecnologia de subjetivação.
Essa abordagem conceitual destaca o potencial da moda como campo de experimentação política e social, no qual normas culturais e de gênero podem ser tensionadas, questionadas e reconfiguradas, transformando o vestuário em um espaço de invenção e negociação de identidades.
Os tecidos mais esvoaçantes da última família conceitual predominantemente, (cetim bucol branco), com brilho acetinado e as modelagens que valorizam o corpo, expondo e ao mesmo tempo libertando-o, refletem a busca pela reconstrução dos sujeitos enquanto agentes autênticos e plurais.
Essa fase da coleção enfatiza a liberdade de expressão, a autenticidade e o exercício da parresía como práticas fundamentais para a afirmação do eu em sua diversidade e complexidade.
Assim, os looks funcionam como um manifesto visual que desafia as normas estabelecidas e promove a emancipação dos corpos e das identidades, configurando a moda como um espaço de resistência e afirmação de si.
De modo geral, as peças de vestuário presentes na coleção da marca MRCL partem de formas tradicionais e reconhecíveis no repertório da moda cotidiana — como calças, blusas, corsets, croppeds, shorts, vestidos e camisas.
No entanto, o que transforma essas peças aparentemente comuns em dispositivos expressivos é o conjunto de técnicas empregadas no processo criativo, aliado à escolha de materiais e à construção conceitual prévia.
Nesse processo, a técnica desempenhou papel fundamental como mediação entre o pensamento teórico e a prática criativa. Conforme aponta Vilém Flusser, a “técnica altera o objeto, o objeto alterado altera a técnica, a técnica alterada altera o sujeito, e o sujeito alterado altera a técnica” (Flusser, 1985).
Essa perspectiva aponta para o caráter dinâmico e transformador do fazer técnico, que, ao ser reconfigurado pela prática artística e política da moda, reconfigura também as formas de existência e percepção do mundo.
Por sua vez, a inserção de questões sociopolíticas no campo do vestuário amplia seu escopo interpretativo e corrobora com a ideia de que é preciso considerar a moda em uma dimensão “mais ampla, em que, inclusive, o caráter distintivo é tecido: sua dimensão simbólica” (Cidreira, 1995, p. 61).
É nessa esfera simbólica que a coleção “Re(existências): revirando as tramas do poder” se inscreve, propondo deslocamentos sensíveis que operam tanto na superfície do corpo quanto nos discursos que o atravessam.
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo apresentou o percurso criativo, teórico e metodológico que orientou o desenvolvimento da coleção “Re(existências): revirando as tramas do poder”, assinada pelo designer de moda brasileiro Marcelino Gomes dos Santos, no contexto de finalização de sua graduação em Design de Moda, no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte – IFRN.
A referida proposta tem como principal fonte de inspiração a obra do filósofo francês Michel Foucault, que, em 2026, completaria cem anos de nascimento e cujo legado continua a exercer profunda influência sobre o pensamento contemporâneo em diversas áreas (inclusive, na moda).
A partir do levantamento bibliográfico e da inspiração temática nos conceitos foucaultianos, foi possível estabelecer um diálogo produtivo entre filosofia e moda, evidenciando que a técnica na criação de vestuário vai muito além do aspecto funcional, configurando-se como dispositivo simbólico e político.
Ao seguir as orientações metodológicas de Doris Treptow no planejamento da coleção, as etapas criativas foram estruturadas de modo a permitir que as ideias de poder e controle, panopstismo e disciplina, subjetividade e resistência, verdade e parresía se materializassem em formas, cores, materiais e modelagens que expressam subjetividades e posicionamentos sociais.
O desenvolvimento das quatro famílias conceituais permitiu construir uma narrativa visual e simbólica, no seio de uma marca de moda autoral voltada para a comunidade LGBTQIAPN+.
Assim, esse estudo reforça a importância de pensar a moda como prática crítica, onde a técnica é instrumento de criação e transformação. A coleção apresentada nesse trabalho não veste apenas os corpos dos sujeitos, mas enuncia discursos e modos de existir, revelando o potencial da moda para questionar e reinventar as tramas de poder que atravessam nossas vidas cotidianas.
Este trabalho abre caminho para futuras investigações que aprofundem o cruzamento entre moda e filosofia, especialmente no campo da moda autoral com viés político.
Nesse sentido, o legado de Michel Foucault revela-se fundamental para o tempo presente, na medida em que suas reflexões sobre poder, corpo, liberdade e resistência continuam a provocar abalos significativos — e produtivos — no universo da moda, inspirando práticas criativas que questionam normas, desconstroem hierarquias e reinventam formas de existência e expressão.
CRÉDITO DE AUTORIA
Concepção e elaboração do manuscrito: M. G. dos Santos
Coleta de dados: M. G. dos Santos, A. G. Freire
Análise de dados: M. G. dos Santos, A. G. Freire
Discussão dos resultados: M. G. dos Santos, D. M. de Albuquerque Junior
Revisão e aprovação: M. G. dos Santos, D. M. de Albuquerque Junior
Notas de fim de texto
¹ Paul-Michel Foucault nasceu em Poitiers, em ١٥ de outubro de ١٩٢٦, e faleceu em Paris, em ٢٥ de junho de ١٩٨٤. Este artigo constitui, também, uma homenagem ao seu vasto e significativo legado intelectual, cujos desdobramentos continuam a ecoar no presente. Publicado em ٢٠٢٦, ano em que se celebra o centenário de nascimento do filósofo, o texto tem como propósito reafirmar a atualidade e a potência do pensamento foucaultiano em diferentes domínios do saber, ao mesmo tempo em que procura conduzir suas reflexões, de maneira propositiva, ao território da moda.
² Vale destacar que, embora a obra de Michel Foucault já tenha inspirado reflexões e discussões no âmbito da moda, o desenvolvimento dessa coleção se singulariza por ser, possivelmente, a primeira coleção de moda autoral (sobretudo, brasileira) a tomar como inspiração temática a trajetória intelectual e a célebre obra do filósofo francês. Não se pretende, contudo, afirmar que esta seja a melhor ou a mais completa tradução de seu pensamento em linguagem vestimentar, tampouco reivindicar que a coleção tenha feito jus à complexidade de seu legado. Antes, trata-se de uma tentativa sensível de homenagear e honrar um pensador que permanece fundamental para compreender o nosso tempo, cujas reflexões seguem provocando abalos produtivos e necessários no campo da moda e além dele.
REFERÊNCIAS
CIDREIRA, Renata Pitombo. A moda enquanto manifestação simbólica. In: O sentido e a época. Salvador: Edufba, 1995.
TREPTOW, Doris. Inventando moda: planejamento de coleção. 5. ed. São Paulo: Edição da Autora, 2013.
FLUSSER, Vilém. 1985. Filosofia da caixa preta. São Paulo: Hucitec, ١٩٨٥.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 1995.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 9. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1997.
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes, ١٩٩٦.
FOUCAULT, Michel. O governo de si e dos outros. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.
From sewing techniques to technologies of the self: inventing fashion with Michel Foucault
ABSTRACT
This work investigates the relationships between fashion, technique, and philosophical thought, based on the development of an authorial collection composed of twenty looks, divided into four conceptual families, inspired by the work of Michel Foucault. The objective of this article is to present the development of this collection and to reflect on how fashion, as a language and technical practice, can incorporate theoretical and conceptual discourses, in this case, regarding Foucault’s concepts of power, control, panopticism, discipline, subjectivity, resistance, truth, and parrhesia. This is possibly the first authorial fashion collection to use Michel Foucault’s work as a conceptual and aesthetic axis, proposing an unprecedented dialogue between Foucauldian thought and creative processes in the fashion field. The methodology adopted follows the principles proposed by Doris Treptow for the development of fashion collections, combining trend research, target audience definition, color palette, material selection, and garment construction. The analyses were conducted using photographs of the looks created, allowing us to observe how Foucauldian concepts were translated into form, texture, and modeling using fashion techniques. The results indicate that fashion can act as a critical and expressive medium, capable of destabilizing social conventions, fostering the emergence of new subjectivities, and engendering aesthetic experiences committed to thought. Thus, the study contributes to expanding the possible connections between theory and practice, inserting fashion creation into the realm of conceptual elaborations and debates about the techniques that constitute it.
Keywords: Fashion; Technique; Michel Foucault
Das técnicas de costura às técnicas de si: inventando moda com Michel Foucault
RESUMO
Este trabalho investiga as relações entre moda, técnica e pensamento filosófico, a partir da elaboração de uma coleção autoral composta por vinte looks, dividida em quatro famílias conceituais, inspiradas na obra de Michel Foucault. O objetivo deste artigo é o de apresentar o desenvolvimento da referida coleção e refletir sobre como a moda, enquanto linguagem e prática técnica, pode incorporar discursos teóricos e conceituais, neste caso, no que tange aos conceitos foucaultianos de poder, controle, panoptismo, disciplina, subjetividade, resistência, verdade e parresía. Trata-se, possivelmente, da primeira coleção de moda autoral a tomar a obra de Michel Foucault como eixo conceitual e estético, propondo um diálogo inédito entre o pensamento foucaultiano e os processos criativos no campo da moda. A metodologia adotada segue os princípios propostos por Doris Treptow para o desenvolvimento de coleções de moda, articulando pesquisa de tendências, definição de público-alvo, cartela de cores, escolha de materiais e construção das roupas. As análises foram realizadas a partir das fotografias dos looks confeccionados, permitindo observar como os conceitos foucaultianos foram traduzidos em forma, textura e modelagem a partir das técnicas da moda. Os resultados apontam que a moda pode atuar como meio crítico e expressivo, capaz de desestabilizar convenções sociais, fomentar a emergência de novas subjetividades e engendrar experiências estéticas comprometidas com o pensamento. Dessa forma, o estudo contribui para expandir as articulações possíveis entre teoria e prática, inserindo a criação de moda no campo das elaborações conceituais e nos debates sobre as técnicas que a constituem.
Palavras-chave: Moda; Técnica; Michel Foucault
De las técnicas de costura a las tecnologías del yo: inventando la moda con Michel Foucault
RESUMEN
Este trabajo investiga las relaciones entre moda, técnica y pensamiento filosófico, a partir del desarrollo de una colección de autor compuesta por veinte looks, divididos en cuatro familias conceptuales, inspirada en la obra de Michel Foucault. El objetivo de este artículo es presentar el desarrollo de esta colección y reflexionar sobre cómo la moda, como lenguaje y práctica técnica, puede incorporar discursos teóricos y conceptuales, en este caso, sobre los conceptos foucaultianos de poder, control, panoptismo, disciplina, subjetividad, resistencia, verdad y parresía. Esta es posiblemente la primera colección de moda de autor que utiliza la obra de Michel Foucault como eje conceptual y estético, proponiendo un diálogo sin precedentes entre el pensamiento foucaultiano y los procesos creativos en el ámbito de la moda. La metodología adoptada sigue los principios propuestos por Doris Treptow para el desarrollo de colecciones de moda, combinando la investigación de tendencias, la definición del público objetivo, la paleta de colores, la selección de materiales y la confección de las prendas. Los análisis se realizaron mediante fotografías de los looks creados, lo que permitió observar cómo los conceptos foucaultianos se tradujeron en forma, textura y modelado mediante técnicas de moda. Los resultados indican que la moda puede actuar como un medio crítico y expresivo, capaz de desestabilizar las convenciones sociales, fomentar el surgimiento de nuevas subjetividades y generar experiencias estéticas comprometidas con el pensamiento. Así, el estudio contribuye a ampliar las posibles conexiones entre la teoría y la práctica, insertando la creación de moda en el ámbito de las elaboraciones conceptuales y los debates sobre las técnicas que la constituyen.
Palabras-clave: Moda; Técnica; Michel Foucault
1 INTRODUCTION
In the world of fashion, we weave ideas with invisible threads before the fabric touches the skin. In the technique of sewing, creation begins before the needle — it is born in thought, in gesture, in the symbolic world that precedes matter. Technique, in this context, is not just a functional instrument; it is also language, translation, and expressive power.
It is through it that ideas are embodied, discourses take shape, and concepts become wearable. Fashion, traversed by technologies of making and imagining, reveals itself as a system where body, culture, and senses are mutually interwoven.
From the perspective of this fruitful discussion, this article starts from the premise that all fashion creation is, at the same time, technique and weaving of narratives and meanings.
Fashion techniques, far from being neutral, carry with them stories and intentions. When consciously activated, they become critical tools — capable of challenging norms, shifting narratives, and producing subjectivities.
It was within this technical-creative horizon that, between the second half of 2024 and the beginning of 2025, guided by the theme “Dystopias”, a Brazilian designer conceived an original fashion collection inspired by the work of the French philosopher Michel Foucault¹, whose legacy revolutionized his way of thinking about the world — including fashion — from the first reading of his writings.
The collection was developed at the Federal Institute of Education, Science and Technology of Rio Grande do Norte (IFRN), by a graduating student of the Fashion Design Technology course, namely, Marcelino Gomes dos Santos; under the guidance of Professor Aline Gabriel Freire.
As one of the prerequisites for completing the course, the students at the Federal Institute had to create a fashion collection whose theme was related to the general theme proposed as a creative challenge in that academic period. The collection developed by the designer was entitled “Re(existences): turning the plots of power inside out”, composed of 20 looks, divided into 4 conceptual families, with 5 looks each.
Based on the concepts of power, control, panopticism, discipline, subjectivity, resistance, truth, and parrhesia, present in the revolutionary works of Michel Foucault, this article sought to construct, using the resources of fashion language, a wearable narrative that would challenge the modes of existence of subjects in contexts of surveillance and domination.
In this sense, the objective of this article is to present the technical and conceptual development of fashion collection and based on it, to reflect on the creative process and the materialization of Michel Foucault’s historical-philosophical concepts through the techniques that enable the construction of clothing in the fashion world.
It is, therefore, a matter of understanding how technical, aesthetic, and symbolic creations is articulated, producing clothes that not only cover the body but also enunciate subjects, ideas, meanings, aspects that we discuss below.
2 THE TECHNIQUES OF FASHION AND THE TECHNIQUES OF SELF
Michel Foucault, when considering technology in the field of philosophy, shifts the focus from the tool to the power devices that operate on subjects. In his writings, the philosopher speaks to us about the techniques of the self, the techniques of surveillance, discipline, and control, which shape ways of life and subjectivities.
In fashion, technique is not limited to the practical domain of manual or mechanical work — sewing, cutting, modeling — but involves a knowledge that organizes the body, shapes behaviors, and expresses ways of existing.
Following these reflections, we explain below the Foucauldian concepts that inspired the creative process of fashion collection. The intention here is not to delve into theoretical discussions, but to present a synthesis of the main concepts mobilized, to offer a general understanding of the ideas that guided the development of the proposal.
2.1 In the style of Michel Foucault: a centennial legacy
The French philosopher Michel Foucault is one of the most important thinkers of the 20th century, as well as one of the most influential figures in contemporary thought, having impacted various fields of knowledge, such as philosophy, sociology, history, psychology, cultural studies, gender studies, among others².
In the following section, we present the conceptual families that make up the fashion collection, structured from notions present in Foucault’s works and reflections. They offer a panoramic view of the philosophical concepts that guided the creative process and served as the foundation for the development of looks.
2.1.1 Family 1: Power and Control
Among the philosopher’s most famous concepts are the notions of power and control. From a Foucauldian perspective, power is not simply a relationship of repressive domination, but a diffuse network of relationships that permeates all of society and produces effects on the lives of individuals.
According to Foucault (1997, p. 88), “power is everywhere, not because it covers everything, but because it comes from everywhere”. This understanding implies that social control does not occur only through traditional institutions, but through a set of practices and knowledge that shape behaviors and bodies.
The notion of control, in Foucault’s studies, is deeply linked to how power operates on bodies and conduct. Control is not exercised only through repression or explicit coercion, but through subtle and continuous mechanisms of surveillance, normalization, and discipline. As the author states, “the individual is undoubtedly the fictitious atom of an ideological ‘representation’ of society, but he is also a reality fabricated by this technology of power that calls him to exist as such” (Foucault, 1995, p. 252).
Thus, modern control acts in the constitution of subjects, organizing their actions and desires based on specialized knowledge and technical devices.
2.1.2 Family 2: Panopticism and Discipline
Foucault’s concept of panopticism is fundamental to understanding modern mechanisms of surveillance and social control. Inspired by the architecture of the prison idealized by Jeremy Bentham, the panopticon symbolizes a form of internal and constant surveillance, in which individuals feel observed even when they are not actually being watched.
Foucault (1995, p. 200) explains that panopticism functions as “a power that is exercised automatically, since it does not require the real presence of the one who watches for control to be established”. Thus, internalized surveillance promotes the self-correction of subjects and their voluntary submission to the prevailing norms.
Furthermore, panopticism is linked to the concept of discipline, understood by Foucault as a political technology of the body that seeks to produce useful and docile subjects. As the author states, “discipline manufactures submissive and trained bodies, ‘docile’ bodies” (Foucault, 1995, p. 164).
Through a series of techniques and regulations, disciplinary power acts diffusely, shaping gestures, behaviors, and ways of being, so that individuals internalize the gaze of surveillance and begin to monitor themselves.
2.1.3 Family 3: Subjectivity and Resistance
Subjectivity, for Foucault, is produced by the power relations that traverse bodies and minds. Power not only limits but also constitutes the subject, which is formed in the intertwining of knowledge, discourses, and social practices (FOUCAULT, 1996, p. 105). However, where there is power, there is also resistance.
Resistance is not an external act or separate from power but emerges within power relations as a counter-hegemonic force that enables the transformation and negotiation of identities. Foucault (1996, p. 134) emphasizes that “resistance is multiple, it is everywhere and is not necessarily visible or organized but can arise in subtle and everyday ways”.
In Foucault, subjectivity is a continuous process, shaped by the forces of power and resistance. The subject is not given but produced in the practices and discourses that traverse it. It is in this interplay that it finds possibilities to reinvent itself.
2.1.4 Family 4: Truth and Parrhesia
Parrhesia, a word of Greek origin meaning “to speak the truth with courage”, is central to Foucault’s reflection on the relationship between truth, power, and ethics. For Foucault (2001, p. 55), parrhesia implies “a risk, because whoever speaks the truth exposes themselves to dangers and criticism, assuming personal responsibility”.
The practice of parrhesia is an act of courage and a form of resistance to the power that dominates official discourse and established truths. In this sense, truth is not an absolute given, but an effect of power relations and discursive struggles, where parrhesia acts as a form of contestation and ethical transformation.
As can be seen through the reading of Foucault’s concepts, even in dystopian contexts, marked by regimes of control, surveillance, and normalization of bodies, subjects are still able to exercise their subjectivity and establish forms of resistance, expressing their truth.
Next, we discuss the theoretical and methodological approach that guided the development of fashion collection, as well as the process of materializing Foucauldian concepts in clothing items.
3 METHODOLOGY
For the development of fashion collection, we began with a bibliographic survey of the main works of Michel Foucault, with the aim of identifying fundamental concepts of his philosophy that could dialogue with the guiding theme of the collections, presented in the previous section.
Figure 1 - Thematic Inspiration Panel

Source: Researcher’s collection (2025).
Based on this thematic inspiration (Figure 1), we followed the theoretical and methodological guidelines proposed by Doris Treptow (2013) in her book Inventing Fashion: Collection Planning, which structures the creative process into systematized and interdependent stages.
According to Treptow, the development of a fashion collection involves important steps, such as defining the theme, researching visual and conceptual references, analyzing trends, building inspiration boards, choosing materials, developing a color palette, creating sketches and patterns, as well as making prototypes (Treptow, 2013).
In this way, the development of the fashion collection presented here fully followed the guidelines proposed by Treptow, as we understand that these guidelines are fundamental to the work of any fashion designer. The author’s contributions were essential to guide and systematize the creative process explained in this article.
Figure 2 - Experimental Brand – MRCL

Source: Researcher’s collection (2025).
It is worth highlighting that the collection was created from the perspective of an experimental fashion brand (namely, MRCL) whose target audience (figure 3) is people from the LGBTQIAPN+ community, especially those who identify with the effervescence of nightlife, electronic parties, music, art, and pop culture in general.
Figure 3 - Target Audience of the MRCL brand
Source: Researcher’s collection (2025).
This is a consumer audience that sees fashion not only as a form of aesthetic expression, but also as a tool for identity affirmation. And, in addition, it values conceptual and versatile productions, aligned with contemporary fashion trends.
After conducting research on the theme and target audience, 20 hand-drawn looks were created, organized into four conceptual families, developed from Foucault’s philosophical trajectory.
The first family addresses the dynamics of power and control, exploring how bodies are shaped by normative structures. The second family deals with the surveillance and discipline of subjects, inspired by the concepts of panopticism and subtle forms of social regulation and control.
The third family expresses subjectivity and resistance, valuing gestures of rupture, insurgency, and self-reinvention. Finally, the fourth family is dedicated to the themes of truth and parrhesia, highlighting the courageous act of telling the truth in contexts of oppression and risk, as an ethical and political practice.
Figure 4 - Color Palette

Source: Researcher’s collection (2025).
Another important element in the construction of the clothes was the color palette (figure 4) composed of black, gray, red, and white.
It was designed to visually translate Foucauldian concepts and help in the construction of the narrative in the domain of fashion, since colors are not only aesthetic elements, but contribute to the elaboration of the narrative and the production of meaning.
The colors black and gray, predominant in the first ten looks of the collection, allude to the devices of power and control that operate on subjects in societies. Red, in turn, symbolizes subjectivity and resistance — moments in which the subject challenges and strains the forces of power.
White, in turn, refers to the courage of truth, to exposure and the risk of parrhesiastic discourse, when the subject completely breaks with the shackles of control and expresses their own truth.
Another fundamental stage of the research involved the choice of materials (figure 5) used in the collection.
Figure 5 – Materials/Trimmings


Source: Researcher’s collection (2025).
Notably, this choice was not made randomly, but as a strategic technical decision, essential to materialize Foucauldian concepts into wearable conceptual clothing, aimed at a specific target audience.
Below, we present photographs of the 6 looks from the collection that were made, a description of the materials chosen in the creation of the clothes, and discussions of the technical, aesthetic, and symbolic uses that we made during the planning and development process of the collection.
4 RESULTS AND DISCUSSION
Of the twenty looks that make up this project, six were made, moving from the idealization phase to the dimension of materiality. These pieces gained shape, texture, volume, and drape, making tangible the Foucauldian concepts that guided the creative process.
Although all twenty looks were fully developed — with detailed sketches and technical specifications — the regulations of the Fashion Design Technology course at IFRN stipulated, as an evaluation requirement for its completion, the materialization of only six. Therefore, we chose to make representative pieces from all conceptual families: one look from each group and two transitional looks.
The look shown in figures 6 and 7 is part of the first conceptual family of the collection, which is based on the Foucauldian concepts of power and control, explained earlier.
Figure 6 - Power and Control 
Source: Researcher’s collection (2025).
This look consists of straight-leg trousers in premium tailored crepe and a long-sleeved, high-necked blouse (Michel Foucault wore shirts with this type of collar on several occasions), made of highly elastic, body-hugging suplex knit fabric, featuring ties and buckles. Additionally, a structured synthetic leather corset with boning is included, adorned with handcrafted macrame chains with metal clasps, attached to the garment via eyelets.
Figure 7 - Power and Control
Source: Researcher’s collection (2025).
The choice to use opaque fabrics at the beginning of the collection, with a matte finish and a close fit to the body, was strategic to symbolize the rigidity and invisibility of the norms that permeate individuals in societies, alluding to the idea of constant surveillance and internalization of social rules.
The predominance of black and gray, as well as the absence of excessive shine, reinforces the opaque and repressive character of these institutional structures, which act to shape behaviors in an almost imperceptible way. The fitted design, which envelops and covers most of the body, establishes an intimate relationship between subject and power, highlighting how control is exercised in an invasive and bodily manner.
Elements such as the corset marking the waist, structured with boning, the metal ties and buckles applied to the two sleeves, and the handcrafted macrame chains — all connected to the corset by metal carabiners and eyelets — are not merely aesthetic details, but function as concrete symbols of imprisonment and physical restriction.
It should also be noted that the design elements present in the composition of this look (and in the other looks that make up the collection) were conceived by the designer to be removable, which gives the wearer the possibility of choice and agency over their own appearance, deciding which elements to wear.
Thus, one can choose to use or not use certain parts — be it the corset, with or without the macrame chains, or even the ties, buckled or not — uniquely composing the various ways of dressing, performing, and inhabiting the body.
This characteristic points to an aesthetic and conceptual proposal that goes beyond the purely functional dimension of clothing and is inscribed in a field of subjective experimentation, aspects valued by the brand’s target audience.
Clothing, in this context, ceases to be merely a device for covering or adornment and becomes a space for symbolic negotiation between the body and the norms that traverse it, between dressing and the power that shapes it.
The possibility of disassembling, adjusting, and recomposing the elements of the looks establishes a game of freedom and control, of exposure and containment, which directly dialogues with the Foucauldian notion of power as a capillary and productive network — a force that not only represses but also manufactures bodies, behaviors, and identities.
Figure 8 - Panopticism and Discipline 
Source: Researcher’s collection (2025).
The second look (figure 8) continues the Foucauldian narrative and integrates the second conceptual family, whose central theme is discipline and panopticism — the constant and invisible surveillance exercised over subjects, their bodies, and their actions, since the panopticon is an architecture of power that promotes self-monitoring through the sensation of always being observed.
Figure 9 - Panopticism and Discipline

Source: Researcher’s collection (2025).
The eyes in this look, which literally “watch” the body from multiple directions, including the back of the garment, the pockets, and the legs — even though they are not visible in figures 8 and 9 — were handcrafted from layered fabrics and allude to the internalization of the disciplinary gaze, a control mechanism that goes beyond the visible and invades the subject’s subjectivity.
The intentional choice to position eyes on the front and back of the look reinforces the feeling of complete and inescapable surveillance, symbolizing the panopticon as a structure that makes individuals aware of their constant exposure in all directions. In addition, the red irises of the eyes are symbolic choices to allude to notions of danger and risk.
This visual device symbolizes the fact that surveillance does not need to be physically present to exert its effect on subjects; the belief in the possibility of being observed is enough to shape behaviors and regulate bodies.
Figure 10 - Subjectivity and Resistance

Source: Researcher’s collection (2025).
The looks presented in these images (figures 10 and 11) belong to the third conceptual family of the collection, which is dedicated to exploring the concepts of subjectivity and resistance of individuals in the face of power and control structures.
In the execution of these looks, in general, tulle with red glitter (commercially referred to as “explosion tulle”) and a knit fabric (liganete) were predominantly used to produce the inner part of the garments, in order to guarantee comfort and wearability, in addition to premium tailoring crepe to produce the central part of the shirt worn by the model.
Figure 11 - Subjectivity and Resistance

Source: Researcher’s collection (2025).
In this stage, the choice of fabrics plays a fundamental role in the symbolic expression of the theme: we opted for red materials, with shine and transparency, which reveal parts of the body, creating an intentional contrast with the opaque and restrictive textures of the previous phases.
This exposure of the body, through the transparency and movement provided by the fabrics, refers to the affirmation of subjectivity, a gesture of insurgency and autonomy that stands in opposition to the mechanisms of disciplinary control. The intense and intentionally shiny red symbolizes both the resistance and the courage of the subjects who challenge normativity.
Figure 12 - Truth and Parrhesia

Source: Researcher’s collection (2025).
The last two looks presented (figures 12 and 13) belong to the fourth conceptual family of the collection, whose central thematic axis is truth and parrhesia — a term that refers to the ethical and political courage to speak the truth, even in the face of risks and challenges.
Figure 13 - Truth and Parrhesia

Source: Researcher’s collection (2025).
As can be seen in the image above, the model is wearing a cropped top made of mesh fabric, whose transparency and texture dialogue with the conceptual proposal of the collection. Complementing the look are three loose sleeves — two in red tulle with glitter and one made from the same mesh fabric as the cropped top — creating a play of overlays and material contrasts.
At the bottom, the garment adopts a hybrid form that transitions between pants, skirt and shorts, evoking multiple identities and possibilities of interpretation, in line with the idea of fluidity and deconstruction of traditional clothing categories.
Figure 14 - Truth and Parrhesia

Source: Researcher’s collection (2025).
The other model, in turn, wears a cropped mesh top accompanied by a collar-sleeve (like a mandarin collar) and a skort with aesthetic metal eyelets, pieces that deconstruct traditional patterns of masculinity and clothing, proposing a fluidity that redefines the boundaries between genders.
By breaking with the binary logic that historically organizes clothing, the collection proposes new possibilities for formal and subjective experimentation, allowing bodies to present themselves in a plural, fluid way, not subordinated to pre-defined gender identities.
The pieces, by not intentionally classifying themselves as “feminine” or “masculine”, operate as devices for critical intervention, highlighting how clothing functions simultaneously as an aesthetic expression, an instrument of power, and a technology of subjectivation.
This conceptual approach highlights the potential of fashion as a field of political and social experimentation, in which cultural and gender norms can be challenged, questioned, and reconfigured, transforming clothing into a space for invention and negotiation of identities.
The most flowing fabrics from the last conceptual family (predominantly white bucol satin), with a satin sheen, and the designs that enhance the body, exposing and simultaneously liberating it, reflect the search for the reconstruction of subjects as authentic and plural agents.
This phase of the collection emphasizes freedom of expression, authenticity, and the exercise of parrhesia as fundamental practices for the affirmation of the self in its diversity and complexity.
Thus, the looks function as a visual manifesto that challenges established norms and promotes the emancipation of bodies and identities, configuring fashion as a space of resistance and self-affirmation.
In general, the clothing items in the MRCL brand collection are based on traditional and recognizable forms in the repertoire of everyday fashion — such as pants, blouses, corsets, cropped tops, shorts, dresses, and shirts.
However, what transforms these seemingly common pieces into expressive devices is the set of techniques employed in the creative process, combined with the choice of materials and the prior conceptual construction.
In this process, technique played a fundamental role as a mediation between theoretical thought and creative practice. As Vilém Flusser points out, “technique alters the object, the altered object alters the technique, the altered technique alters the subject, and the altered subject alters the technique” (Flusser, 1985).
This perspective points to the dynamic and transformative character of technical practice, which, when reconfigured by the artistic and political practice of fashion, also reconfigures the forms of existence and perception of the world.
In turn, the inclusion of sociopolitical issues in the field of clothing broadens its interpretative scope and corroborates the idea that we need to consider fashion in a “broader dimension, in which, even, the distinctive character is woven: its symbolic dimension” (Cidreira, 1995, p. 61).
It is within this symbolic sphere that the collection “Re(existences): turning the threads of power inside out” is inscribed, proposing sensitive shifts that operate both on the surface of the body and in the discourses that traverse it.
5 FINAL CONSIDERATIONS
This article presented the creative, theoretical, and methodological path that guided the development of the collection “Re(existences): turning the threads of power inside out”, designed by Brazilian fashion designer Marcelino Gomes dos Santos, in the context of completing his undergraduate degree in Fashion Design at the Federal Institute of Education, Science and Technology of Rio Grande do Norte – IFRN.
The proposal is primarily inspired by the work of the French philosopher Michel Foucault, who would have turned one hundred years old in 2026 and whose legacy continues to exert a profound influence on contemporary thought in various areas (including fashion).
Based on the bibliographic survey and thematic inspiration from Foucauldian concepts, it was possible to establish a productive dialogue between philosophy and fashion, highlighting that technique in clothing creation goes far beyond the functional aspect, configuring itself as a symbolic and political device.
Following Doris Treptow’s methodological guidelines in planning the collection, the creative stages were structured to allow the ideas of power and control, panopticism and discipline, subjectivity and resistance, truth and parrhesia to materialize in forms, colors, materials, and designs that express subjectivities and social positions.
The development of the four conceptual families allowed for the construction of a visual and symbolic narrative within an authorial fashion brand aimed at the LGBTQIAPN+ community.
Thus, this study reinforces the importance of thinking about fashion as a critical practice, where technique is an instrument of creation and transformation. The collection presented in this work not only dresses the bodies of the subjects but also enunciates discourses and ways of existing, revealing the potential of fashion to question and reinvent the power dynamics that permeate our daily lives.
This work paves the way for future investigations that deepen the intersection between fashion and philosophy, especially in the field of authorial fashion with political bias.
In this sense, Michel Foucault’s legacy proves fundamental to the present time, insofar as his reflections on power, body, freedom, and resistance continue to provoke significant — and productive — shocks in the world of fashion, inspiring creative practices that question norms, deconstruct hierarchies, and reinvent forms of existence and expression.
AUTHORSHIP CREDIT
Manuscript conception and elaboration: M. G. dos Santos
Data collection: M. G. dos Santos, A. G. Freire
Data analysis: M. G. dos Santos, A. G. Freire
Discussion of results: M. G. dos Santos, D. M. de Albuquerque Junior
Revision and approval: M. G. dos Santos, D. M. de Albuquerque Junior
Endnotes
¹ Paul-Michel Foucault was born in Poitiers on October 15, 1926, and died in Paris on June 25, 1984. This article also constitutes a tribute to his vast and significant intellectual legacy, whose unfolding continues to resonate in the present. Published in 2026, the year in which the centenary of the philosopher’s birth is celebrated, the text aims to reaffirm the relevance and power of Foucault’s thought in different fields of knowledge, while also proactively directing his reflections towards the realm of fashion.
² It is worth highlighting that, although Michel Foucault’s work has already inspired reflections and discussions within the field of fashion, the development of this collection is unique for possibly being the first original fashion collection (especially in Brazil) to take as its thematic inspiration the intellectual trajectory and celebrated work of the French philosopher. However, this is not intended to be the best or most complete translation of his thought into clothing language, nor to claim that the collection has done justice to the complexity of his legacy. Rather, it is a sensitive attempt to pay homage to and honor a thinker who remains fundamental to understanding our time, whose reflections continue to provoke productive and necessary upheavals in the field of fashion and beyond.
³ This article was translated from Portuguese to English by Marcelino Gomes dos Santos, the article’s author, who holds a degree in Language and Literature from the Federal University of Rio Grande do Norte - UFRN.
REFERENCES
CIDREIRA, Renata Pitombo. A moda enquanto manifestação simbólica. In: O sentido e a época. Salvador: Edufba, 1995.
TREPTOW, Doris. Inventando moda: planejamento de coleção. 5. ed. São Paulo: Edição da Autora, 2013.
FLUSSER, Vilém. 1985. Filosofia da caixa preta. São Paulo: Hucitec, ١٩٨٥.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. 14. ed. Petrópolis: Vozes, 1995.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 9. ed. Rio de Janeiro: Graal, 1997.
FOUCAULT, Michel. A hermenêutica do sujeito. São Paulo: Martins Fontes, ١٩٩٦.
FOUCAULT, Michel. O governo de si e dos outros. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001.