História da moda no Brasil: uma abordagem didática para seu ensino
RESUMO
O presente artigo propõe uma abordagem para o ensino da disciplina História da Moda no Brasil nos cursos de design de moda. A partir da experiência em sala de aula, foi possível desvincular a história da moda do encadeamento cronológico, mais comumente utilizado nas disciplinas de história e definir um plano de aula a partir dos eventos mais significativos da produção da moda no Brasil desde a época colonial. Foram detectados três eixos principais: a produção têxtil; a comercialização e difusão de moda; estética e os criadores de moda. Estes eixos conectam-se e formam um conteúdo abrangente que perpassa toda a constituição da moda brasileira. A partir destes eixos, apresenta-se uma revisão da bibliografia disponível com as principais publicações da área pertinentes aos temas abordados, pontuando suas contribuições para o melhor aproveitamento da disciplina.
Palavras-chave: história da moda no Brasil; didática do ensino superior; bibliografia.
History of fashion in Brazil: a didactic and methodological approach for teaching
ABSTRACT
This article proposes an approach to teaching the subject History of Fashion subject in Brazil for fashion design courses. Based on the classroom experience, it was possible to separate the history of fashion from the chronological chain, more commonly used in history subjects, and define a lesson plan based on the most significant events in fashion production in Brazil, since Colonial times. Three main axes were detected: textile production; the commercialization and dissemination of fashion; aesthetics and fashion creators. These axes connect and form a comprehensive content that permeates the entire constitution of Brazilian fashion. Based on these axes, a review of the available bibliography was presented with the main publications in the area relevant to the topics covered, punctuating their contributions to the best use of the discipline.
Keywords: history of fashion in Brazil; didactics of higher education; bibliography.
Historia de la moda en Brasil: una aproximación didáctica y metodológica a su enseñanza
RESUMEN
Este artículo propone una aproximación a la enseñanza de la asignatura Historia de la Moda en Brasil para cursos de diseño de moda. A partir de la experiencia de aula, fue posible separar la historia de la moda de la cadena cronológica, más comúnmente utilizada en las materias de historia, y definir un plan de lección basado en los acontecimientos más significativos de la producción de moda en Brasil, desde la época colonial. Se detectaron tres ejes principales: producción textil; la comercialización y difusión de la moda; Creadores de estética y moda. Estos ejes se conectan y forman un contenido integral que permea toda la constitución de la moda brasileña. A partir de estos ejes, se presentó una revisión de la bibliografía disponible con las principales publicaciones del área relevantes para los temas tratados, destacando sus aportes al mejor uso de la disciplina.
Palabras-clave: historia de la moda en Brasil; didáctica de la enseñaza superior; bibliografía.
1 INTRODUÇÃO
A formação acadêmica na área do design de moda perpassa uma gama de disciplinas variadas próprias da transversalidade do design. Assim, nos cursos de design de moda são contempladas áreas de concentração que vão desde os processos criativos, como desenho, teoria das cores etc., aos temas mais técnicos, como modelagem, costura, confecção e materiais. Para além destes temas, a formação na área das ciências humanas é de fundamental importância, pois estas interrelacionam a moda com o meio social no qual ela se insere. Dentre as disciplinas ministradas, o conhecimento histórico é um dos campos abordados, tanto no ensino de design quanto no ensino de moda. As disciplinas de história da arte, história do design e a história da indumentária e da moda fazem parte de todas as matrizes curriculares dos cursos, com maior ou menor carga horária.
A reflexão histórica dentro do campo da moda busca sua interlocução com as ciências sociais, e, a partir da Escola de Analles, a roupa pode ser considerada fonte de pesquisa histórica ao mesmo tempo em que o conhecimento histórico pode explicar ou justificar o uso de determinadas modas (Debom, 2020). É importante ressaltar que o estudo de moda não engloba apenas formas, cores e tendências. É preciso pensar na roupa em uma totalidade que abrange toda uma cadeia produtiva vasta e multifacetada, mas também as questões culturais, sociológicas e antropológicas, os modismos e os conflitos entre classes e grupos sociais que estão muitas vezes expressos nos códigos vestimentares.
Sendo assim, a moda no Brasil, vai expressar muitos desses aspectos sociais, as hierarquias e posições sociais desde que aqui chegaram os colonizadores portugueses. Diane Crane (2006) destaca que:
A escolha do vestuário propicia um excelente campo para estudar como as pessoas interpretam determinada forma de cultura para seu próprio uso, forma essa que inclui normas rigorosas sobre a aparência que se considera apropriada num determinado período (o que é conhecido como moda), bem como uma variedade de alternativas extraordinariamente rica (Crane, 2006, p. 22).
Neste sentido, estudar a moda e os códigos vestimentares do povo brasileiro engloba as muitas etapas do sistema colonial, bem como as diversas culturas dos povos que aqui chegaram. De forma geral, nas disciplinas de história da moda, da arte ou do design, é natural que se faça uma organização do plano de ensino em uma divisão cronológica, pois se subentende uma construção de causa e efeito nos fatos históricos. Embora sendo necessário respeitar a divisão cronológica da história, existem peculiaridades na formação do campo da moda no Brasil que requer uma abordagem mais específica sobre o tema.
Diante de tais desafios no que concerne o entendimento da moda brasileira, este artigo propõe uma abordagem didática para ensino da disciplina História da Moda no Brasil para os cursos de moda, a partir da experiência em sala de aula no Curso Design de Moda da Universidade do Estado de Minas Gerais, UEMG, bem como fazer uma revisão da bibliografia disponível.
Esta pesquisa de natureza teórico descritiva adotou uma abordagem qualitativa, com objetivos exploratórios e narrativos sobre o tema. Para se atingir o objetivo de sugerir uma bibliografia compatível com as ementas da disciplina, seguiu-se a proposta de uma Revisão Sistemática da Literatura, orientada pelo protocolo apresentado por Okoli (2019, p. 4):
Uma revisão de literatura autônoma rigorosa deve ser sistemática ao seguir uma abordagem metodológica; explícita na explicação dos procedimentos pelos quais foi conduzida; abrangente em seu escopo ao incluir todo o material relevante; e, portanto, reprodutível por outros que desejem seguir a mesma abordagem na revisão do tema.
Houve um levantamento dos títulos disponíveis e mais recorrentes nos trabalhos atuais, identificados de forma indutiva. Os títulos foram selecionados entre os livros impressos e as publicações de teses e dissertações nas bases nacionais, sem definir um recorte temporal específico, o que proporcionou uma abrangência mais significativa. A partir da análise de conteúdo destes trabalhos, com base no método de Bardin (2021) foi possível fazer uma divisão em eixos que resultou em uma abordagem mais didática sobre o tema, como poderá ser visto a seguir.
2 A MODA NO BRASIL
Muito se tem discutido sobre a existência de uma moda genuinamente brasileira. A pesquisa na área de moda busca estabelecer uma identidade da moda brasileira a partir dos trabalhos de seus principais criadores. Mas tal definição torna-se tão difícil quanto a própria definição do termo “moda”. Em um país de dimensão continental, uma etnia miscigenada, com características e visualidades díspares, torna-se quase impossível uma unicidade na definição de uma moda brasileira. Além disso, de acordo com Prado (2019, p. 22), a moda no Brasil está “em permanente subordinação ao sistema francês, numa espécie de sub alta moda”. Pode-se entender que as formas, cores, tecidos e, enfim, a estética como um todo, seguem as tendências francesas, e neste sentido, abordar a moda brasileira pelo caminho da estética e na ordem cronológica pode configurar um esforço inútil e talvez repetitivo, uma vez que este conteúdo já é abordado nas disciplinas de história da moda e da indumentária.
A história do Brasil, em geral, é dividida em grandes períodos relacionados diretamente com os regimes de governo: Brasil Colônia, Brasil Império e a República. O Brasil Colônia caracterizava-se por um período de exploração extrativista (pau-brasil, ouro e pedras preciosas) e agrícola (cana de açúcar, algodão e café), no qual a maioria dos estrangeiros que aqui se instalaram vieram sozinhos, com poucas mulheres que justificassem grandes preocupações com a moda e o vestuário. Com a vida social restrita e população majoritariamente agrícola, o comércio da colônia restringia-se aos gêneros básicos, diretamente ligados à Coroa Portuguesa (Priore, 2016).
A grande mudança ocorrida no Brasil foi em decorrência da vinda da Família Real portuguesa em 1808 (Priore, 2016), fugindo da dominação da França de Napoleão Bonaparte. A transferência da Corte portuguesa para o Brasil implicou uma série de mudanças, desde a reurbanização da capital, Rio de Janeiro, até a vida social das famílias que aqui viviam. Cortesãos portugueses estabeleceram-se e assim casamentos foram realizados, além da imigração de populações de outros países europeus, dos escravizados africanos, tudo contribuindo para a formação da população brasileira miscigenada aos indígenas que povoavam o território.
Em 1822, o Brasil tornou-se independente da Coroa Portuguesa, entretanto, muitos vínculos culturais permaneceram, não só com Portugal, mas também com toda a Europa. A moda, como reflexo de seu tempo, permaneceu dependente das tendências estrangeiras, principalmente a francesa. É possível identificar alguns eixos no desenvolvimento da moda e da produção de vestuário no Brasil, sobre os quais norteiam a constituição da moda brasileira.
O primeiro eixo refere-se à produção de substratos têxteis, o segundo, à comercialização e às formas de difusão de moda e um terceiro eixo refere-se aos criadores de moda e de tendências e a sua fabricação, como mostra a Figura 1. Diante destes três eixos, é possível esboçar os caminhos que a moda seguiu no Brasil até os dias atuais.
Figura 1 - Eixos de ensino para a disciplina
História da Moda
Fonte: elaborado pela autora (2024).
2. 1 Eixo 1 - A indústria têxtil nacional
A cadeia produtiva da moda é extensa, complexa e requer certo grau de complementaridade entre diversos setores para se obter um resultado satisfatório (Rech, 2008). O substrato têxtil é a base desta indústria e sua aceitação pelo mercado é de fundamental importância. A indústria têxtil possui um papel histórico no desenvolvimento da humanidade, responsável por avanços tecnológicos importantes, impulsionou a Revolução Industrial e emprega grande quantidade de mão de obra desde o século XIX (Chataignier, 2006).
Quando os portugueses chegaram ao Brasil, o algodão já era cultivado, fiado e tecido pelos indígenas (Pezzolo, 2007). Desta forma, a produção têxtil brasileira vai traçar um caminho histórico, desde o abastecimento de redes e peças para cobrir o corpo dos indígenas, as sacarias para o escoamento da produção agrícola, além das roupas usadas pelos habitantes locais. Em um primeiro momento, a elite portuguesa que aqui vivia, só se vestia com produtos importados. Segundo Chatagnier (2010), a roupa usada no Brasil era uma roupa de terceira mão: “inspirada em Paris, confeccionada em Portugal e trazida por navios portugueses”. Mas o grande contingente de escravizados exigia uma produção local de roupas que se adaptassem ao trabalho agrícola.
Assim, a produção nacional de tecidos inicia-se e com ela delineia-se uma produção de roupas. Sob diversos desafios, a indústria de tecidos foi se estruturando. Em cada época, os interesses políticos modificavam as legislações, ora incentivando a indústria nacional, ora sucateando os parques fabris. A iniciativa privada foi vencendo os obstáculos e, ao final do século XIX, já se encontrava estruturada. No século XX, a indústria têxtil desempenhou papel fundamental para a moda nacional. Fábricas de tecidos, como a Bangu, Cataguases, Cedro Cachoeira, Rhodia, promoviam ações promocionais que incentivaram e deram destaque aos criadores brasileiros em desfiles, concursos e feiras do setor, como o exemplo da Fenit (Braga; Prado, 2011), tendo o intenso apoio da mídia, conforme a seguir.
2. 2 Eixo 2 - Difusão e comercialização de moda
A mídia, sem dúvida alguma, é um dos grandes motores da moda. A mídia impressa, o cinema, a televisão trazem as informações de moda, tendências e comportamento para o cotidiano das pessoas. Sob esse aspecto, o estudo da dinâmica dos meios de comunicação que se instalaram no Brasil, vai revelar a forma como o brasileiro, ao copiar as grandes tendências internacionais de moda, imprime as marcas culturais próprias e suas adequações ao clima e ao comportamento (Castilho; Garcia, 2001).
A partir de 1808, com a transferência da Corte Portuguesa, a proibição da imprensa no Brasil foi revogada e instalam-se os primórdios do mercado editorial. As primeiras publicações destinadas ao público feminino e a moda datam de 1812 (Castilho; Garcia, 2001, p. 14). A revista é a mídia mais feminina até os dias de hoje. Nas páginas das revistas, pode-se ver matérias e colunas de jornalistas e escritores, uma linguagem visual privilegiada e uma profusão de anúncios de toda ordem, caracterizando as respectivas épocas de publicação, constituindo-se assim, importante fonte de pesquisa histórica (Novelli, 2011). No avançar do século XX, os periódicos femininos ditavam os padrões de beleza, moda e comportamento, alimentados pelo cinema e pela televisão, em um processo simbiótico, foram fundamentais para a formação do mercado consumidor e na disseminação de ideias, modismos e costumes. Um bom exemplo foram as páginas da revista “O Cruzeiro” ilustradas por Alceu Penna (1915-1980) entre 1938-1964. Suas “Garotas” refletiam a imagem idealizada da juventude brasileira de cada época. Anunciadas como:
[...] a expressão da vida moderna. [...] irrequietas e endiabradas, as “Garotas” eram desenhadas com traços que ficavam entre o sensual e o lúdico, vestidas sempre na última moda e desfrutando das praias, bailes, cinema, em síntese, do melhor que a vida social do Rio de Janeiro podia oferecer. Durante 26 anos (1938-1964) povoaram as páginas de O Cruzeiro e também o imaginário de moças e rapazes, pois, despertavam a fantasia juvenil masculina, ao mesmo tempo em que funcionavam como modelo de moda e beleza para as mocinhas (Bonadio, 2011, p. 2).
Até os dias de hoje, as revistas configuram importante espaço de comunicação entre moda e o público feminino, haja vista o grande número de publicações e os altos investimentos em publicidade. Mesmo após o advento da internet, muitas publicações ainda existem nos dois meios de comunicação: o físico e o virtual.
No início da década de 1920, o cinema no Brasil passou a desempenhar papel de difusor de moda de forma bastante significativa. O número de salas de cinema aumentou exponencialmente alcançando áreas mais distantes do eixo Rio-São Paulo que eram, até então, os centros culturais e econômicos mais prósperos do país. Segundo Braga e Prado (2011) as brasileiras frequentavam as salas de cinema pelo menos uma vez por semana, muitas delas levavam caderninhos de anotações para copiar os modelos das estrelas de Hollywood. Sempre conectados com os últimos lançamentos de Paris, os figurinistas de Hollywood transportavam para as telas, em seus figurinos, o que havia de mais atual na moda francesa, tornando-se verdadeiros difusores de moda de forma global. Sem contar a quantidade de publicações impressas que traziam em suas páginas a vida privada das estrelas, seus gostos, seus vestidos, enfim, toda uma aura de glamour e sofisticação que alimentava o sonho e influenciava o gosto das brasileiras.
Em 1950, a televisão entrou no Brasil incentivada por uma política governamental de integração nacional, teve sua disseminação de forma rápida e abrangente em todo o território nacional. Já na década de 1960, a televisão desempenhava importante papel na disseminação de moda e comportamento. Programas de auditório e musicais foram extremamente populares, entretanto, o mais importante produto da cultura de massa da televisão brasileira foram as novelas. A história da moda não pode ficar alheia à importância das novelas na divulgação e criação de moda e comportamento no Brasil. Um bom exemplo foi a novela “Dancin’ Days”, produção da Rede Globo, exibida em 1978, que disseminou o uso de sandálias com meias de lurex, um modismo lembrado por toda uma geração (Durand, 1988).
Na atualidade, com o advento das mídias sociais, a televisão, mesmo ainda forte, perdeu um pouco de sua influência, em breve será necessário um estudo para englobar os novos meios de difusão de moda, Instagram e Tik Tok (dentre outros), como fontes de pesquisa histórica.
Outro importante tema de estudo para se entender a história da moda no Brasil consiste na história das casas de moda, ateliês, lojas de departamento e butiques. Esses espaços de comercialização foram os pioneiros e deram origem a muitas marcas importantes de moda no Brasil. Os primeiros ateliês instalados na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, ainda no século XIX, produziam roupas e/ou revendiam artigos de vestuário importados, sempre revestidos em um constante sotaque francês. No início do século XX as primeiras lojas de departamento foram abertas no eixo Rio-São Paulo, como a Mappin, filial da loja inglesa. Casas como a Casa Canadá e Madame Rosita, dentre outras, são fontes ricas em história da moda brasileira. Pelos seus ateliês passaram nomes importantes, como Dener Pamplona e Clodovil Hernandes (Braga; Prado, 2011).
Na segunda metade do século XX, a disseminação da roupa pronta, (ready-to-wear ou prêt-à-porter) fez aparecer inúmeras butiques, com uma ideia de juventude e modernidade em sintonia com o cenário internacional, acabaram mudando as características da moda brasileira. Dessas butiques surgiram muitas marcas famosas que se transformaram em importantes confecções brasileiras da atualidade.
Desta forma, este segundo eixo, se mostra rico em informações e histórias que contribuíram para a formação do cenário da moda brasileira dos dias de hoje.
2.3 Eixo 3 - Estética e criação de moda
Este eixo dedica-se ao estudo dos principais criadores da moda brasileira. Alguns nomes são mais recorrentes ao público em geral, tais como Dener Pamplona, Clodovil Hernandes e Zuzu Angel, e muitos outros nomes de igual valor precisam ser lembrados, pois contribuíram para a formação da moda no Brasil com inegável talento e pioneirismo. Markito, Guilherme Guimarães, Rui Spohr, José Ronaldo, Hugo Castellana, Ronaldo Esper, dentre outros, formaram uma geração de desbravadores, mesmo sendo influenciados pelas tendências da alta costura francesa. Esses e tantos outros talentos imprimiram em suas criações as marcas da cultura local e adaptaram a moda ao clima e ao gosto da mulher brasileira (Chataignier, 2010, Braga; Prado, 2011).
Outro tema importante a ser abordado são as associações de criadores e confecções formadas principalmente nas décadas de 1970 e 1980, como o Grupo Moda Rio e o Grupo Mineiro de Moda. Com intuito de divulgar e alinhar datas de lançamentos e fortalecer o setor da indústria da moda, estes grupos foram formados pelas mais proeminentes marcas da época e deixaram um legado e um importante acervo de pesquisa em moda. Destaca-se pela primeira vez o despontar da moda mineira no cenário nacional, o Grupo Mineiro de Moda, criado no início da década de 1980, reunia os principais nomes da moda mineira, que despontava localmente e visava uma projeção nacional. (Braga; Prado, 2011).
Nomes mais atuais como Alexandre Herchcovitch, Jum Nakao, Glória Coelho, Ocimar Versolato, Francisco Costa, Walter Rodrigues, Carlos Tufvesson e Lino Villaventura, Ronaldo Fraga, Adriana Bara, Fernanda Yamamoto, Isabela Capeto, dentre muitos outros, mostram a riqueza e a criatividade da moda nacional que precisam ser valorizadas e são inspiração para os estudantes de moda.
2.4 FONTES DE PESQUISA
A historiografia implica a busca por informações que estão contidas em diversas fontes e suportes. Segundo Debom (2020, p. 20), “os utensílios criam relações humanas que ultrapassam sua materialidade; funcionam não somente como códigos de comunicação e diferenciação social, mas ainda como elementos de uma rede de sensibilidades indispensáveis à compreensão da História”. Com a moda não é diferente. Sua relação com o contexto econômico, social e tecnológico revela detalhes da sociedade que a produz e consome.
As fontes históricas, de maneira geral, podem ser divididas em: primárias, iconográficas, escritas e documentais (Boucher, 2010). No caso da história da moda, as fontes primárias seriam as peças de roupa propriamente ditas. Neste sentido, lacunas enormes se abririam, uma vez que as superfícies têxteis são materiais de fácil deterioração. Assim, ao contar a história da moda, fontes iconográficas e textuais foram sendo criteriosamente aproximadas no intuito de se formar um quadro mais próximo da realidade representada.
Köhler (2001) acrescenta que o artista, ao representar uma pessoa em determinada época, o faz a partir daquilo que é considerado nobre e importante naquele contexto, muitas vezes não representando a verdadeira realidade. Somente no século XIX, com os recursos da fotografia é que se pode aproximar mais da realidade das aparências. Barbosa (2020, p. 30) acrescenta que:
Também é preciso esclarecer que, neste processo, [historiografia] nem todo documento pode ser considerado fonte. Será a partir das questões, das reflexões, das análises, do levantamento teórico e metodológico feito pelo pesquisador e pelo fornecimento de “informações sobre as ações humanas do passado” que o documento tornar-se-á fonte de pesquisa.
No caso da indumentária brasileira, ou mais precisamente, a roupa que se usava no Brasil desde o início da colonização não é diferente. Não existe um acervo conservado das vestimentas, tão pouco registros precisos e em quantidade suficiente para se fazer comparações e análises. Fica claro que a roupa usada aqui pelos portugueses seguia os códigos vestimentares da Europa, principalmente influenciada pelas cortes espanholas e francesas, mesmo que isto significasse uma total inadequação ao clima e às atividades exercidas na Colônia.
Assim, os registros disponíveis são as obras de artistas que vieram em missões estrangeiras, muitas delas no início do século XIX, e imprimiam em suas obras, suas visões particulares, religião e os conceitos de uma terra exótica e longínqua. Entretanto, as obras de Carlos Julião (1740-1811), Jean-Baptiste Debret (1768-1848) e Johann Moritz Rugendas (1802-1858) ainda constituem referências importantes da vida cotidiana brasileira.
Desta forma, faz-se necessário pensar os efeitos da imagem na produção de códigos, o uso da perspectiva, a disposição dos componentes retratados na tela, o uso das cores, o tipo de tinta ou produto utilizado para criação da imagem. Além disso, deve-se questionar quem pintou a imagem, contextualizar a obra e cruzar outras fontes, inclusive imagéticas, a fim de verificar as correntes artísticas existentes no período e que precederam a obra e o pinto (Barbosa, 2020, p. 33).
As fontes escritas e documentais englobam a literatura, cartas e documentos oficiais como inventários e leis. Na literatura, os autores brasileiros versavam em seus romances sobre a vida, hábitos e costumes do Brasil, e para tanto, descreviam detalhadamente os trajes das personagens. Neste caso, é necessário um rigor metodológico ao cruzar as fontes escritas às fontes imagéticas disponíveis do referido período (Barbosa, 2020).
Além da literatura, as cartas formam um significativo conjunto de informações, e, apesar das dificuldades de conservação, grande número destas ainda existem em arquivos públicos ou coleções particulares disponíveis para consulta. Inventários e testamentos propiciam, principalmente em caráter quantitativo, informações e dados importantes sobre o vestuário. Na medida em que ficaram registrados em cartórios, tais informações minimizavam as variações emotivas (contidas nas cartas e nos romances), mas podem aumentar ou diminuir os valores declarados em razão de interesse próprios e devido aos custos, estas informações circunscrevem-se a uma determinada classe social (Barbosa, 2020).
No decorrer do século XX, novas fontes juntaram-se ao escopo já mencionado, como a fotografia, o cinema e a televisão. Até a década de 1960, a grande influência dava-se através do cinema. No Brasil, a partir da década de 1970, a televisão com suas telenovelas ocupava um espaço de significativa influência nos hábitos e costumes da sociedade, e seus figurinos refletem a moda vigente em cada época.
Segundo Barbosa (2020), a utilização de fontes de pesquisa deve obedecer ao rigor metodológico e ao cruzamento de duas ou mais diferentes fontes, pode propiciar uma melhor compreensão dos fatos ao correlacionar o tempo e o contexto histórico de cada época. Sendo assim, no Brasil, foi só a partir do século XX, que pesquisas começaram a ser produzidas na tentativa de representar os códigos vestimentares dos brasileiros, como será visto a seguir.
3 BIBLIOGRAFIA SUGERIDA
A pesquisa em moda no Brasil ainda está em estágio inicial e desta forma as publicações dedicadas ao tema ainda estão em processo de crescimento. Maria Claudia Bonadio, em 2010, fez um mapeamento da produção acadêmica de temas que se relacionavam com a moda. Em primeiro lugar é necessário destacar que os cursos de graduação em moda são recentes dentro das instituições de ensino superior no Brasil1 e mais raros nas instituições públicas. Desta forma, a pesquisa, que é mais incentivada na instituição pública, fica ainda mais escassa na área da moda. Outro ponto ainda é os poucos cursos de mestrado ou doutorado específicos na área, o que leva a pesquisa acadêmica ser realizada em outros cursos como as ciências humanas e engenharias de produção, dentre outras.
Diante do levantamento feito por Maria Claudia Bonadio, ainda é possível verificar a pouca existência de temas pertinentes exclusivamente à moda brasileira. A grande parte da bibliografia disponível é mais recente e o interesse acadêmico pela moda no Brasil constitui-se hoje como um vasto campo de pesquisa a ser explorado. Ressalta-se que não cabe aqui esgotar o material disponível, mas sim destacar os mais relevantes dentro do escopo da disciplina História da Moda no Brasil.
A primeira publicação sobre moda no Brasil é o livro de João Affonso, “Três séculos de moda: 1616-1916”, cuja primeira edição é datada de 1923. O texto trata de um levantamento histórico da indumentária de três séculos, entretanto o texto se aproxima mais de uma obra literária do que um livro técnico ao incluir passagens e acontecimentos na cidade de Belém (PA). O livro descreve a moda em uma abordagem genérica, sem explicitar o cenário brasileiro como modificador de hábitos e costumes de determinadas épocas e segue uma estrutura cronológica das mudanças de estilo.
Benedito Bastos Barreto (1896-1947), conhecido como Belmonte, publicou na década de 1939 o livro “No tempo dos bandeirantes” (S/D). Ricamente ilustrado pelo próprio autor, o livro narra as agruras da vida dos bandeirantes no século XVIII e traz uma importante contribuição sobre os hábitos e costumes de São Paulo, baseada em pesquisa da obra de Padre José da Nóbrega, o autor foi criticado pela falta de rigor metodológico científico. Entretanto, a riqueza de detalhes das ilustrações faz deste livro um excelente material de pesquisa sobre o interior do Brasil.
A obra de Gilda de Melo Souza foi pioneira na abordagem da moda no Brasil dentro da pesquisa acadêmica. O livro, baseado em sua tese de doutorado, “O Espírito das roupas: A moda no século XIX”, publicado em 1987, traz uma discussão sobre moda e comportamento no século XIX, a partir da literatura e imagens fixadas pela pintura, gravura e fotografias da época. Sendo considerado um tema fútil dentro do departamento de sociologia da USP à época de sua defesa (1950), este trabalho continua sendo referência para as pesquisas de moda do século XIX, uma vez que contextualiza a moda com a estrutura social e sua relação com o corpo, atitude, gênero e função dentro da sociedade.
Também em 1987 foi publicado o livro “80 anos de moda no Brasil” de Silvana Gontijo. O livro foi publicado por ocasião da comemoração dos 80 anos da Cia. Têxtil Ferreira Guimarães, importante indústria têxtil brasileira inaugurada em 1906 e fechada em 2014. Este levantamento histórico da moda do século XX teve como fontes de pesquisa os anúncios de jornais e revistas, arquivos fotográficos e inúmeras entrevistas. Estruturado de forma cronológica, o texto faz uma viagem pelas décadas da história brasileira contextualizando a moda com os fatores sociais, estéticos, econômicos e políticos que a influenciaram. Infelizmente, não existem edições posteriores do livro, o que faz com que seja praticamente uma obra rara de coleção: o exemplar de capa dura é forrado em tecido estampado com a logomarca da Ferreira Guimarães e apresentado em uma caixa.
“História da moda no Brasil” (2010) escrito pela jornalista, especializada em moda, Gilda Chataignier, traça uma visão bem ampla da indumentária usada no Brasil. O livro, organizado de forma cronológica, descreve as roupas usadas em solo brasileiro, desde o período colonial, com ilustrações de Antônio Pereira da Silva. Um dos méritos da publicação está na articulação do passado com o presente, além de apresentar não somente a moda das elites, como é recorrente nos trabalhos de moda. A autora busca nas origens da miscigenação da população brasileira, explicação para os diversos modismos, que vão além da influência europeia na construção do gosto pelas formas, cores e texturas.
Em 2011, foi lançado o livro “História da moda no Brasil: das influências às autorreferências” dos autores João Braga e Luís André do Prado. Talvez esta seja a melhor e mais abrangente obra sobre a história da moda brasileira. Sem desconsiderar outras publicações, este livro aborda de forma muito detalhada a vasta produção de vestuário no Brasil da Belle Époque ao século XXI. Em suas mais de 600 páginas, o conteúdo, resultado de extensa pesquisa, traça detalhadamente o trajeto da produção de moda brasileira.
A partir de 1990, com o aumento dos cursos de moda, houve um aumento na produção acadêmica e consequentemente, muitas delas tornaram-se livros. Entretanto, são temáticas mais específicas, porém, não menos importantes. Como é o caso do livro “Fazer roupa virou moda: um figurino de ocupação da mulher” (São Paulo 1920-1950) (2007). A autora, Wanda Maleronka, buscou entender as dinâmicas do trabalho feminino relacionadas à moda, em São Paulo, do trabalho nas tecelagens e nas confecções de roupas prontas até nos ateliês de costura. A autora, constrói um texto que aborda as questões de classe e gênero nas relações sociais e as ocupações e modos de vida das mulheres no referido período.
Outra pesquisa acadêmica a se tornar livro, “A cidade e a moda” (2002) de Maria do Carmo Rainho, traça um importante paralelo entre a vida urbana e a moda com foco na elite do Rio de Janeiro do século XIX.
“Moda e sociabilidade: mulheres e consumo na São Paulo dos anos 1920” (2007), de Maria Claudia Bonadio, aborda o tema da moda pelo viés do consumo. Assim, a autora pesquisou as principais lojas referência de comercialização de moda e destaca a loja de departamento Mappin Stores, que, segundo a autora, foi responsável por uma verdadeira revolução na história social da cidade de São Paulo. O livro abrange não só a moda, como também um estudo do comportamento e da sociabilidade da elite feminina na cidade.
Outra contribuição importante da mesma autora foi o livro “Moda e publicidade no Brasil nos anos 1960” (2014). Neste livro, Maria Claudia Bonadio aborda a publicidade como motor da divulgação de moda e a importância da instalação da fábrica da Rhodia e a Fenit para o mercado de roupas no Brasil. A pesquisa estabelece uma ênfase no trabalho do publicitário Lívio Rangan e sua atuação na Rhodia no Brasil perpassando as diversas fases da história da moda na década de 1960. Neste livro, Maria Claudia aborda o início da produção das fibras sintéticas no Brasil, a história da Fenit, o início do prêt-à-porter, da fotografia e publicidade de moda, fazendo deste um importante livro para pesquisas em diversas áreas transversais ao universo da moda e da cultura no Brasil.
A jornalista Ruth Joffily também contribuiu para a história da moda em dois livros. Em 1989, foi lançado o livro “Marília Valls, um trabalho sobre moda”, onde a autora escreve sobre a trajetória de Marília Valls, proprietária de uma das melhores butiques do Rio de Janeiro, a Blu-Blu (1972-1987). Ao contar essa trajetória, a autora traça um amplo cenário da moda brasileira nas décadas de 1970 e 1980, quando o Rio de Janeiro passa a protagonizar a produção de moda e contempla a formação do Grupo Moda Rio. Em “O Brasil tem estilo?” (1999), a autora dedica um capítulo sobre a história da moda no Brasil, um breve histórico, mas proporciona um resumo dos principais norteadores da produção de vestuário.
Marco Sabino, estilista e ex-empresário do segmento de bijuterias do Rio de Janeiro publicou em 2007 um minucioso trabalho: “Dicionário da moda” com mais de mil e quatrocentos verbetes organizados em ordem alfabética. Neste trabalho, é possível consultar sobre os mais diversos temas, como pessoas, materiais, lojas, marcas e estilos. Mesmo contendo muitos verbetes estrangeiros, o autor privilegiou a moda brasileira, contemplando os estilistas nacionais, as revistas e os saberes locais.
Para a pesquisa sobre os estilistas brasileiros, o livro “Moda no Brasil: criadores contemporâneos e memórias” (2012), de José Luis Hernándes Alfonso e Denise Pollini, apresenta um bom material sobre o tema, além de informações sobre a formação em moda.
Outras fontes de estudos são as dissertações e teses dos cursos de pós-graduação. O levantamento feito por Bonadio até 2010 contribui para uma seleção de títulos que versam sobre a moda brasileira. É de se esperar após catorze anos, esta relação tenha crescido bastante. Dentre elas, é interessante citar a tese de doutorado de Luís André do Prado, “Indústria do vestuário e moda no Brasil do século XIX a 1960: da cópia e adaptação à autonomização subordinada” (2019). Trabalho extenso que contempla as diversas fases da produção de vestuário no Brasil. Outros temas abordados são relacionados à internacionalização da moda brasileira, tanto ao que concerne às influências quanto à necessidade de se mostrar uma moda brasileira fora do país. “Costuras em papel: a moda parisiense e suas relações com o Rio de Janeiro e São Paulo”, Everton Vieira Barbosa (2021) e “Moda brasileira e mundialização: mercado mundial e trocas simbólicas”, de Miqueli Michetti (2012) são exemplos desta temática.
“Os estilistas e a produção de moda”, de Mônica Agda de Souza Alário (2007) e “O circuito das roupas: a Corte, o consumo e a moda (Rio de Janeiro, 1840-1889)” de Joana Monteleone (2013) são bons exemplos de pesquisas de pós-graduação e que enriquecem a bibliografia da disciplina.
A história do jeans no Brasil e da moda praia são temas explorados na produção acadêmica devido a sua importância no mercado de moda brasileiro. Tanto a trajetória do jeans quanto da moda praia trazem valiosas informações sobre a construção da moda brasileira, pois são segmentos de moda reconhecidos internacionalmente.
Dois outros autores precisam ser citados neste trabalho, é o caso de Gilberto Freyre com seus dois trabalhos “Casa-grande & senzala” (originalmente publicado em 1933) e “Modos de homem e modas de mulher” (1987). Na primeira obra citada, Freyre aborda a formação da sociedade brasileira com toda a sua miscigenação a partir da análise dos hábitos aqui constituídos, como alimentação, arquitetura, sexualidade e vestimenta. Críticas à parte, a obra descreve, em linguagem mais próxima da literatura, os hábitos e costumes pesquisados pelo autor. Em “Modos de homem e modas de mulher”, o autor adentra no universo da moda propriamente dito e faz observações importantes sobre diversos aspectos da história da moda no Brasil a partir do século XIX. Neste sentido, o autor não se prende à descrição do vestuário, mas amplifica seu significado acrescentando os hábitos de comportamento relativos à moda e seu contexto.
Outra autora importante no contexto da história é Mary Del Priore. Na coleção “História da gente brasileira” (2016), a autora faz um levantamento histórico amplo desde o Brasil Colônia sem se prender apenas aos fatos históricos, econômicos e políticos. Ela passeia pelos hábitos alimentares, de moradia e vestimentas dentre outros proporcionando um material rico para o entendimento da formação da sociedade brasileira.
O enfoque mais contemporâneo sobre a pesquisa em história da moda pode ser observado no livro “A história na moda, a moda na história” publicado em 2019. Organizado pelos autores Camila Borges da Silva, Joana Monteleone e Paulo Debom, o livro é composto por 14 artigos que intercambiam história, literatura e mídias, em um panorama que abrange os séculos XIX ao XXI em uma abordagem mais próxima da renovação historiográfica das últimas décadas.
As mais recentes publicações na área são os livros: “História e historiografia da moda: novas abordagens” e “As roupas na história: pesquisar, narrar e ensinar”, ambos publicados em 2024. Organizado pelas autoras Maria Claudia Bonadio e Elizabeth Murilo da Silva, a obra “História e historiografia da moda” contém entre os nove artigos, quatro importantes contribuições sobre a moda brasileira. Já em “As roupas na história”, organizado por Ivana Guilherme Simili e Guilherme Teles da Silva, os autores buscam apresentar as possibilidades da pesquisa e ensino da história por meio das roupas. Apesar de não se ocupar especificamente dos temas da moda no Brasil, os artigos conectam questões sociais, políticas e culturais, do passado e do presente com as transformações visuais e a aparência das pessoas mostrando a importância do lugar ocupado pelas roupas, seja no contexto nacional ou internacional.
As obras citadas acima formam uma base teórica importante e bastante consistente e suficiente para abordar o conteúdo da disciplina. Não cabe aqui esgotar o tema. É importante salientar que, grande parte das pesquisas encerra-se no eixo Rio-São Paulo, o que deixa de lado polos produtores importantes como a Região Sul, com indústria têxtil e calçadista e Minas Gerais com a proliferação de confecções de roupa e calçados nas últimas quatro décadas.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os desafios enfrentados pela docência são muitos e em todas as áreas de conhecimento. Diante de um cenário de globalização e das facilidades de acesso à informação vivenciado pelos alunos, a sala de aula como espaço de conhecimento tem sido cada vez menos valorizado. Desta forma, despertar e manter o interesse do aluno na história, no seu desenrolar e em suas influências na contemporaneidade, tem sido um desafio cada vez maior.
A abordagem crítica e contextualizada da teoria, juntamente ao destaque pelo papel social da moda são fundamentais para alicerçar um repertório sólido para o aluno de design de moda. No que diz respeito à moda brasileira, tal desafio torna-se ainda maior, no sentido prevalente de desvalorização do produto nacional, da constante valorização do que vem de fora e da dependência da aceitação da moda brasileira pelo mercado internacional perpetrado pelas marcas nacionais.
Estruturado de acordo com a ementa definida no plano pedagógico de cada instituição, o plano de ensino norteia o bom andamento da disciplina, no momento que expõe de forma clara os temas abordados, proporcionando uma visão global da disciplina, bem como sua organização cronológica. A divisão aqui proposta para a disciplina História da Moda no Brasil define uma interpretação da ementa de acordo com a realidade encontrada nos desdobramentos da moda no Brasil, com seus altos e baixos, acertos e desacertos no decorrer dos últimos séculos. É importante observar, que, apesar da cópia ter sido uma constante na moda brasileira, desvencilhar dos conceitos estrangeiros, até mesmo no ensino, pode oferecer oportunidades para que se possa fortalecer a identidade brasileira.
Os eixos apresentados condizem muito mais com a realidade vivenciada pela produção de moda no Brasil, independentemente da estética. A produção têxtil, além de oferecer os insumos necessários para a produção de roupas, fomentou a criação de uma moda nacional. A prática de comercialização, entre lojas e ateliês, construiu uma tradição de moda e adaptação ao gosto nacional das roupas e acessórios da moda francesa, bem como a mídia, onipresente, difundiu a moda por todo o país. Assim, estilistas e marcas surgiram a partir deste cenário e não independente dele.
Neste momento, refletir de maneira crítica sobre a moda brasileira parece pertinente e necessário diante dos desafios do mercado atual. Torna-se necessário incentivar a pesquisa acadêmica, diante da parca quantidade da produção. Observa-se ainda, a setorização dos trabalhos no eixo Rio-São Paulo, o que abre um vasto campo de pesquisas nas outras regiões do país.
Notas de fim de texto
1Fenit: Feira Nacional da Indústria Têxtil, realizada a partir de 1958, incentivou a moda brasileira por meio de desfiles e promoções publicitárias.
2 Importante ressaltar que as mulheres na moda só adquiriram projeção na segunda metade do século XX. Ver: Mulheres na moda brasileira. Ver em: Digitale Têxtil, disponível em: https://www.digitaletextil.com.br/blog/estilistas-brasileiras/. Acesso em: 14 jan. 2024.
3Boucher (2010) acrescenta que exemplares originais de roupas estão disponíveis apenas dos últimos dois séculos, e o interesse museológico pela moda é relativamente recente.
4Mary Del Priore utiliza grande quantidade de informações a partir de inventários e registros oficiais como fonte de pesquisa.
5Ver Guimarães, Maria Paula; Da Conceição Ribeiro, Rita Aparecida. O Cinema como Criador de Tendências e Fonte de Pesquisa Histórica na Moda. ModaPalavra e-periódico, v. 12, n. 25, p. 10-35, 2019.
6O primeiro curso de graduação em moda foi fundado em 1987, na Faculdade Santa Marcelina, na cidade de São Paulo (Macedo, 2022).
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