DOI: 10.5965/25944630812024e4731
Cento e doze linhas: sobre desenho
e processo
One hundred and twelve lines: about drawing and
process
Cent douze lignes : à propos du dessin et du
processus
Anna de Moraes Silva¹
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Florianópolis, v. 8, n. 1, e4731, p. 1 - 18 , Fev. Mai. 2024
Anna de Moraes Silva
Cento e doze linhas: sobre desenho e processo
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Resumo
Este ensaio visual apresenta uma sequência de imagens que compõe a narrativa
de um vídeo em que me proponho a desenhar 56 linhas com a mão direita e 56
linhas com a mão esquerda em dois papéis, com um giz oleoso preto. Este
trabalho fez parte de uma exposição individual em 2021 que se chamou
exercícios de desenho, em que eu busquei apresentar questões do processo
que revelam como o artista produz sua obra, além de situar o trabalho em uma
indefinição entre processo e obra final, entre desenho e escrita. O ensaio visa
apresentar, tanto em imagem como texto, essas questões sobre obra final e
processo, e suas relações intrínsecas e quase tautológicas como define a autora
Pamela Lee em referência ao desenho.
Palavras-chaves: Desenho; Desenho Contemporâneo; Processo Artístico.
Abstract
This visual essay presents a sequence of images that make up the narrative of a
video in which I set out to draw 56 lines with my right hand and 56 lines with my
left hand on two pieces of paper, using black oil chalk. This work was part of a
solo exhibition in 2021 called Drawing Exercises, in which I sought to present
questions of process that reveal how the artist produces his work, as well as
situating the work in a blur between process and final work, between drawing and
writing. The essay aims to present, both in image and text, these questions about
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Artista visual e doutoranda em artes visuais no Programa de Pós-graduação em Artes Visuais no
PPGAV/CEART/UDESC. Agência de fomento de pesquisa: CAPES. E-mail: annamoraess@gmail.com.
Lattes ID: http://lattes.cnpq.br/5852601175044693. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-4990-2438.
Florianópolis, Brasil.
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Cento e doze linhas: sobre desenho e processo
the final work and the process, and their intrinsic and almost tautological
relationship, as the author Pamela Lee defines it in reference to drawing.
Keywords: Drawing; Contemporary Drawing; Artistic Process.
Résumé
Cet essai visuel présente une séquence d'images qui constituent la narration
d'une vidéo dans laquelle j'ai entrepris de dessiner 56 lignes avec ma main droite
et 56 lignes avec ma main gauche sur deux feuilles de papier, en utilisant de la
craie noire à l'huile. Ce travail faisait partie d'une exposition individuelle en 2021
intitulée Exercices de dessin, dans laquelle j'ai cherché à présenter des questions
de processus qui révèlent comment l'artiste produit son travail, ainsi qu'à situer
le travail dans un flou entre le processus et l'œuvre finale, entre dessin et
écriture.. L'essai vise à présenter, à la fois en image et en texte, ces questions
sur l'œuvre finale et le processus, et leur relation intrinsèque et presque
tautologique, telle que l'auteur Pamela Lee la définit en référence au dessin.
Mots-clés : Dessin ; Dessin contemporain ; Processus artistique.
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1 Introdução
Play.
Me dirijo até a parede, no meio de onde fixei as duas folhas de papel
A1 em frente à câmera posicionada em um tripé em meu quarto. Alongo
sutilmente os ombros e me preparo para começar segurando o giz oleoso preto
com a mão direita. Quantas linhas cabem nessa folha? Será que consigo
desenhar uma linha reta? Nunca gostei muito de linhas retas, mas elas ajudam
a concentrar e o que seria da arquitetura sem a linha reta. Mas eu não sou
arquiteta, sou artista e desenho linhas sinuosas e tremidas. Preciso começar, a
câmera está rodando. É posicionar o giz no papel do lado esquerdo, e vai
ela, não tão reta, chega ao meio, vai cambaleante, e quase toca a borda do lado
direito. Ufa. A primeira foi. Agora a segunda, nem tão perto, nem tão longe, é
preciso ter um respiro entrelinhas para ter uma harmonia aqui. Meço a distância
perfeita com os olhos. Começo, meio, fim. Agora a terceira.
Sigo nesse mantra por mais cinquenta e três linhas de cima para
baixo, da esquerda para a direita até chegar à margem inferior do papel. É quase
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como a escrita. Dois minutos e trinta e sete segundos. Várias linhas que se
encontram, mas tudo bem, fiquei sem mexer muito o corpo, elas acompanharam
apenas a extensão do meu braço. Agora novo desafio. Troco o giz de mão.
Desenhar com a mão esquerda, eu que sou destra, posicionando o giz na lateral
direita da folha, sem pensar muito ela vai, mais tremida que a mão direita, mas
também mais forte. A mão direita sempre foi da precisão, a esquerda da
resistência. Sigo preenchendo mais cinquenta e cinco linhas, da direita para
esquerda, de cima para baixo. Dois minutos e quarenta e oito segundos. Paro
em frente às duas folhas de papel. Me retiro pela direita.
Stop.
Escrevo esse texto assistindo ao vídeo
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, dois anos após ter riscado
essas linhas nos dois papeis A1 no quarto da minha antiga casa. Esse deo fez
parte de uma exposição individual que integrou a agenda da Fundação Cultural
de Itajaí em 2021, e se chamou exercícios de desenho. No projeto eu havia
incluído apenas os desenhos, mas com o distanciamento social que estávamos
vivendo, a exposição aconteceu de forma virtual, me levando a pensar em incluir
os vídeos do processo.
Eu desenho e escrevo. Estou tentando escrever sobre o processo,
estando em processo. O que é estar em processo? Escrever é desenhar linhas
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Disponível em: < https://www.annamoraess.com/exposicao > Acesso 10 nov. 2023.
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de palavras, muitas vezes sem saber onde elas vão chegar, mas sabendo que
elas chegam a quase tocar o lado direito da folha em branco. Movimento ritmado,
da esquerda para a direita, que aos poucos compõe em verbos ações descritas,
imaginadas ou pressupostas. Isso se parece, em partes, com desenho.
Digo em partes, porque escrever e desenhar têm suas semelhanças
e seus pontos de afastamento. Um texto é lido, no ocidente, da esquerda para a
direita, de cima para baixo, considerando a dimensão física do papel ou do
suporte da leitura. Mas nem sempre ele é escrito assim, da esquerda para a
direita, de cima para baixo. Entre a escrita e a leitura existem muitos ctrl-c, ctrl-
v, círculos e setas para reposicionar a frase, ou até mesmo apagar (seja com a
borracha ou a seta que indica a esquerda). Um vai-e-vem que, nesse ponto, se
parece com o desenho.
O desenho apresenta uma composição do todo em relação ao papel.
Ele é desenhado em direções diversas, de cima pra baixo, de baixo para cima,
da esquerda para a direita, da direita para a esquerda. E quando observado,
salvo páginas de desenhos em quadrinhos, o olho vai e volta, para em um ponto,
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retorna, assume outros ritmos. Às vezes o papel apresenta marcas do processo:
um risco do esboço inicial que fica, uma linha apagada que se torna uma linha
marcada, quase tridimensional no papel, um traço “errado” que é absorvido pelo
resto e se torna parte fundamental do desenho.
Então me pergunto como escrever sobre desenho. Ou como desenhar
a escrita? Como escrever sobre processo em processo? Aliás, o que é estar em
processo, de uma obra aberta, de um pensamento por imagem do desenho?
Em um texto intitulado Some Kinds of Duration: the Temporality of
Drawing as Process Art (1999)
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, Pamela Lee retoma uma citação icônica de
Richard Serra em que o artista afirma que there is no way to make a drawing -
there is only drawing
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, e inicia uma reflexão afirmando que pensar o desenho
como o processo é quase tautológico, uma vez que ambos são questões
intrínsecas e combinadas. Falar de desenho é falar de processo. A autora insiste
que existe na afirmação de Serra um desejo de superar dicotomias tradicionais
relativas aos meios e fins, uma vez que meios e fins estão inseparavelmente
entrelaçados, o que fica evidente na duração do fazer. Assim, Lee conclui que o
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Catálogo da exposição Afterimage: Drawing Through Process, organizado por Cornelia H. Butler, que
aconteceu entre 11 de abril e 22 de agosto de 1999 no The Museum of Contemporary Art de Los Angeles
e que contou com mais de 160 obras em desenho, da produção de diferentes artistas entre 1966 e 1974.
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Não existe uma maneira de fazer um desenho, existe apenas o desenho/existe apenas desenhando
(tradução minha). Na língua inglesa a palavra desenho é a mesma que o verbo no gerúndio “desenhando”,
trata-se de um jogo de palavras com o substantivo e o verbo, o objeto e ação.
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desenho não é simplesmente um meio orientado para um fim, mas que sua
finalidade é uma mediação em si a caminho de algo mais (LEE, 1999, p. 48).
Gosto de pensar em alguns de meus trabalhos como algo em
processo, e sem definição clara do que é, de fato, o trabalho final. No trabalho
que apresento neste ensaio visual, não se sabe precisar o limite do que é o
desenho finalizado e o seu processo de execução: o que apresento como obra
final?
(a) O díptico em papéis A1?
(b) O vídeo no link na nota de rodapé?
(c) O still das imagens organizadas em poster?
(d) O texto que acabo de escrever?
(e) Todos eles combinados?
Deixo aqui algumas dessas inquietações em texto da mesma forma
que tento desenhar linhas retas em ambas as direções: indecisas, cambaleantes,
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não tão retas assim. Ainda que em texto, finalizo em apenas 87 linhas desde que
comecei o “Play”.
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Fig 1, Anna Moraes, 56 linhas com a mão direita e 56 linhas com a mão esquerda (still de
vídeo), 2021. Vídeo, 1920x1080px, 6’02’’. Florianópolis. Fonte: (Anna Moraes).
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Fig. 2, Anna Moraes, 56 linhas com a mão direita e 56 linhas com a mão esquerda (still de
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Fig. 3, Anna Moraes, 56 linhas com a mão direita e 56 linhas com a mão esquerda (still de
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Fig. 4, Anna Moraes, 56 linhas com a mão direita e 56 linhas com a mão esquerda (still de
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Fig. 5, Anna Moraes, 56 linhas com a mão direita e 56 linhas com a mão esquerda (still de
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Fig. 6, Anna Moraes, 56 linhas com a mão direita e 56 linhas com a mão esquerda (still de
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Fig. 7, Anna Moraes, 56 linhas com a mão direita e 56 linhas com a mão esquerda (still de
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Fig. 8, Anna Moraes, 56 linhas com a mão direita e 56 linhas com a mão esquerda, 2023.
Poster, 134,1x59,4cm. Florianópolis. Fonte: (Anna Moraes).
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Referências
LEE, Pamela. Some Kinds of Duration: The temporality of drawing as
process art. In: BUTLER, Cornelia H. Afterimage: drawing through process. The
Museum of Contemporary Art, Los Angeles. 1999.
Data de submissão: 21/11/2023
Data de aceite: 15/01/2024
Data de publicação: 01/02/2024